De Volta Para Casa
(Penny Jordan)
Ttulo original: Corning Home
Saga da Famlia Crighton - 10
Copyright (c) 2000 by Penny Jordan
Originalmente publicado em 2000 pela Silhouette Books, diviso da Harlequin Enterprises Limited.
Copyright para a lngua portuguesa: 2001 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Digitalizao: Polyana
Reviso: Adriana Queiroz

       RESUMO: A Volta do filho prdigo
       Anos antes, David Crighton desaparecera, deliberadamente. Dera as costas  famlia, ao lar e ao escndalo que provocara.
       Algum tempo depois, ele conheceu Honor Jessop, uma mulher que lhe deu amor e carinho como ele nunca recebera na vida. David, porm, no revelou a Honor sua 
verdadeira identidade... nem seu passado sombrio.
       Agora, no entanto, chegara o momento de Honor descobrir a chocante verdade. Os Crighton mal podem imaginar o tumulto que os espera... porque, finalmente, 
David est pronto para voltar para casa.
       CAPITULO UM
       
       Como est o vov?
       - No est muito bem, Joss - admitiu Jenny Crighton ao caula de dezessete anos, vendo o marido franzir o cenho.
       - Maddy conversou em particular comigo depois que o visitei - contou Jenny, - Est muito preocupada com ele. Apesar do sucesso das duas operaes na bacia, 
ele ainda reclama de dores, principalmente nas juntas. Tambm est emagrecendo, no tem se alimentando bem. Est definhando.
       -  Ben j tem mais de oitenta anos, Jen - observou Jon.
       Jenny percebeu seu cenho ainda franzido, preocupado. Ele no tinha dvida de que Maddy, a nora, casada com o filho mais velho, Max, cuidava bem de seu velho 
pai, porm sentia-se culpado, pois era ele quem deveria estar carregando esse fardo, bem como por...
       - Tia Ruth diz que Ben est ficando um velho rabugento - comentou Joss. - Parece que vive resmungando.
       - Talvez, mas no deve ser divertido sentir dor o tempo todo - lembrou Jenny, gentil.
       Joss sempre preferira a companhia da tia-av Ruth  do prprio av, e Jenny no podia culp-lo. Ruth sempre fora muito mais av, orientando Joss, do que Ben.
       De todos os netos, Ben Crighton s demonstrava afeto por Max. No que esse favoritismo tivesse a ver com ela ou Jon. Na juventude, Max no se dera bem com 
os pais, mas j haviam superado as diferenas. Agora, diante do quadro de Max com a esposa Maddy e as trs crianas, sentia no apenas amor e orgulho, mas uma humilde 
gratido pela vida bem-sucedida do filho.
       Embora hoje todos se referissem a Max com respeito, admirao e afeto, o fato era que ele renascera como ser humano. Tal transformao no ocorrera por vontade 
prpria, mas depois que ele trilhara o caminho estreito que separava a vida da morte. Um "acidente" que podia ter acabado com sua vida, ou feito dele um invlido.
       Felizmente, Max sobrevivera e voltara para a famlia, para comear uma nova vida ali, na pequena cidade de Haslewich, em Cheshire.
       Famlias! Jenny suspirou. Mas no passaria sem a sua, no excluiria nem um membro sequer, nem mesmo o sogro irritadio, Ben.
       A famlia Crighton era numerosa e tinha vrios ramos, porm todos cultivavam um interesse comum, quase uma herana gentica, o fascnio pelo mundo das leis, 
dos advogados, das procuradorias, dos juizes. Costumavam brincar, dizendo que todas as crianas Crighton, assim que passavam a entender o significado, quando perguntadas 
sobre o que queriam no Natal ou nos aniversrios, respondiam:
       -  Quero ser um CR.
       Conselheiro da Rainha. Ben tentara atingir esse objetivo sem sucesso, pressionara o filho incansavelmente e, depois, o neto, para realizar seu sonho.
       Jenny sabia que Max almejara esse objetivo e, de certa forma, no achava a atitude correta. Ento, no ano anterior, Max lhes contou que era quase certo que 
receberia aquela honra, enchendo-os de amor e orgulho. Jon at abraara o filho, parabenizando-o com emoo.
       Mas, como sempre, numa reunio de famlia, ao mesmo tempo em que elogiava o neto favorito pela conquista, Ben Crighton no resistiu e disparou:
       - Essa honra devia ter sido de meu filho David. Devia ter sido de David - repetiu, rancoroso, lanando um olhar de dio  neta Olvia. - Se no fosse por 
aquela sua me.
       Olvia no respondeu, mas Jenny identificou a dor em seu olhar e a raiva do marido, Caspar, solidrio.
       No adiantava consolar Olvia, lembrando-a de que Ben Crighton dava pouco valor e amor s outras netas tambm. Ben podia ter nascido no sculo vinte, mas 
nunca abraara a tica a ponto de aceitar que mulheres eram to capazes profissionalmente quanto os homens. As conquistas dos membros femininos da famlia, Ben ignorava 
ou criticava, opinando que os cargos eram mais adequados aos homens.
       - Vov vai morrer? - perguntou Joss  me. Jenny viu a ansiedade em seu olhar. Seu caula, embora amadurecesse, continuava refm de seus medos, conseqncia 
da sensibilidade que o marcara desde criana.
       - No sei, Joss - respondeu Jenny. - Segundo o mdico, no h motivo para esperarmos o pior. - Fez pausa para escolher as palavras com cuidado. - Mas seu 
av nunca foi um homem satisfeito com a vida. Ele...
       - Ele ainda sente falta de tio David, no ? 
       Jenny e Jon trocaram olhares. Joss apontara com preciso a verdadeira causa da indisposio de Ben.
       David Crighton, irmo gmeo de Jon, desaparecera poucas semanas aps a festa do qinquagsimo aniversrio deles. Pouco depois, Jon descobriu que David movimentara 
fraudulentamente a conta bancria de uma viva idosa, cujos negcios administrava.
       Tia Ruth interviera, compensando o "emprstimo" de David de modo a evitar o escndalo que prejudicaria no apenas o culpado, mas tambm os inocentes. David 
poderia ter manchado a reputao do escritrio de advocacia da famlia, do qual era scio, dirigido pelo irmo mais tranqilo e menos exibicionista, Jon. No obstante, 
Jon se opusera veementemente  deciso de Ruth, crente em que a verdade e a honestidade deviam estar acima dos interesses da famlia e dele mesmo.
       No final, entretanto,  vontade de Ruth prevalecera, considerando que no sabiam se David tinha a inteno de devolver o dinheiro, ou se a viva, agora j 
falecida, realmente lhe emprestara a quantia.
       A princpio, somente Jon, Olvia e Ruth ficaram sabendo do ocorrido, porm, aps uma discusso, decidiu-se que contariam aos mais prximos, pois, na opinio 
de Ruth, no devia haver segredos entre casais e membros da famlia. S no contaram nada a Ben por altrusmo.
       No souberam mais nada sobre David, apesar das tentativas de Jon de descobrir seu paradeiro. A ltima notcia era de que estaria na Jamaica, mas Max fora 
at l e no encontrara nenhuma pista. Como se isso no bastasse, levara uma facada ao ser atacado por ladres numa praia jamaicana.
       Com o sumio de David, a mulher dele, Tnia, voltara para a casa dos pais, na costa sul, deixando o filho Jack com Jon e Jenny, que acabaram adotando-o.
       Com pouca diferena de idade, Jack e Joss sempre se deram bem e eram como irmos.
       Naquele momento, Jenny no se preocupava com a ala jovem da famlia Crighton, mas com seu membro mais velho, Ben, que enfraquecia cada vez mais.
       - Ele me chamou de David na semana passada - contou Joss  me, triste.
       Jenny franziu o cenho. Joss no se parecia nada com o tio.
       -  Acha que tio David vai voltar um dia? - indagou o rapaz.
       Jenny olhou desamparada para o marido.
       -  Duvido, Joss - respondeu Jon, gentil. - David estava... est...
       Deteve-se e meneou a cabea. No queria contar ao filho que David era um irresponsvel que nunca se importara com os sentimentos da famlia, alm de ter fugido 
covardemente. Graas ao pai, que sempre o protegera das conseqncias de seus atos, freqentemente  custa de Jon, David crescera acreditando que podia fazer o que 
bem entendesse. David era o filho favorito, o menino loiro de olhos azuis que Ben colocara num pedestal to alto que a queda fora inevitvel, percebia Jon, agora.
       Apesar das comparaes cruis do pai ao longo dos anos, Jon sempre amara o irmo gmeo, ainda o amava, s que no mais to cegamente quanto o pai exigia, 
no mais a ponto de subjugar suas prprias necessidades e sentimentos. Com a ausncia de David, sua personalidade florescera.
       - No acho que ele queira voltar - opinou Jon.
       - Nem mesmo se souber que vov quer v-lo? - indagou Joss.
       Desolado, Jon olhou para Jenny.
       - No  to simples assim, Joss - explicou a me. - H problemas... e...
       -  por causa do dinheiro - interrompeu Joss. - Mas ele ainda pode voltar, pode ver o vov. Com certeza, se soubesse o quanto vov quer v-lo...
       - Talvez, se ele quisesse - concordou Jenny. Pessoalmente, no achava que faria a mnima diferena. David sempre fora egosta, ftil, um homem fraco que jamais 
considerara os sentimentos ou necessidades das outras pessoas. - De qualquer forma, como no sabemos onde ele est, nem como entrar em contato...
       - Mas ele e papai so gmeos - lembrou Joss, num tom que espantou os pais, - H uma ligao entre gmeos, alguns conseguem se comunicar por telepatia.  - 
Como ningum comentava nada, exemplificou: - Como Katie e Louise.
       Jenny suspirou. Era verdade que suas filhas gmeas tinham uma ligao especial. Quando uma precisava de ajuda ou se machucava, a outra sempre sabia, mesmo 
estando a quilmetros de distncia.
       - Joss, eu no acho... - comeou Jenny. Ento, deteve-se e olhou para Jon.
       -  David e eu nunca estivemos ligados dessa forma - afirmou Jon, spero.
       - Mas podia tentar - insistiu o filho. - Por vov.            
       Jenny avaliou a expresso do marido. Ele estava aborrecido com algo, algo que no queria comentar.
       - Joss... - comeou ela, gentil, mas o filho a cortou.
       - Quando me tomou por David, vov... comeou a chorar, disse que tinha sentido a minha falta, que a vida dele no tinha sentido sem mim. Nunca fui muito ligado 
a tio David e sei o que todos pensam dele. At Jack diz que gostaria de ser seu filho, pai, mas vov...
       Sem falar nada, Jon aproximou-se do filho e pousou o brao em seus ombros. O rapaz j era um pouco mais alto que ele, mas o corpo, os ossos ainda pareciam 
vulnerveis.
       Jon o abraou e lhe acariciou os cabelos. Ambos tinham os olhos marejados.
       - Tentamos encontr-lo, filho - observou, rouco, _ Mas, s vezes, as pessoas simplesmente no querem ser encontradas. Ele pode estar em qualquer lugar.
       -  Mas e o vov? Ser que ele no se lembra de que vov sente sua falta e est ficando velho?
       Jon suspirou, no sabia o que dizer ante o tom emocionado do filho.
       David e o pai sempre foram ligados, mas porque Ben atribura ao filho preferido caractersticas elevadas que ele nunca tivera de verdade. Sustentar aquela 
fico, manter a falsidade, ano aps ano, dcada aps dcada, acabara levando-os a uma relao autodestrutiva. Para termin-la, s se um dos dois desaparecesse, 
o que David acabara fazendo.
       Sim, Jon sabia que o pai sentia muito a falta de David, mas de um David que ele mesmo criara. Acreditava que o irmo gmeo tivesse sofrido um trauma ao se 
dar conta de que no era o super-homem que o pai sempre proclamara. E Ben ficaria ainda mais abalado, se percebesse tambm. Mas aquilo j era passado. Aps o desaparecimento 
de David, a famlia sofrera uma srie de transformaes. Somente agora seu prprio casamento apresentava a ligao fsica e emocional que sempre desejara.
       Se voltasse de repente, David ficaria espantado com as mudanas. A filha, Olvia, estava casada e era me. Jack, o filho, j era um rapaz de dezenove anos 
pronto para iniciar o primeiro ano de faculdade. O sobrinho Max estava casado e tinha trs filhos.
       Sim, havia uma nova gerao de bebs, incluindo as netas do prprio David. Olvia nunca perdoara o pai pelo que lhes fizera, que quase resultara no fim de 
seu relacionamento com o marido, Caspar. A me, Tnia, sofria de desordem alimentar, bulimia, e morava longe. No relacionamento entre me e filha, Olvia sempre 
considerara que a me era a criana. Embora nunca tivesse dito, culpava o pai pelos problemas emocionais da me.
       Olvia. Cenho franzido, Jon liberou o filho. Estava cada vez mais preocupado com a sobrinha. Achava que ela trabalhava demais, era a primeira a chegar ao 
escritrio e a ltima a sair. Chegou a comentar a respeito, querendo ajudar, mas ela reagira mal. Depois, desculpando-se, Olvia explicara que passava mais tempo 
no escritrio porque no podia levar trabalho para casa.
       - Caspar acha que devemos passar o mximo de tempo com as crianas. Claro, concordo, mas so tantos pareceres e contratos para ler...
       Jon demonstrara compreenso, porm desconfiava de que a sobrinha vinha usando o trabalho como barreira entre si mesma e a famlia. Talvez Jenny pudesse conversar 
com a sobrinha. As duas sempre se deram bem.
       Pouco depois,  noite, quando se preparavam para dormir, Jenny comentou com Jon:
       - Lembrei-me daquela vez em que Louise machucou a perna e Katie, que estava num passeio com uma amiga, insistiu em voltar porque a irm precisava de sua ajuda...
       Jon lembrou-se tambm e imaginou aonde a esposa queria chegar.
       -  Quando eram meninos, voc e David, vocs nunca... - Jenny calou-se ante a expresso desgostosa do marido.
       -  David e eu nunca tivemos a ligao que Lou e Katie tm. Acha que se houvesse um jeito, qualquer jeito, de trazer David para casa, eu no experimentaria?
       Jenny o abraou. Jon j estava na casa dos cinqenta anos e levava uma vida sedentria, porm, mantinha-se atraente. Ao menos, ela achava. Aps anos reprimindo 
os sentimentos, no deixava de sentir prazer agora que podia acarici-lo livremente.
       Como todos os homens da famlia Crighton, Jon era alto, de ombros largos e perfil msculo. Os cabelos eram fartos e tinham um tom mais caramelo que loiro. 
As mulheres ainda o olhavam cobiosas quando saam juntos, mas ele nem reparava. Era um marido leal e amoroso e Jenny sentia-se afortunada com o casamento harmonioso. 
Mas no estavam livres de desentendimentos. Jon podia ser teimoso, cabea-dura s vezes, porm, era raro v-lo zangado como naquele dia. Falar do irmo gmeo parecia 
exasper-lo.
       Jon tinha personalidade forte, fora emocional e compaixo. Outro em seu lugar, ante o favoritismo do pai pelo outro, teria ficado traumatizado. Solidrio 
demais, ele no caiu na armadilha e Jenny amava justamente sua delicadeza, caracterstica que o sogro tomava como fraqueza.
       - Vamos dormir - convidou ela, e o beijou no queixo.
       Jon olhou para o relgio no criado-mudo. Jenny estava adormecida a seu lado, aninhada junto a ele como uma criana. Sorriu ao ver o rosto tranqilo. Fizeram 
amor e ela adormecera logo depois, o que era sua prerrogativa como homem, certo? Para ser justo com Jenny, ele sempre dormia primeiro, porm, naquela noite, por 
algum motivo, estava sem sono.
       Por algum motivo... S havia um motivo para perder o sono... David. Nem mesmo a Jenny confidenciara... admitira... o quanto pensava no irmo, quanto sentia 
sua falta. Era irnico, pois sabia que David provavelmente no pensava nele, nem sentia sua falta. Para completar, sem a presena do irmo gmeo, sua vida melhorara 
muito. Onde estaria ele? Pensaria na famlia... nele? Deliberadamente, fechou os olhos e se imaginou de volta  poca em que eram crianas. Foram anos dolorosos, 
sempre colocado de lado pelo pai, ignorado e indesejado. Ben lhe dizia que tinha sorte por ser irmo de David.
       -  David nasceu primeiro - repetia o pai, e Jon logo aprendera que o irmo seria sempre o primeiro, o sol, a estrela, e que nunca deveria tentar ocupar seu 
lugar.
       Depois que cresceram, achou natural permanecer  sombra do irmo, anular-se para que seu gmeo se destacasse.
       Sim, Jon tinha milhares, milhes de imagens de David guardadas na memria. David...
       -  Voc parece...  preocupado.  Em que est pensando?
       David sorriu, provocando:
       -  Uma vez jesuta, sempre jesuta. 
       O homem mais velho riu.
       - Confesso que, s vezes, o hbito de encorajar os outros a falar  irresistvel, mas somente pelos motivos mais altrustas, devo salientar.
       David desviou o olhar, emocionado:
       - Em noites como esta, fico imaginando o que compele os seres humanos a agir de forma to insensata quando temos esse universo todo, quando temos a possibilidade 
de melhorar nossas vidas, de nos aprimorar...
       -  uma noite perfeita - concordou padre Incio, sentando-se ao lado de David na rocha de onde podiam contemplar no apenas o cu estrelado da Jamaica, como 
tambm o mar imenso. - Mas j houve outras noites igualmente perfeitas, que no resultaram em divagaes filosficas.
       -  Filosficas. - David meneou a cabea. --No. Ser filosfico significa ser imparcial, significa falar da condio humana em termos gerais, enquanto eu estava 
pensando... desejando... lamentando...
       O padre adivinhou.
       - Voc quer ir para casa.
       -  Casa! - David riu, impiedoso. - Aqui  a minha casa e j  muito mais do que mereo.
       - No, David - corrigiu o padre, gentil. - Aqui  onde voc mora. A sua casa  onde o seu corao est. Sua casa  na Inglaterra... em Cheshire...
       -  Haslewich - especificou David. - Sonhei com meu pai ontem  noite. Fico imaginando o que contaram a ele... sobre mim... sobre meu desaparecimento; Fico 
imaginando se...
       -  Pelo que me contou sobre sua famlia, seu irmo, seu gmeo... Duvido que tenham contado qualquer coisa que o magoasse. Mas, se quer mesmo saber, devia 
voltar...
       - Voltar - repetiu David. - No posso.
       - No existe a expresso "no posso" - afirmou o padre.
       - Sou um ladro, um criminoso. Roubei dinheiro - lembrou David, spero.
       - Cometeu um dos pecados capitais - concordou o padre. - Mas se arrependeu, reconheceu o fato com humildade. J se reconciliou com a verdade.
       - Talvez - concordou David, sombrio. - Mas, aos olhos da lei, ainda sou culpado.
       - O que  mais importante para voc? - questionou o padre. - O fardo que carrega pelo dbito com a famlia ou o que carrega perante os olhos da lei?
       - Meu pai pode j no estar vivo.
       - Voc tem uma famlia - observou o padre. - Um irmo... uma filha... um filho...
       -  Eles esto melhores sem mim - concluiu David, desviando o rosto para que o padre no visse sua expresso.
       - Talvez... Talvez, no.
       -  No posso voltar - repetiu David, menos convicto do que gostaria.
       Padre Incio preparava-se para aquela conversa desde que lera no jornal local que o sobrinho de David, Max, fora atacado na praia. David se lhe tornara to 
chegado quanto um filho e o amor que sentia por ele era paternal. Contudo, no era pai dele e, mesmo que fosse, tinha em mente que um pai amoroso devia dar liberdade 
ao filho para viver a prpria vida.
       Responsvel por uma enfermaria que cuidava de doentes terminais, somente os mais pobres, aos quais a sociedade no oferecia ajuda, padre Incio encontrara 
David bbado, cado numa sarjeta de Kingston, e ainda no sabia por que parara para ajud-lo. David praguejara na ocasio e depois, sbrio, culpara-o por no t-lo 
deixado morrer em paz.
       Meses se passaram at que David comeasse a revelar fatos de sua vida, seu passado. O padre no o julgara, no lhe cabia julgar ningum. Sua misso era ajudar 
ao prximo, curar, oferecer amor irrestrito.
       Entrara para o monastrio cheio de idias, mas sua f fora abalada ao descobrir que o homem que mais admirava, que o inspirava, era culpado do pecado mais 
repreensvel. Padre John quebrara seu voto de castidade. No apenas mantinha uma relao secreta com uma mulher, como tinha um filho.
       Ainda muito jovem e sentindo-se dividido, temeroso e perdido, padre Incio conclura que a verdade devia prevalecer. O resultado foi catastrfico. Padre John 
tirou a prpria vida e ele, Francis O'Leary, conhecido como padre Incio, foi considerado o responsvel pela tragdia. At o bispo pensava assim.
       Transferido, tentara recomear, mas a mcula o tornara um intocvel, algum que devia ser evitado. Era um padre sem f nos outros e em si mesmo, a trabalhar 
como voluntrio em causas missionrias.
       - Mesmo que quisesse voltar para casa, no poderia - comentou David, trazendo o padre de volta ao presente. - No tenho como pagar a passagem area.
       Viviam de forma bem simples. Plantavam o prprio alimento e dependiam da generosidade e gratido dos pacientes e suas famlias para a complementao.
       - H outras formas de viagem - observou padre Incio. - H no porto um iate que vai para a Europa. O capito esteve no Coconut Bar ontem e disse que estava 
contratando gente que quisesse trabalhar pela passagem.
       - Um iate para a Europa? - David desconfiou. - Qual  a carga? Drogas?
       -  No, o proprietrio est morrendo e quer voltar para casa.
       David encarou o padre.
       - Aids?
       - Imagino que sim.
       Boa parte dos pacientes ali sofriam daquele mal devastador e j tinham sido abandonados pelas famlias e amigos. Ao trabalhar com padre Incio, David aprendera 
a lidar com a doena e suas vtimas. J no tinha medo.
       - No posso ir... no agora... - resistia David, mas sem disfarar a vontade.
       -  Sempre sonha com seu irmo?
       - No como ontem  noite - admitiu David. - Sonhei com o tempo em que ramos crianas. Era to real. Quando ganhamos nossas primeiras bicicletas, mas o mais 
estranho... - Franziu o cenho. - No sonho, embora pudesse me ver andando na bicicleta, sentia como se fosse Jon.
       O padre no comentou nada. De longe, David vira o irmo gmeo Jon entrando e saindo do hospital em que o filho Max fora internado, at o dia em que pudera 
lev-lo de volta  Inglaterra. A vida era to preciosa, pensou padre Incio. Ciente da prpria debilidade fsica, rezou para que Jon Crighton recebesse o irmo de 
volta.
       - No posso ir - repetiu David, mas o padre sabia que ele podia e iria.
       
       CAPTULO DOIS
       Al, sra. Crighton... est  bem, Maddy. - Honor sorriu quando a mulher do outro lado da linha insistiu para que se tratassem pelo primeiro nome. - Posso examinar 
seu sogro, embora no possa prometer...
       Aps tantos anos de prtica, j se acostumara  tendncia dos pacientes e suas famlias, tendo desistido da medicina convencional, a acreditar que seria capaz 
de elaborar uma poo mgica.
       - Medicina homeoptica no  nenhum tipo de magia negra,  uma cincia exata - costumava pregar, severa.
       Afinal, muitos remdios modernos originaram-se de plantas, ainda que mais tarde os cientistas tivessem descoberto como produzir os princpios ativos sinteticamente 
nos laboratrios. Honor achava que drogas e alimentos sintticos nem sempre faziam bem ao corpo humano e, a julgar pelo nmero crescente de pacientes, outras pessoas 
comeavam a pensar o mesmo. Ela nem sempre fora herbolria. Longe disso.
       Na dcada de setenta, entrara para a faculdade de medicina. Morena de olhos expressivos, queria fazer tudo de uma vez: estudava, ia a festas, tentando desesperadamente 
negar a origem e as referncias aristocrticas, a fim de se integrar ao cenrio londrino. Ironicamente, no conhecera o falecido marido em Londres, mas apresentado 
por uma das amigas da me.
       Lady Caroline Agnew organizara uma festa de debutante para a filha e a me de Honor insistira para que ela comparecesse. Rourke estava l, fotografando o 
evento. Lady Caroline tinha contatos na Vogue e ele era o fotgrafo do momento, mais acostumado a trabalhar com modelos de pernas longas do que com debutantes rechonchudas.
       Honor ficara fascinada por Rourke. Tudo nele indicava que pertencia ao mundo para o qual desejava entrar. As roupas, os cabelos, a atitude e, acima de tudo, 
o sotaque plebeu. De algum modo, conseguira chamar a ateno dele e deixaram a festa juntos.
       Trs meses depois, tornaram-se amantes e, aps mais trs meses, casaram-se. Ela abandonou a faculdade, e durante dois anos, completamente apaixonada pelo 
marido, permanecera cega  realidade. Rourke a traa com freqncia, embalado por bebida e drogas. As contas se acumulavam porque no conseguiam pag-las, as dificuldades 
financeiras caracterizando a vida deles. Ento, ela engravidou.
       A primeira filha, Abigail, tinha menos de seis meses quando Rourke abandonou Honor pela primeira vez. Os pais dela, que nunca a tinham perdoado por fazer 
aquele pssimo casamento, recusaram-se a acolh-las em casa, mas passaram a lhe conceder uma mesada modesta, suficiente para o aluguel de um pequeno apartamento. 
A fim de complementar a renda, Honor arranjou emprego numa farmcia de manipulao, quando retomou o interesse por medicina. Na loja antiga com depsito no andar 
superior, ela descobriu um livro sobre ervas e no conseguiu larg-lo mais.
       Rourke, aps terminar outro caso amoroso, batera em sua porta certa noite chuvosa e ela o aceitara mais uma vez. Nove meses depois, quando Ellen nasceu, ele 
j estava com outra mulher, muito mais velha do que ele e rica.
       Sozinha novamente, Honor rendeu-se de vez ao fascnio pela homeopatia. Um dia, na sala de espera do dentista, viu o anncio de uma herbolria e entrou em 
contato.
       Agora, herbolria capacitada aps anos de estudos e prtica, sempre aconselhava os pacientes a procurar praticantes com boa formao e treinamento quando 
precisassem de formas alternativas de cura.
       Tambm por causa da homeopatia, fora morar na propriedade de seu primo em segundo grau, lorde Astlegh, em Cheshire, atrada pela possibilidade de cultivar 
suas prprias ervas de forma natural, livre de agrotxicos e qualquer elemento qumico sinttico. As filhas no gostaram da casa isolada, reclamando de desconforto, 
umidade, tudo. Honor prometeu contratar um profissional para irem reformando aos poucos, de modo que teriam um lar bem aconchegante.
       -  um casebre - resmungou Abigail.
       - Um casebre miservel - completou Ellen.
       - As pessoas vo achar que voc  mesmo uma bruxa - avisou Abigail.
       -  Obrigada. Quando precisar levantar o meu ego, sei a quem procurar - ironizou Honor.
       - Oh, no, me! Eu no disse que voc se parece com uma bruxa - esclareceu Abigail. - Na verdade, voc est muito bem para a sua idade.
       - Humm... Algo em torno de quarenta e cinco - concordou Ellen.
       -  Na verdade, quarenta e quatro - corrigiu Honor.
       Abigail no se conformava:
       - Francamente, me. Com todo o dinheiro que herdou de papai, poderia ter comprado uma casa mais confortvel. Sei que trabalhou muito para nos criar, mas agora...
       - Agora, escolhi viver aqui - declarou Honor, decidida.
       Ainda no superara completamente o choque de receber uma herana to vultosa de Rourke. No esperava que ele morresse to jovem e de uma doena to banal 
quanto uma gripe que se tornou pneumonia. Ficara ainda mais surpresa ao descobrir que, como nunca se divorciaram legalmente, era sua parente mais prxima. A modelo 
magra e alta com quem ele vivera os ltimos dias alegou no precisar de herana. Encarando Honor com seus olhos de viciada, afirmara, sem emoo, j ser rica.
       A fortuna de Rourke no provinha de seu trabalho mais recente como fotgrafo de moda, mas das fotos do incio de sua carreira, consideradas originais, que 
se tornaram itens de colecionador. Altamente valorizadas, agora valiam milhares de libras.
       Honor fizera questo de dividir a herana com as filhas. As filhas de Rourke. J adultas, as duas a tratavam como se ela precisasse de me. Abigail e Ellen 
adoravam o primo lorde Astlegh, bem como sua manso, Fitzburgh Place, mas detestavam a casa que a me escolhera para morar.
       - No sei como pode viver aqui - desabafou Ellen, passando o dedo no parapeito sujo.
       - Ento, no pense mais nisso - aconselhou Honor, gentil.
       Amava demais as filhas, eram bonitas, inteligentes, independentes e bem-humoradas, porm lembravam um pouco sua me na atitude e no jeito de falar.
       -  Honor sempre foi geniosa - observava a me, com freqncia.
       Honor tinha conscincia do sofrimento e contrariedade que infligira  me ao dar as costas  vida que todos esperavam que ela assumisse. Ao final do segundo 
grau, deixara os pais chocados e confusos ao rejeitar um colgio para moas na Sua a fim de estudar Medicina. A desaprovao foi total quando assumiu o estilo 
de vida irreverente com o marido e os novos amigos. Aos membros mais convencionais da famlia, Honor vivia lembrando que seus antepassados aristocratas, de quem 
se orgulhavam tanto, haviam conquistado as terras e ttulos por feitos que beiravam o roubo e o barbarismo.
       Seus pais haviam se esforado, tinha que reconhecer. O pai era o esteretipo do nobre aristocrata, de famlia muito respeitada, embora no to rica quanto 
 de sua me. De fato, era vantajoso permutar contatos de alto nvel por riqueza. A me era filha nica de um dono de moenda bem-sucedido. A famlia sempre fizera 
bons casamentos e, por isso, o primo lorde podia agora ser generoso com os arrendatrios, ao mesmo tempo que mantinha a propriedade em excelente condio.
       Menos a casa que alugara para Honor. Ela no quiser revelar s filhas o verdadeiro motivo de a casa estar to mal-conservada.
       Segundo a lenda local, a casa fora construda originalmente por ordem do irmo caula do lorde Astlegh na poca para alojar uma amante. Ele a visitava e passava 
vrios dias ali, apesar da desaprovao do irmo e do resto da famlia, que j arranjara um casamento vantajoso para ele com a filha de outro proprietrio.
       Mas o rapaz no queria saber. A nica mulher que queria, a nica que poderia amar era a cigana que mantinha na casa. Ela costumava andar pela mata descala, 
desprezando os confortos do lar que ele construra.
       - Venha comigo - implorou ela, ao saber dos planos que a famlia tinha para ele. - Podemos ir embora juntos...
       Ele se negou. Adorava a boa comida, os bons vinhos e livros.
       -  No posso ficar aqui - disse a cigana. - Sinto-me presa. Preciso viajar, ser livre. Venha comigo.
       - No posso - respondeu ele, triste.
       - Voc  um covarde - opinou ela, desdenhosa. - No tem fogo, no tem paixo.  um fraco. No  um homem de verdade, no como um homem cigano. Um homem cigano 
mata pela mulher amada.
       No bosque escuro em que discutiram, o rapaz interpretou o brilho das lgrimas nos olhos da cigana como de desafio.
       Depois, quando os corpos foram encontrados, disseram que ela o enfeitiara e que somente matando-a e se matando em seguida o rapaz conseguira se livrar do 
encanto.
       Como se tratava da famlia mais poderosa da regio, James, o irmo mais velho e ento lorde Astlegh, usara sua influncia para abafar o ocorrido, mas um boato 
se espalhou entre a populao, de que o bosque e a casa eram mal-assombrados. Arrendatrios que zombaram dos alertas e ocuparam a casa logo decidiam se mudar novamente.
       Era uma casa razoavelmente grande e bem construda, de tijolos vermelhos com pequenos arcos e janelas elegantes, que as mulheres da classe alta classificariam 
como casa de campo ideal. Entretanto, o primo no conseguia arrendatrio. Ele mesmo contara a lenda a Honor.
       - J viu algum fantasma l? - perguntou Honor, curiosa.
       Ele negou.
       -  Uma bobagem, se quer saber - comentou, amuado. - Mas no queria que soubesse disso. Vou deixar que fique l de graa. No posso vender...  parte da propriedade. 
Ter que fazer a reforma sozinha... o pessoal no quer trabalhar l.
       Honor se apaixonou pela casa assim que a viu.
       Fora visitar o primo, pois soubera por parentes que ele sofria de clicas estomacais e que os mdicos no encontravam soluo. Nem imaginara que, com isso, 
arranjaria uma moradia. J procurava casa havia algum tempo.
       A herana de Rourke lhe permitiria fazer uma reforma completa, alm de realizar seu maior sonho, que era no apenas manipular as ervas, mas cultiv-las. Foxdean 
e as terras adjacentes eram perfeitos para seus propsitos. Ora, podia at convencer o primo a deix-la construir uma estufa, onde cultivaria as ervas mais sensveis 
s intempries.
       Numa loja de alimentos naturais de Haslewich, conversara longamente com o proprietrio e conseguira uma relao de inmeros pacientes em potencial. Logo, 
sua agenda ficou lotada. Por isso, ao ouvir Maddy Crighton descrever o estado do av do marido, avisou:
       - No poderei prescrever um tratamento para o sr. Crighton enquanto no o vir, claro, e infelizmente, s tenho hora para daqui a algumas semanas.
       Seguiu-se uma breve pausa do outro lado da linha e ento ouviu Maddy dizer:
       - Oh, bem. Nesse caso, acho que teremos que esperar.
       Honor anotou a lpis na agenda o novo compromisso. Ento, fez inmeras perguntas sobre o paciente.
       -  Ele operou a bacia duas vezes nos ltimos anos, mas ainda se queixa de dor - informou Maddy. - Mas no  isso que mais nos preocupa. Ultimamente, ele parece 
ter perdido a vontade de viver. Sempre foi uma pessoa difcil, um pouco rabugento, mas, nesses ltimos meses...
       - A dor contnua acaba debilitando o paciente - ponderou Honor. - Se o mdico no prescreveu analgsicos...
       -  Oh, ele receitou, mas vov no quis saber. Ele no gosta de tomar remdios... e no confia muito nos mdicos.
       - Oh, que lstima. - Solidria, Honor concluiu que Ben Crighton era o que os mdicos chamavam de paciente difcil.
       - Acho que estou passando um quadro sombrio - desculpou-se Maddy. - Vov pode ser um pouco difcil, s vezes, mas detesto v-lo sofrendo. Ele no  to velho, 
afinal, tem oitenta e poucos anos. Sei que deve ser frustrante para ele no ser capaz de fazer o que costumava. No dirige mais e no pode ir muito longe,
       - Tente persuadi-lo a tomar os analgsicos que o mdico receitou - aconselhou Honor.
       - Acha que vo ajudar? - indagou Maddy.
       - Espero que sim. Voc ficaria espantada com a diferena que uma pequena mudana na dieta pode provocar nas pessoas que sofrem de dores nas  articulaes. 
Podemos aplicar cataplasmas nas juntas feitos de vrias ervas medicinais. Conversaremos melhor sobre isso depois que eu examinar o sr. Crighton.
       Desligando o telefone, Honor foi para a cozinha antiga nos fundos da casa. Estava transformando aquele ambiente em saleta. No corredor que ligava a cozinha 
atual  saleta, instalara estantes para seus livros. Procurou um ttulo, retirou um volume e o levou para a cozinha.
       Encontrara aquele volume em meio a uma pilha de documentos embolorados nos fundos de uma pequena livraria na cidade de Wells. Intitulava-se Um Herbrio Medieval 
e ela se apoderara dele no mesmo instante. Agora, virando as pginas, detinha-se no subttulo "Amoreira Silvestre".
       - "Para dor nas juntas, pegue uma poro da planta, ferva com um tero de poro de vinho e aplique o fluido nas juntas" - leu em voz alta.
       Fechou o livro e recostou-se na cadeira. A homeopatia percorrera um longo caminho desde os primrdios, mas o objetivo ainda era o mesmo, curar os doentes.
       No mundo competitivo das drogas modernas, os laboratrios empreendiam pesquisas varrendo reas remotas  procura de plantas, sonhando com a panacia capaz 
de curar a humanidade de todos os seus males e ainda lhe conceder a juventude eterna.
       Pessoalmente, Honor achava que os esforos e recursos seriam mais bem empregados na conservao das florestas tropicais. Com certeza, o aumento de casos de 
asma e eczema em crianas era conseqncia da poluio na atmosfera terrestre. As rvores limpavam o ar. Sem elas...
       Honor j tinha mudas de rvores para formar um novo bosque nas terras arrendadas. A filha Ellen, biloga, irritava-se com suas crenas e opinies, pois enxergava 
o tema de outro ngulo. J Abigail, contadora, resumia tudo em termos de lucros e prejuzos.
       Espantava-se por ter produzido filhas to prticas... Ou teriam se tornado cautelosas devido s dificuldades que enfrentaram na infncia?
       Ao se levantar e encher a chaleira com gua para fazer caf, viu o gato preto passar pela porta. Em sua primeira semana na casa nova, esse gato aparecera, 
instalara-se e a adotara.
       Honor chegara a procurar o dono do bichano, mas ningum se manifestou. Como ele era adepto de uma rotina inabalvel, Honor sabia, sem olhar para o relgio, 
que eram trs horas.
       O gato devia ter chegado a casa seguindo a trilha de britas que levava de Haslewich a Chester, passando pela propriedade do primo.
       Honor franziu o cenho ao reparar na porta em mau estado. Como o resto da casa, precisava de reparo ou substituio. Tinha que arranjar algum para comear 
a trabalhar na reforma imediatamente.
       J entrara em contato com duas empreiteiras, mas os oramentos foram exorbitantes, e com trs pequenos prestadores de servios, que se recusaram por motivos 
variados.
       Irritada quando o terceiro oramentista alegara ter "trabalho demais", Honor o desafiara:
       - No me diga que as pessoas aqui ainda acreditam naquelas histrias idiotas sobre o local ser mal-assombrado?
       O homem enrubesceu.
       -  No so apenas histrias - afirmou, sombrio. - Meu tio quebrou a perna trabalhando aqui. O membro infeccionou e ele acabou perdendo o membro.
       -  Um acidente - argumentou Honor. - Acidentes acontecem.
       - E, acontecem, mas j houve acidentes demais nessa casa - retorquiu o homem.
       - No acredito que as pessoas esto se recusando a trabalhar na casa por causa de uma histria tola sobre assombrao - queixou-se Honor ao primo, jantando 
a convite dele em Fitzburgh Place alguns dias depois. - Quero dizer...  to... to... ridculo.
       - H a histria da famlia Cooke - lembrou o primo. - Eles tm ligao com a tribo cigana da moa que morreu e, numa cidade to pequena, o povo no esquece.
       -  Oh, no estou dizendo que no houve um romance, nem que no tenha havido o desfecho trgico. E s essa idia tola de achar que a casa  mal-assombrada.
       - Humm... bem, os Cooke so teimosos e tm seu cdigo. Voc poderia tentar trazer algum de Chester...
       -  Podia tentar pagar quase o dobro do que pagaria a uma empresa de reformas grande tambm - ironizou Honor, com uma piscadela. - Estou comeando a achar 
que a casa com aluguel barato no foi um negcio to bom assim.
       Lorde Astlegh ironizou:
       -  Ah, bem, minha cara, sabe o que dizem a respeito de cavalo dado...
       - No se olham os dentes - completou Honor.
       Honor sorriu ao lembrar-se da tarde agradvel com o primo, um homem gentil, culto, interessante. Vivo e sem filhos, estava determinado a manter a propriedade 
intacta para o prximo na linha de sucesso. Para isso, procurava tornar a fazenda o mais auto-sustentvel possvel, pondo em prtica vrias idias inovadoras.
       Por exemplo, transformara as construes anexas em unidades auto-suficiente nas quais trabalhavam artesos locais. A procura por uma vaga era tanta que havia 
at lista de espera. As feiras de antiguidades e outros eventos promovidos no proporcionavam apenas uma renda extra, mas atraam visitantes para as unidades fabris, 
jardins e lojinhas de ch e lembranas.
       Falava-se agora em reformar a estufa de laranjas e conseguir licena para realizar casamentos l. Honor reconhecia que seria um cenrio perfeito, grande o 
bastante para abrigar as maiores recepes, com jardim interno. Entusiasmado, lorde de Astlegh planejava acrescentar rosas-trepadeiras brancas e uma fonte.
       S agora Honor descobria que aquelas idias todas eram do responsvel pela organizao das feiras de antiguidades, Guy Cooke.
       - Bom camarada - afirmou lorde Astlegh. - Preciso apresent-la ao casal. Eles tm uma filha bonita, mas no so da aristocracia. Se bem que sou suspeito para 
falar, com a histria pouco convencional de nossa famlia, no ?
       O gato miou, obrigando Honor a providenciar alguma comida. No dia seguinte, faria um esforo concentrado no sentido de encontrar um pedreiro... a menos que 
o destino fosse bondoso e lhe enviasse um do cu.
       -  Uma herbolria! No imagino vov... Acha que  uma boa idia? - indagou Max Crighton  esposa, desconfiado. - Ele j no gosta de medicina convencional...
       -  No precisamos contar que Honor  herbolria - argumentou Maddy, gentil. - No gosto de enganar vov, mas estou preocupada, Max. Ele parece to fraco que 
at as crianas comeam a notar.
       -  Humm... Entendo o que quer dizer - concordou Max, distante, tocando numa panqueca que a esposa acabara de tirar da frigideira. Queimou os dedos.
       - Espere at esfriar - repreendeu Maddy. - Sabe que vai ter indigesto se no esperar.
       - Indigesto. - Max riu. - Casamento d nisso. A mulher que ama pra de v-lo como algum sexualmente excitante e o identifica com algum com indigesto.
       - No diria isso - respondeu Maddy, com um sorriso.
       - No? - questionou Max, tomando-a nos braos para pousar os lbios na pele macia e perfumada de seu pescoo.
       - Nooo... - suspirou Maddy.
       Na verdade, seria difcil encontrar um homem sexualmente mais atraente do que o marido. Max usava a sensualidade com a mesma ostentao e desprendimento com 
que usava a toga. Parecia divertir-se com a sensao que causava, ao mesmo tempo em que convidava silenciosamente a compartilhar a brincadeira.
       -  Por que aquela senhora est olhando para o papai? - indagou Emma, certa vez, quando Max foi busc-las na escola pra casa. Ao saltar do carro, provocara 
olhares com vrios graus de interesse das outras mes.
       A senhora em questo era quase to atraente quanto Max, mas causou nele o mesmo efeito que tia Ruth.
       Para inveja das amigas de Maddy, Max era um marido e pai devotado.
       Nem sempre fora assim. O Max com quem se casara era um predador perigoso como homem e algum que tratava as emoes dos mais chegados com aspereza. Era difcil 
imagin-lo assim hoje.
       Ele mudara depois de seu quase encontro com a morte na Jamaica. Se ele tivesse continuado como antes, Maddy sabia que jamais teria deixado de ser a esposa 
insegura que permitia abuso emocional.
       Mas j era passado e aquela Maddy j no existia mais. Ela e Max conduziam o casamento com igualdade agora. Max no apenas a amava, como a respeitava.
       -  Onde esto um, dois e trs? - murmurou ele contra o pescoo dela, enquanto lhe lambia a pele sedosa, referindo-se aos trs filhos.
       - Na casa de sua me - disse Maddy, rouca.
       - Ento vamos l para cima.
       -  O que h de errado aqui embaixo? - questionou Maddy, ousada, fitando-o sedutora. - Vov nunca vem aqui e no h mais ningum na casa...
       - Aqui?
       Max franziu o cenho, mas Maddy sabia que ele se excitara com a sugesto.
       -  Voc fica to sensual com as roupas do tribunal - sussurrou ela, ligeiramente ofegante.
       Max riu, mas entrou no jogo. Alcanou o prato de panquecas e acusou, severo:
       -  Ento, o que  isto? Estou vendo que falta uma panqueca e voc, feiticeira,  a nica que poderia t-la escondido. Tal roubo demanda uma sentena pesada.
       -  No... no... - implorou Maddy, tentando se desvencilhar, mas ele se recusou a solt-la e colocou-a contra a mesa.
       -  Uma punio exemplar - anunciou, rouco. - A menos, talvez, que no tenha consumido o doce roubado, mas tenha secretamente escondido com voc. Talvez, nos 
bolsos... Ou...
       Ele levou as mos aos seios de Maddy. Ela riu.
       - Oh, Max... - Ao ver o olhar do marido, ficou sria.
       -  Oh, Max, o qu? - desafiou ele, apalpando por dentro da blusa.
       Ela sentiu a mo pesada e aquecida sobre o seio e o mamilo se enrijeceu.
       - No podemos - protestou, ofegante. - No aqui...
       -  No? - Max lhe soltou o pulso e livrou-a da blusa e do suti antes de coloc-la sentada sobre a mesa.
       Uma hora depois, Maddy, enrubescida e coberta de farinha, apressou-se em abotoar a blusa antes que os trs filhos e a sogra chegassem  cozinha.
       - Jenny - saudou Maddy, quando a sogra a abraou. - Obrigada por tomar conta deles. Foram bonzinhos com a vov? - perguntou aos dois mais velhos, enquanto 
Max tomava o caula dos braos de Jenny.
       - Sua saia est com farinha, me - avisou Lo.
       - Sim, e a blusa tambm - completou Emma. Maddy se voltou, vermelha como tomate.
       - Mame estava fazendo panquecas - explicou Max, rpido.
       Maddy olhou-o parecendo encantada. A sogra no deixou por menos:
       - H farinha na parte de trs da saia tambm, Maddy... e no palet de Max...
       - Pegos no ato - admitiu Max, alegre. - Bem, quase...
       - Max! - protestaram Maddy e Jenny ao mesmo tempo.
       -  O que papai quis dizer? - indagou Emma, puxando a saia da me.
       -  Hora do banho, querida! - desconversou Max, rumo  porta da cozinha.
       - Homens! - queixou-se Maddy com a sogra, enquanto o marido levava as crianas.
       -  Falando neles, como est Ben? - indagou Jenny.
       -  No est muito melhor - admitiu Maddy. - Ele no parece... Entrei em contato com uma herbolria para vir v-lo. O problema  que est to ocupada que s 
poder vir daqui a algumas semanas.
       -  Uma herbolria?
       - Remdios homeopticos funcionam - defendeu Maddy.
       A sogra meneou a cabea.
       -  No estava criticando, querida. Acho uma excelente idia.
       - Acha? Que bom. Na verdade, estava pensando se no podamos us-los na Casa Lar...
       Casa Lar eram unidades de moradia provisrias originalmente bancadas pela irm de Ben Crighton, Ruth, para prover lares seguros a mes solteiras e seus bebs. 
A assistncia fora ampliada e, agora, no proviam apenas acomodaes onde os pais podiam visitar os bebs, mas davam oportunidades de acesso educacional para que 
as jovens mes pudessem ter condies de trabalhar e ganhar para seu sustento.
       -  Em que est pensando? - indagou Jenny, divertida. - Treinar todas as mes adolescentes para ser herbolrias?
       Maddy riu.
       -  No, claro que no. Estava pensando que talvez pudssemos usar o jardim da cozinha aqui e combinar um programa de jardinagem com informao nutricional 
e de remdios caseiros bsicos, como nossas avs usavam. Isso seria mais um passo a fim de tornar as jovens independentes e valorizadas.
       - Bem, certamente, vale a pena pensar no assunto - concordou Jenny.
       Ruth tivera uma filha ilegtima e no achava que se casaria. Por obra do destino, acabara se casando com o homem que amava e fora morar nos Estados Unidos, 
deixando o controle da Casa Lar com Jenny e Maddy. Hoje em dia, Ruth dividia seu tempo entre Haslewich e a famlia na Amrica.
       - Humm... e sabe aquele terreno que era usado para  alojamento...  uma  propriedade  municipal junto ao rio... que est cheio de mato e abandonado? Bem, estava 
pensando... se os governantes permitirem o uso, podemos fazer um projeto comunitrio. Se for o caso, podamos pedir aos rapazes para ajudar a limpar o terreno.
       Ouvindo as idias da nora, Jenny percebeu que Ruth no poderia ter encontrado melhor sucessora. Maddy, antes uma esposa tmida e reprimida, transformara-se 
numa mulher de capacidade e compaixo, com muita energia e amor para compartilhar. Era uma bno t-la na famlia.
       - Joss est preocupado com Ben - contou Jenny. - Perguntou a Jon se David voltaria um dia.
       Maddy mostrou-se compreensiva.
       - Vov est cada dia mais reservado e rabugento como sabe. Mas, quando fala, o assunto invariavelmente  David e agora no fala mais se David voltar, mas, 
sim, quando David voltar.
       - Oh, querida - suspirou Jenny. - Acha que... 
       Maddy meneou a cabea.
       -  Oh, no, ele est lcido. No h sinal de demncia, de acordo com dr. Forbes. No. Acho que vov est to desesperado em ter David em casa que se convenceu 
de que isso vai acontecer. Acha que David vai voltar?
       -  No sei - respondeu Jeimy, pensativa. - Ele no era... no ... como Jon. Ele...
       - Ele  como Max era antes - completou Maddy. - Sim, eu sei.
       -  Bem, sim, mas David nunca teve aquele... aquele lado agressivo de Max - comentou Jenny.
       -  Era egosta, sim, demais, porm fraco. Devia saber sobre o problema de desordem alimentar de Tiggy, mas nunca fez nada para ajudar. - Jenny usava o apelido 
de Tnia, Tiggy. - Ele nunca defendeu Olvia contra a aspereza de Ben e nunca a encorajou a ser advogada. E quanto ao pobre Jack...
       - Olvia sempre diz que ele no foi um bom pai.
       - No, no foi - afirmou Jenny, triste e, ento, obrigou-se a defender o cunhado, assim como Jon teria feito. - Mas precisa considerar a formao dele e a 
indulgncia com que Ben o tratava. Ele colocou David num pedestal. Isso no apenas lhe deu uma idia errada sobre sua prpria importncia, como o assustava s vezes.
       - Assustava? -estranhou Maddy.
       - Sim, ele tinha que se preocupar em no cair - resumiu Jenny. - E Ben nunca deixou de insistir que Jon devia dedicar a vida ao irmo gmeo primognito. E 
tambm, de forma inconsciente, fez tudo para criar uma barreira entre os dois. A lealdade entre eles nunca pde se desenvolver naturalmente. Ben praticamente mandou 
Jon colocar David em primeiro lugar.
       Jenny continuou revelando suas especulaes  nora.
       -  Isso tudo se originou, claro, no fato de Ben ter perdido seu prprio irmo gmeo no nascimento. A me dele, sem saber e seguindo a crena da poca, parece 
ter feito Ben acreditar que o irmo morto era um santo e que suas vidas, da me e do filho, seriam malogradas porque ele no estava ali com eles.
       Ela fez uma pausa.
       -  Ter um irmo gmeo  ter uma relao muito   especial  -  acrescentou,   perspicaz.  - Imagine  ter uma  pessoa fisicamente igual a voc, algum com quem 
compartilhou o ventre materno e que, mesmo assim, sabe ser um indivduo totalmente independente.
       - Olvia no quer que o pai volte - comentou Maddy.
       -  Ela no tem motivo para querer David de volta. Ele no foi um bom pai. Alm disso, ela precisou lidar ao mesmo tempo com o problema de bulimia da me, 
a fraude do pai e uma crise em seu relacionamento com Caspar. Entendo porque ela se sente assim.
       -  Sim, eu tambm. - Com muito cuidado, Maddy avanou para um assunto delicado. - No acho que Olvia esteja se sentindo muito feliz no momento.
       Jenny desanimou-se ao captar o olhar da nora.
       Olvia era to chegada e querida quanto suas prprias filhas. s vezes, at mais. Embora Olvia no tivesse comentado nada, tambm percebera a mudana.
       -  Jon disse a ela que estava trabalhando demais - respondeu Jenny.
       Seguiu-se uma pausa e Maddy sugeriu:
       -  No acha que h algo errado entre ela e Caspar, acha?
       Jenny avaliou o olhar da nora.
       -  Por que pergunta?
       - Nada. Bem, nada que possa explicar de forma lgica - admitiu Maddy. -  que... bem, sempre que vou l, sinto uma... atmosfera diferente.
       - Olvia mencionou que achava que no deveriam ir a um casamento da famlia dele - comentou Jenny. - Talvez...
       - No, Olvia me contou sobre isso. Acho que h algo mais. Eles simplesmente no... eles no parecem mais felizes juntos - declarou Maddy, hesitante. - E 
as crianas... - Deteve-se e meneou a cabea. - Olvia no  do tipo que discute seus problemas e sentimentos, mas sei o quanto voc e Jon a consideram e detestaria 
se...
       -  Olvia sempre foi uma pessoa reservada - concordou Jenny. - E ela sempre foi muito independente devido  vida familiar irregular. Por esse motivo, ligou-se 
to completamente ao marido. Caspar tambm sofreu com os inmeros casamentos dos pais e Olvia teve todos esses problemas com David e Tiggy. ramos muito ligadas 
quando Olvia era mais nova, mas ela mudou aps o nascimento de Alex. - Suspirou. - Acho que... Bem, ela tem Caspar e as crianas. Caspar adora as meninas, Alex 
e Amlia, e  um timo pai.
       - Sim, eu sei - concordou Maddy, e voltou-se ao perguntar, sem jeito: - Estava imaginando se isso no  parte do problema. Oh, eu sei que Olvia os ama tambm, 
mas...
       - Acha que ela pode estar um pouco ressentida por Caspar estar se destacando na educao das meninas? - indagou Jenny. - Olvia adora as crianas - acrescentou, 
defensora.
       -  As crianas... sim - concordou Maddy. - No devia mencionar, mas, na semana passada, quando jantamos l, Olvia discutiu com Caspar sobre algo insignificante 
e no parecia uma briguinha comum de marido e mulher. Ela me disse tambm que acha que Caspar tem uma atitude muito protetora em relao s crianas. Enquanto estvamos 
l, ela disse, at um pouco nervosa, que Haslewich no era Nova York.
       - Max tambm  um pai cuidadoso - observou Jenny.
       -  Humm... mas no a ponto de me chamar a ateno sobre o tamanho das meias das crianas e se elas precisam ou no de roupas novas - exemplificou Maddy. - 
Para ser honesta, se estivesse no lugar de Olvia, tambm me sentiria ofendida e...
       -  E voc no foi criada como Olvia, ouvindo que no tinha valor por ser menina. Entendo o que quer dizer e vejo onde est o problema, mas no sei qual  
a soluo.
       - Sim, entendo. Eu me ofereci para ficar com as crianas num fim de semana, assim eles poderiam viajar, mas Olvia disse que no tinha tempo. "Estou com muito 
trabalho" e "Caspar jamais deixaria as crianas" foram suas palavras exatas.
       - Humm... - Jenny ficou pensativa.
       - Oh, e falando de crianas, quase me esqueci. Lo comentou com voc sobre ter visto um homem estranho?
       - No! - Jenny alarmou-se. - Onde? Quando?
       - Bem, sabe como meu filho tem a imaginao frtil. - Maddy expressou preocupao. - Mas ele fica falando sobre um "homem legal" a quem quer como "amigo. 
Disse que o viu no jardim. "Vovinho" ele diz, seja l o que isso significa! Mas, quando samos para ver, no havia nenhum sinal.
       - Oh, Maddy, contou  polcia? Hoje em dia...
       - Ainda no. Lo sabe que no deve falar com estranhos, nem se aproximar. Mas o mais interessante  que ele diz que o homem  legal. Quando pergunto o que 
ele quer dizer, no sabe explicar. Eu tomo cuidado, mas...
       - Onde exatamente ele v esse homem? - indagou Jenny, preocupada.
       - No jardim. Mas quando pergunto o que esse homem estava fazendo, ele diz que no estava fazendo nada, s olhando. Aparentemente, no para Lo, mas para a 
casa.
       - Acho que devia notificar a polcia - alertou Jenny.
       -  Sim, mas, e se for apenas um andarilho procurando um abrigo abandonado para passar a noite...
       - Maddy, voc tem um corao de ouro - elogiou Jenny, meneando a cabea.
       - Talvez, mas nunca deixo as crianas sozinhas no jardim - assegurou a nora. O relgio da sala anunciou as horas e ela soltou um gemido. - Mas j? Ainda no 
dei o remdio da tarde a Ben.
       Jenny riu, solidria, e comentou:
       -  Talvez se a sua herbolria for mesmo boa, no tenha mais que se preocupar com isso.
       Maddy riu.
       - No seria o mximo? E Ben faz de tudo para no tomar os comprimidos, apesar da dor. Ele diz que fica com sono e at me acusou de tentar sed-lo e torn-lo 
senil. Ele pede desculpas depois, claro, mas quando est de mau humor... - Meneou a cabea.
       - Voc  uma santa, sabia? - declarou a sogra, carinhosa. Levantou-se e lhe deu um abrao.
       
       CAPITULO TRS
        - Maddy disse que quando ela e Max foram jantar na casa de Olvia e Caspar, Olvia estava... Jon, est me ouvindo? - protestou Jenny.
       -  Desculpe-me, Jen. O que foi? - Jon tinha um olhar arrependido.
       --Estava tentando lhe dizer o quanto eu e Maddy estamos preocupadas com Olvia e Caspar - resumiu Jenny, severa. Ento, com um suspiro, perguntou, gentil: 
- O que foi, Jon? Qual  o problema?
       - Nada - afirmou o marido, rpido. Rpido demais, na opinio de Jenny.
       -  Sim, h - insistiu. - Conte-me.
       -  David - admitiu Jon, relutante. - No consigo parar de pensar nele. No quero. S eu sei quantos problemas deveria estar resolvendo, mas no importa o 
quanto me esforce, ele volta aos meus pensamentos.
       Jenny entendia e amava o marido. No quis pression-lo por mais detalhes. Sorriu e considerou:
       -  Oh, acho que  porque conversamos sobre ele recentemente.
       - Sim, foi o que pensei - concordou Jon, aliviado. - Aonde vai? - perguntou, quando a esposa se levantou da poltrona.
       -  Oh, lembrei-me de que tenho que telefonar para Katie. Ela comentou que no sabia o que dar de presente de aniversrio para a sogra e eu vi algo interessante 
na loja, um porta-tinteiro Dresden muito bonito.
       As lojas de antiguidades em Haslewich pertenciam inicialmente a Jenny e um scio, Guy Cooke. Ele era o nico proprietrio agora e a gerente era uma de suas 
primas, Didi. Jenny sempre passava por l quando ia  cidade. Mesmo assim, Jon no evitou o suspiro de incompreenso e espanto ao ver a esposa largar a conversa 
pelo meio e correr para tratar de outro assunto "inadivel".
       - Pensei que quisesse conversar comigo sobre Olvia e Caspar - reclamou Jon.
       - Sim, queria... quero - concordou Jenny. - Mas voc sabe como eu sou. Se no ligar para Katie agora e falar sobre o porta-tinteiro, vou acabar me esquecendo.
       Jon piscou, surpreso, ante a declarao infundada. Como ele sabia, Jenny nunca se esquecia de nada. Era capaz de comandar a logstica de um batalho, se fosse 
preciso. De qualquer forma, quem era ele, um mero macho, um mero marido, para questionar os padres de raciocnio de uma mestra em ttica?
       - Katie? - disse Jenny, quando a filha atendeu. - Louise aparece nos seus pensamentos quando voc menos espera?
       -  Quer dizer, como se ela quisesse entrar em contato comigo? - indagou Katie, interpretando a questo. - Acontecia, sim, principalmente quando ramos mais 
jovens e ela queria me pedir dinheiro emprestado. - Riu antes de retomar, sria. - Sim, eu penso nela. Por que pergunta?
       -  Oh, no  nada, mesmo. Oh, e alis, vi o presente ideal para a me de Seb na loja. ...
       - ...um porta-tinteiro antigo. J comprei para ela - contou Katie, triunfante. - Eu fui  cidade hoje  tarde e, quando o vi, achei que ela ia adorar. Fui 
na Maddy tambm. Ela comentou sobre consultar uma herbolria para ver se ajuda vov.
       - Ela me contou tambm - disse Jenny.
       -  Ele no precisa de uma herbolria - concluiu Katie, triste, - Precisa de um mgico, algum que agite uma varinha e traga tio David de volta. Falando nisso, 
essa herbolria no seria a mulher que se mudou para Foxdean, seria? Ela estava na loja de produtos naturais quando fui l outro dia. Muito atraente. Alta, morena, 
com os olhos azuis mais penetrantes que j vi, e, apesar das roupas comuns, tinha um ar elegante... sabe o que quero dizer. Quando ela se foi, Didi me contou que 
ela  parente de lorde Astlegh, prima em segundo grau ou algo assim.
       - Bem, Guy vai ficar sabendo. Ele  muito chegado a lorde Astlegh e vai sempre a Fitzburgh Place. Foxdean...  corajosa para se mudar para l.
       -  Por causa dos fantasmas? Oh, vamos, me, no acredita nisso, acredita?
       - No, claro que no. Eu quis dizer que ela  corajosa em se mudar para l por causa do estado da casa. Oua, preciso desligar. Seu pai est esperando o jantar. 
Nos veremos no domingo, certo?
       - Com certeza. Seb diz que nada o impede de almoar a aos domingos.
       Jenny desligou, foi  geladeira e tirou um pote com pat caseiro. Jon adorava queijo e conservas com po fresquinho como ceia, mas isso lhe dava indigesto. 
Ficaria contente com o pat.
       Aquela previsibilidade sobre as reaes do marido seria um sinal de que estavam ficando velhos? Considerava o fato divertido e no maante. Um ponto positivo. 
A impetuosidade dos primeiros estgios do amor fora superada por diversas razes e pertencia ao passado, o sentimento substitudo por companheirismo e satisfao. 
E para ela, o sexo tambm amadurecera e se tornara mais prazeroso nos ltimos anos.
       Agora, parecia estranho pensar que invejara tanto do casamento externamente perfeito de David e Tnia, que se ressentira da desaprovao de todos por Jon 
ter desposado uma moa comum, que de forma alguma se comparava  ex-modelo glamourosa com que o gmeo contrara matrimnio.
       Tranqila, pegou a bandeja e partiu para a saleta. Os tapetes novos, comprados no outono, abafavam seus passos. Abriu a porta.
       Jon estava de costas e olhava para uma fotografia antiga que ela mantinha sobre um pequeno aparador. Observou-o em silncio.
       A fotografia fora tirada na festa de cinqenta anos dos dois. O fotgrafo captara David e Jon conversando um com o outro, sugerindo uma proximidade que na 
realidade no existia. Alm disso, a semelhana entre eles tambm parecia mais acentuada.
       Embora raramente falasse sobre o assunto, Jenny sabia o quanto Jon estava magoado com a deslealdade e a desonestidade do irmo.
       - Se meu pai soubesse o que Ruth e eu fizemos para encobrir David, desmaiaria de choque - comentara Jon, na poca em que a fraude veio  tona.
       Jenny no se manifestara. Se David tivesse cometido um assassinato, Ben seria capaz de exigir que Jon assumisse a autoria para poupar David de qualquer punio. 
       - Voc se perdoaria se no tivesse permitido que Ruth assumisse o rombo? - indagara Jenny.
       Um sorriso triste foi a nica resposta. Jon era o homem mais honesto e honrado que conhecia. Sabia o quanto ele se sentia dividido entre proteger os clientes 
da m gesto do irmo e salvar David das conseqncias de sua irresponsabilidade.
       Jenny no se esquecia tampouco de que David sofrera um ataque cardaco naquele aniversrio, devido ao estresse a que se submetia. Jon levava um estilo de 
vida muito mais saudvel, mas no era raro gmeos terem os mesmos problemas de sade, por isso ela insistia para que ele no trabalhasse demais.
       A preocupao com a sade do marido no significava que Olvia tivesse que enfrentar problemas em seu casamento por assumir todo o trabalho do escritrio. 
Talvez devesse sugerir a Jon que considerasse contratar outro advogado qualificado.
       A implantao de uma grande indstria do ramo farmacutico na rea trouxera muito trabalho ao escritrio de advocacia. A empresa possua um departamento jurdico, 
claro, comandado por Saul Crighton, outro membro da famlia que seguira a carreira jurdica.
       As xcaras bateram sobre a bandeja chamando a ateno de Jon, que devolveu rapidamente a fotografia ao aparador e se voltou. Sem indicar que vira algo extraordinrio, 
sorriu e agradeceu quando ele afastou a mesinha que usavam para cear.
       - No vai acreditar, mas Katie viu o porta-tinteiro e o comprou. Mandou um beijo - acrescentou Jenny, tagarela, mas percebeu que Jon ainda no estava lhe 
dando total ateno.
       No era hora de sondar, nem de ser abelhuda. O sofrimento de Ben com a ausncia de David afetava Jon, mas... e se David voltasse? Tal acontecimento traria 
todo tipo de problemas e conflitos e ela no queria ver seu amado Jon colocado em segundo plano novamente, nem com o fardo de proteger o irmo incondicionalmente.
       Seria errado orar para que tudo continuasse como estava e que a tranqilidade e satisfao que tinham com a vida no se alterasse? Talvez no fosse errado, 
reconheceu, mas um pouco egosta.
       Didi completava a relao de vendas de antiguidades da semana para o proprietrio, Guy Cooke. Ele percebeu que a prima parecia preocupada.
       - Algo errado? - perguntou, quando encerraram a discusso de assuntos ligados  loja e abordaram temas de famlia, bem como o aniversrio de dezoito anos 
do filho de Didi, Todd.
       - Estou um pouco preocupada com Annalise - admitiu a prima, sria. Annalise era sua sobrinha, filha mais velha do irmo, cujo divrcio causara grande comoo 
na famlia quatro anos antes.
       - A primognita de Paul? - indagou Guy, surpreso. - Mas no Natal mesmo, Paul estava comentando como ela ia bem na escola.
       -  Sim, mas nas ltimas semanas parece que mudou completamente, negligencia as lies de casa, sai e se recusa a dizer aonde vai e com quem. Paul acha que 
ela est envolvida em alguma atividade maluca ou que est namorando. Anda to nervosa que at fez o pequeno Teddy chorar por causa de uma bobagem. Paul contou tambm 
que s vezes  preciso perguntar vrias vezes at obter uma resposta.
       - Parece que est apaixonada - sugeriu Guy.
       - Sim. E disso que Paul tem medo - admitiu Didi.
       Guy olhou-a perspicaz.
       - Garotas de dezessete anos se apaixonam - observou, e sorriu. - Ou, pelo menos, acham que esto apaixonadas.
       -  Bem, sim, mas, por causa do divrcio dos pais e de sua natureza sria, Annalise talvez no esteja to alerta quanto as outras garotas da mesma idade. s 
vezes, no papel de me,  muito madura, em outras, principalmente em relao aos rapazes, ela  muito ingnua. Paul tende a ser superprotetor com todos, uma vez 
que o divrcio foi bastante desagradvel. A mulher teve vrios relacionamentos antes de ir embora com um amante. Ela tambm era Cooke, membro da nossa grande famlia, 
e sabe como velhos comentrios e histrias distorcidas retornam nessas pocas.
       Didi prosseguia com sua anlise do caso:
       -  Paul est determinado a manter os filhos, especialmente Annalise, longe da pecha de "carregar os genes selvagens dos Cooke". Tentei conversar com ele, 
quando Annalise entrou na adolescncia, sobre essa questo de ser superprotetor em assuntos relacionados a rapazes, sexo e relacionamentos, mas voc sabe como Paul 
 difcil, s vezes.
       - Sim,  uma situao delicada, vista sob qualquer ngulo - concordou Guy. - Mas... sabe por quem Annalise se apaixonou ou...
       - Sabemos, e a est outro problema. O rapaz se chama Pete Hunter. Paul no gosta dele porque  vocalista de uma banda local que  a sensao do momento.
       -  O Salt? - perguntou Guy, citando o grupo formado por cinco adolescentes da regio.
       - Esse mesmo. - Ela o olhou curiosa. - Estou surpresa por voc saber o nome do grupo. No sabia que gostava desse gnero musical, Guy.
       -  No gosto - concordou ele. - Mas Mike, filho da minha irm Francs, faz parte do grupo.
       -  Oh, sim, claro. Ento, voc conhece Pete?
       -  Mais ou menos. Um rapaz alto e moreno com mais "atitude" de roqueiro para no dizer pose - descreveu Guy, malicioso.
       -  Esse mesmo. - Didi suspirou. - Por um lado, no acho que Paul deva se preocupar. Pete  consciente e muito seguro de si e do que quer da vida. Duvido que 
se interesse por Annalise. No que ela no seja bonita. Ela , e vai ficar ainda mais bonita. Mas agora s tem dezessete anos e, eu diria, dezessete anos da classe 
das atrasadinhas.
       Aps breve pausa, Didi continuou:
       -  Pelo que ouvi dizer, as garotas com quem Pete sai so mais... oferecidas. E, se Paul no cometer o desatino de ir  casa dos pais dele exigir que o rapaz 
fique longe de Annalise, tenho certeza de que essa paixo logo arrefecer. Claro, sendo Pete como , uma interferncia de Paul s causar o efeito contrrio. Aparentemente, 
Annalise tem sido vista em vrios clubes onde a banda se apresenta,  mais como um membro da trupe.
       -  E Paul sabe disso?
       - No tenho certeza, mas, assim que descobrir e parece que est perto... Annalise est numa idade vulnervel e se Paul der uma de pai duro...
       -  Ou se, na hora da raiva, disser que ela vai acabar como a me...
       -  Exatamente - concordou Didi. - Tentei conversar com Paul, mas ele no quer ouvir. Ele  to teimoso, s vezes. Desconfio de que, enquanto Annalise pensa 
estar profundamente apaixonada por Pete, como s uma garota jovem e sonhadora pode estar, ele, por sua vez, sente tudo menos amor. Detesto usar uma palavra to feia, 
mas acho que ele s a est usando e, quando se encher, vai coloc-la de lado. Normalmente, diria que esse tipo de experincia faz parte do desenvolvimento. Todos 
ns passamos pela dor do amor na adolescncia, mas fico ansiosa com a disparidade entre Annalise e Pete, principalmente porque toda a situao vai acabar sendo de 
conhecimento pblico...
       - E claro, no poderia acontecer em pior hora, com todas as provas de habilitao  frente - acrescentou Guy.
       - Exatamente.
       -  Oh, querida, os perigos de um pai de adolescentes. - Guy suspirou. - Bem, se eu puder ajudar em alguma coisa...
       Guy, aps seu casamento com Chrissie, viu-se eleito chefe do cl Cooke e, inevitavelmente, vrios membros o procuravam para conversar sobre seus problemas.
       No entanto, desconfiava de que aquele era um caso mais para Chrissie.
       -  Teremos uma reunio de famlia logo, no teremos? - indagou Guy. - Vou ver se Chrissie pode conversar com Paul, se quiser.
       - Faria isso? - Didi sorriu, aliviada. - No me atrevi a falar nada com Paul, mas ouvi dizer que Annalise anda faltando s aulas para ficar com Pete. A banda 
ensaia num barraco na...
       -  Fazenda de Laura e Rick, sim, eu sei - completou Guy. - Costumavam usar a garagem de Francs, mas ela deu um ultimato a Mike, S poderiam continuar se 
tocassem baixinho. Laura apareceu e ofereceu um dos velhos barraces.
       - Bem, como disse, parece que Annalise anda faltando s aulas para ficar com eles.
       - Deixe comigo. Farei o que puder - prometeu Guy.
       David ficou tenso ao ver o carro de Maddy se aproximar pela estrada em direo a Queensmead. Observava a casa desde que chegara  Inglaterra, alguns dias 
atrs, pernoitando em barraces abandonados. Aps vrias semanas no mar, compartilhando o alojamento com o resto da tripulao, estava at aliviado com aquela solido. 
Sentia falta de padre Incio, claro. Tornaram-se amigos durante o tempo em que trabalharam juntos. Tambm preocupava-se com ele. Apesar do vigor e da atitude positiva 
diante da vida, notara que o padre j no era to forte quanto antes.
       Errara ao deix-lo? Tomara uma deciso egosta mais uma vez?
       No carro, com Maddy, estavam seus trs filhos. A do meio, Emma, com seu olhar solene e expresso determinada, lembrava-o de sua prpria filha, Olvia, nessa 
idade. Era engraado como a memria retinha lembranas sem que as pessoas se dessem conta. Se perguntado, seria forado a admitir que dera muito pouca ateno aos 
filhos. Olvia passara mais tempo com Jon e Jenny do que em casa, recebera da tia o amor maternal que jamais tivera de Tiggy.
       Como se ausentara por muitos anos, David presumia que seu divrcio j estivesse regulamentado. Teve certeza quando ouviu um comentrio sobre Tiggy ter se 
mudado e recomeado a vida com outro homem, envergonhando-se ao perceber que sentia mais alvio que dor com a notcia. Contudo, a perda da esposa era um assunto, 
outro era ver Emma no jardim, com os irmos Lo e Jason e lembrar-se de Olvia.
       Mas, afinal, fora ali s para ver os filhos do sobrinho brincando? As crianas reforavam o sentimento de que ele mudara.
       O primognito, Lo, fisicamente um legtimo Crighton, parecia fascinado por ele. Ficou com vontade de conversar com as crianas, abra-las, mas se deteve. 
V-los s reforava o pesar por tudo o que perdera. No falara com Lo, mas David sentia que existia um lao de sangue entre eles.
       - Vovinho! - gritou Lo, quando Maddy apareceu  porta do jardim.
       Teria ela voltado para casa por causa do filho e da filha? Ou porque precisava ver o av do marido? Ben era um homem velho. Passava a maior parte do dia na 
cadeira, levantando-se s para duas caminhadas dirias pelo jardim, com a ajuda de Maddy ou Jenny, a esposa de Jon, ou, s vezes, com Max.
       Max!
       Surpreendera-se com Max. O que acontecera ao jovem egosta e hedonista, que o tratava com admirao? Sempre se envaidecera com a admirao do sobrinho, nutrindo 
a prpria auto-estima vulnervel.
       Dois dias antes, vira Max caminhar pelo jardim com o irmo caula, Joss. Pareciam unidos ao conversar. A certa altura, pararam e Max pousou o brao no ombro 
do irmo, num gesto de segurana e afeio genuna. No havia engano na proximidade entre eles e menos engano ainda no olhar de amor e orgulho de Max ao brincar 
com os filhos.
       David sentiu dor e arrependimento ao ver Max com a esposa e os filhos e, principalmente, ao constatar a transformao de seu carter.
       Anos antes, ao deixar a enfermaria onde se recuperara de um ataque cardaco, tambm modificara-se radicalmente. No tolerava mais o fardo da prpria culpa 
e, principalmente, o fardo das expectativas que o pai lhe incutira.
       Ser o filho favorito, o primognito dos gmeos, o marido atraente e cunhado charmoso, o isolamento de ser aquele que todos admiravam, tudo aquilo se tornara 
um fardo. Passara toda a vida no limite.
       Precisara libertar-se, livrar-se da imagem que os outros haviam criado e ser ele mesmo. Pelo menos, convencera-se disso na poca. Conclura tambm que tinha 
o direito de se colocar em primeiro lugar, que sua quase morte o liberara de qualquer obrigao para com os outros, que o ataque cardaco fora um alerta para que 
vivesse a prpria vida.
       Sorriu fraco.
       Estava bem mais magro agora e seu corpo possua a fora muscular de um homem habituado a esforo fsico. Tinha a pele bronzeada pelo sol jamaicano e pelo 
ar marinho, seus cabelos loiros s agora comeavam a apresentar fios brancos. Mas no s o corpo estava diferente. As longas horas de reflexo e os debates e discusses 
com o padre haviam provocado seus efeitos. Agora, via o mundo com sabedoria e compaixo e conseguia sorrir solidrio, generoso e at terno ante as fragilidades dos 
semelhantes.
       Se um estranho olhasse para ele agora, o consideraria um enigma. A aparncia era de um trabalhador braal, mas havia percepo e inteligncia no olhar, o 
que sugeria um homem de letras e reflexo. Mas David no buscava a aprovao das outras pessoas, no precisava nem da admirao, nem da companhia. Optara pela solido, 
fsica, mental e emocional.
       J trabalhava havia alguns meses com padre Incio quando comeara a se confidenciar.
       - No tenho famlia, no tenho amigos - contou-lhe. - Se voltasse para casa, eles me renegariam, com razo. Cometi um crime imperdovel.
       - Nenhum crime  imperdovel neste mundo - respondeu o padre, com firmeza. - No se h arrependimento genuno.
       - O que  arrependimento genuno? - indagou David, irnico. - Nunca fui do tipo religioso. Indolente, eu diria, e egosta.
       - Diz isso, entretanto, est preparado para reconhecer que pecou.  preciso coragem para se submeter ao julgamento de seus semelhantes, e mais coragem ainda 
para se submeter ao prprio julgamento. O primeiro passo  admitir que pecou e, ento, vem a expiao.
       -  Expiao! E como fao isso? - perguntou David, transtornado. - No tenho como pagar o que roubei ou desfazer o mal que fiz.
       - Sempre h um modo - insistiu padre Incio.
       - s vezes, podemos dificultar as coisas a ns mesmos.
       Sempre h um modo! David meneou a cabea ao relembrar as palavras. Imaginava se seu desaparecimento, sua ausncia, criara um vazio na vida dos que ficaram. 
V indagao aquela. O rastro de destruio que deixou foi apagado e nos dias em que observou silenciosamente a vida da famlia, descobriu quem era o responsvel 
pela nova harmonia e proximidade.
       Jon, seu irmo. Secretamente, sempre sentira pena dele. s vezes, desdenhara dele, abertamente.
       Jonathon. Na tarde anterior, o irmo gmeo aproximara-se tanto de seu esconderijo no jardim de Queensmead que poderiam ter ficado lado a lado, se tivesse 
se deslocado poucos metros.
       O irmo estava mudado, parecia mais alto, ou seria simplesmente a atitude? Observando-o, notara-o mais confiante, mais satisfeito. Seria porque ele no fazia 
mais parte de sua vida?
       Nunca fora gentil com Jon, nem o valorizara como deveria. Envergonhava-se ao lembrar de como o pai insistia para que Jonathon ficasse sempre atrs, para que 
o irmo gmeo se destacasse. Como se deixara conduzir fcil e levianamente a um pedestal, festejado como filho favorito! Presunoso e egosta, clamara todas as virtudes 
da herana comum, relegando a Jonathon todas as fraquezas. A verdade era que, dentre os dois, Jonathon era o mais forte, o de corao puro e diligente.
       Comeava a sentir fome. Tinha pouco dinheiro e no queria ser reconhecido por ningum. Na noite anterior, atacara a horta de Maddy. Essa noite...
       Um carro se aproximou pela estrada. Dessa vez, no era o de Maddy, tinha um som de motor diferente. gil, escondeu-se no matagal, observou quando o carro 
parou de repente e uma mulher jovem saiu, o cabelo brilhante ao sol. Olvia...
       David sentiu o corao falhar ao ver a filha entrar na casa. Parecia preocupada e muito mais nervosa do que Maddy ou Jenny. Sentiu ansiedade pela filha.
       Olvia estava preocupada com alguma coisa. Por qu? Com o qu?
       Olvia franziu o cenho e apressou-se at a cozinha de Queensmead. Esperava ver Maddy que, evidentemente, no se encontrava mais l.
       - Ela disse que voltaria logo - informou Edna Longridge, a enfermeira aposentada que vinha a Queensmead algumas vezes por semana para cuidar de Ben.
       - No posso esperar - disse Olvia. - Tenho uma reunio em meia hora.
       - Oh, querida, quer que eu d algum recado? - indagou Edna.
       - No, no importa.
       Telefonara a Maddy por impulso, por necessidade de conversar com algum compreensivo sobre sua decepo com a vida e com o casamento.
       Maddy e Max podiam estar felizes agora, mas nem sempre foi assim. Ningum melhor do que a tia para saber como era estar casada com um homem que no a amava... 
um homem que lhe era infiel...
       Olvia ficou tensa.
       Mas Caspar a amava e, at onde sabia, nunca lhe fora infiel.
       No ainda! -  observou a vozinha interior, ultimamente mais ativa.
       No ainda... Nunca. No Caspar...
       No? Ento, por que ele andava to irritado com ela? Talvez por se sentir excludo de sua vida, em que o trabalho se tornara mais importante do que ele ou 
as crianas. Caspar devia saber que no era verdade. Ele devia saber como ela temia ser comparada ao pai, pouco confivel, egosta, incompetente e desonesto. Trabalhando 
com afinco, demonstrando a cada segundo que tinha valor, estaria se afirmando e s crianas tambm. Se no agisse assim, estaria condenando-as pelos pecados do av.
       Era fcil para tio Jon dizer que ela no tinha responsabilidade pelos crimes do pai, que ningum acharia que, por ele ter sido desonesto, ela tambm seria. 
Bem no fundo, Olvia no acreditava nisso. Assustava-se com a idia de que Jon estivesse mentindo, que no confiasse nela de verdade. Por isso, trabalhava com tanto 
afinco, obrigando-se a se firmar cada vez mais.
       Na semana anterior, voltara de uma reunio fora do escritrio e encontrara Jon junto  sua mesa. Com um frio no estmago, lembrou-se do dia em que soube o 
que o pai fizera. Jon estava em sua sala apenas porque precisava de um documento, como dissera, ou estaria especulando sobre seus clientes?
       Pensou em discutir seus temores com Caspar, mas o orgulho a impediu.
       E se Caspar compartilhasse a desconfiana de Jon? Com certeza, no confiava nela como me. Lembrou-se de como ele a criticara por voltar ao trabalho em tempo 
integral aps o nascimento da segunda filha, Alex.
       - Preciso trabalhar - dissera, incapaz de verbalizar o medo que se apossara de sua vida. Comeara com uma leve dvida, aps o nascimento de Alex, e tornara-se 
a fora que agora ameaava destruir seu casamento.
       Na outra semana, Max comentara sobre o carro novo que haviam comprado. Imediatamente, Olvia ficara ansiosa. Estaria o primo desconfiado de que ela roubara 
dinheiro dos clientes para pagar aquela despesa?
       - No devia ter comprado um carro to caro - criticou Olvia. - No havia nada de errado com o velho, Caspar.
       - No. Exceto o fato de no ser grande o bastante para nossa famlia - observou Caspar, tranqilo. - O que est querendo dizer, Liwy? Eu sei que voc ganha 
mais do que eu e que a maior parte do dinheiro para o carro foi voc quem arranjou. Se est sugerindo que eu fiz presso para que comprasse o carro novo para polir 
o meu ego masculino...
       - No, claro que no - negou Olvia. Em poucos segundos, estavam tensos com a hostilidade, cada um em atitude defensiva. No sabia explicar o que lhe causava 
tanta ansiedade, quando Caspar parecia preocupado s com seus prprios sentimentos e necessidades.
       Foram para a cama calados. Ficaram de costas e nenhum dos dois procurou fazer as pazes antes de adormecer. Ms por que tinha que ser ela a ceder sempre, a 
contornar as dificuldades? Com certeza, se Caspar a amasse de verdade, veria... entenderia... saberia... se realmente se importasse... se realmente se importasse...
       Olvia no se lembrava da ltima vez em que Caspar a olhara como se a amasse, nem da ltima vez em que se tocaram com afeto. No faziam sexo havia semanas, 
que diria amor. No que quisesse sexo. Estava sempre to cansada que, ao ir para a cama, isso era a ltima coisa em sua cabea. Parecia ser a ltima coisa para Caspar 
tambm... ao menos, com a esposa!
       Na semana anterior, ao sair de casa, percebeu que esquecera o casaco. Voltou, subiu a escada correndo, entrou no quarto e viu Caspar ao telefone, em tom suave 
e divertido. Ele terminou a conversa abruptamente e no lhe disse com quem estava conversando. Ela, claro, era orgulhosa demais para perguntar.
       A discusso da noite anterior foi a pior de todas. Voltara para casa aps uma reunio com um cliente particularmente difcil e encontrou Caspar acusando-a 
de ser uma me negligente por no ter ido buscar Amlia aps a aula de dana.
       - Mas eu liguei para a escola e expliquei que ia me atrasar - defendeu-se. - Deixei um recado com Maddy para ver se ela podia fazer o favor de pegar Amlia.
       - Deixou recado? - questionou o marido, spero. - Liwy, o que est acontecendo com voc? Ser me no  uma tarefa que se delega a outra pessoa. Percebe que 
Amlia precisou pedir para a professora me ligar porque ningum foi busc-la? Imagina o que poderia ter acontecido com ela se no tivesse tido a sensibilidade de 
pedir  professora... se ela tivesse decidido voltar a p para casa, por exemplo?
       - Fiz o melhor possvel - argumentou Olvia, defensiva. Embora se sentisse culpada e temerosa pela filha. Caspar tinha razo.
       - Fez? Bem, com certeza fez o melhor para si mesma, mas no para Amlia - acusou o marido, irritado.
       Magoara-se com a acusao de ter negligenciado as necessidades da filha e sabia que Caspar pretendera aquilo mesmo. Afinal, ele, melhor do que ningum, sabia 
o quanto ela sofrera com o desinteresse e negligncia dos pais e o quanto estava determinada a provar seu amor pelas filhas.
       - Voc no precisa trabalhar em tempo integral - observou Caspar, quando ela retomou a profisso aps o nascimento de Alex. - Podemos nos arranjar com menos 
dinheiro,
       - No aqui nesta casa, vivendo como agora - respondeu Olvia, spera, sempre defendendo sua deciso. No sabia explicar a ansiedade que tomaria conta de sua 
vida se no continuasse provando que no era como o pai.
       Ningum sabia como se sentia, claro. Ela era mulher, adulta, e ningum parecia notar que precisava de ajuda. Jack, o irmo caula, por sua vez, era protegido 
pela famlia, os efeitos do comportamento do pai sobre ele sempre monitorados.
       Mas ela precisava exatamente de qu? No sabia ao certo. Houve poca em que achava que tudo o que queria e precisava era o amor de Caspar, mas fazia muito 
tempo, e agora...
       De certa forma, estava contente por Maddy ter sado. De que adiantaria discutir seus problemas? Precisava enfrent-los sozinha, como sempre.
       Estacou a meio caminho do carro ao ser tomada pelo medo.
       Do matagal, David observava-a. A cabea baixa, o cenho franzido, a atitude impaciente, tudo indicava uma mulher infeliz consigo mesma ou com sua vida.
       Quando ela passou perto e entrou no carro, David sentiu vontade de ir at ela, de abra-la, de dizer o quanto a amava. J era adulta, mesmo assim, ao observ-la, 
David percebeu que o olhar era o de uma criana perdida.
       - Minha volta no tem outro propsito seno salvar minha prpria conscincia - confidenciara a padre Incio, frustrado quando o religioso insistira que era 
hora de deixar o esconderijo.
       - Para voc - concordara o padre. - Mas no nos esqueamos de que quem traa nosso destino no somos ns.
       - No sou religioso - protestou David.
       O padre riu como se tivesse ouvido uma piada.
       - No precisa ser - rebateu.
       Ainda no era religioso, mas vira e aprendera bastante trabalhando com padre Incio. Agora, compreendia que a complexidade das necessidades e emoes era 
o que dava  humanidade seu carter especial.
       A filha no era feliz e David captava todo o seu sofrimento.
       Experimentara a mesma sensao na Jamaica, com relao ao filho Jack, que estava com Max quando este fora esfaqueado. Teria voltado por causa dos filhos?
       Olvia se afastou. David olhou para a casa e viu o pai sentado na biblioteca. Exteriormente, os dois sempre partilharam uma estreita ligao. Sempre fora 
o filho favorito, mas, por dentro, o relacionamento baseava-se na necessidade de Ben de recriar o lao fraternal que perdera quando seu irmo gmeo faleceu. Ben 
era vtima de sua educao e de sua perda, assim como David e Jon.
       Imaginou para onde Olvia teria ido. Voltara para o escritrio? Escritrio em que Jon, mais qualificado, sempre conduzira os casos mais difceis? Jon sempre 
fora o responsvel por manter a reputao profissional da famlia, embora ningum lhe desse esse crdito, muito menos o irmo gmeo.
       Negligenciara tantos pagamentos... Dbitos que talvez jamais pudesse quitar.
       Esse pensamento lembrou-o de que seus recursos tambm se esgotavam. Precisava ganhar mais dinheiro e encontrar acomodaes adequadas. No na cidade, claro, 
onde seria reconhecido. No, no ali. Numa fazenda distante, talvez, ou, melhor ainda, na propriedade de lorde Astlegh. Com certeza, ele estava contratando servio 
temporrio.
       Ficava distante alguns quilmetros, mas isso no tinha importncia. David sorriu ao lembrar-se de que o antigo David se aborrecia sempre que tinha que andar 
alguns metros a mais, a no ser que fosse no campo de golfe!
       
       CAPTULO QUATRO
       Honor trabalhava no jardim quando viu um homem na estrada de brita em direo a Fitzburgh Place. Notou que ele caminhava controlando os passos, caracterstica 
daqueles acostumados a cobrir grandes distncias, mas no parecia um excursionista, nem andarilho. No saberia explicar, mas sentia que havia algo diferente nele, 
algo que o diferenciava das pessoas comuns.
       Ele se vestia de maneira simples, cala jeans e camisa xadrez velha, botas resistentes e uma pequena mochila de lona. Era alto, rosto esculpido e bronzeado. 
Seus instintos femininos indicavam que aquele homem valia uma segunda olhada. Endireitou-se e sorriu, amigvel, quando ele a saudou.
       David deteve-se para retribuir o sorriso. Aquela no era a primeira pessoa a falar com ele durante a caminhada, mas, com certeza, era a mais encantadora. 
Sua ex-esposa, durante o casamento, usara todo artifcio disponvel, primeiro para salientar e depois, para manter a beleza. Era um sacrifcio que ela oferecia em 
troca da aceitao e aprovao dos outros.
       No se lembrava de ver Tiggy em pblico ou em qualquer outro lugar, com exceo da cama, sem maquiagem. J aquela mulher, que o observava com a cabea levemente 
inclinada, bonitos olhos e atitude amistosa, no usava maquiagem, nem precisava.
       Ela j no era jovem, apresentava rugas finas ao redor dos olhos e sabedoria e maturidade no sorriso. Por isso mesmo, David desconfiava de que, numa sala 
cheia de moas bonitas, ela ainda seria o centro das atenes.
       - Est com sede? - perguntou Honor. - Eu ia mesmo tomar um refresco.
       Sede! David ficou surpreso.
       Honor imaginou se ele saberia o quanto sua expresso era denunciadora. Alm de surpresa, ele externava desaprovao e tambm proteo.
       -   muito gentil, mas...
       - Mas uma mulher da minha idade devia ter mais juzo e no convidar um estranho para entrar no jardim. - Honor riu. - Ah, mas voc sabe, eu tenho poderes 
mgicos especiais que me capacitam a saber quem uma pessoa realmente . Sou bruxa, entende? - acrescentou, sria e zombeteira, o olhar divertido. Largou a p e foi 
ao porto. - E ento... tem coragem de entrar?
       - Uma bruxa, ?
       Honor sentiu o corao disparar com o sorriso dele, muito branco contra a pele bronzeada. Cuidadosa, repreendeu-se quando o homem foi em sua  direo.  Tratava-se 
de um homem muito atraente, com um ar pouco convencional e nico que a excitava. Sabia que era seguro deixar aquele estranho entrar em casa.
       - Bem, no, no de verdade - admitiu Honor, conduzindo-o para os fundos. - Sou herbolria,  
       - Herbolria?
       Ao captar interesse no tom de voz, Honor olhou-o por sobre o ombro.
       - Entende do assunto? - indagou, empurrando a porta da cozinha.
       O cmodo de teto baixo estava escuro. Honor planejava ela mesma cortar o arbusto que crescera junto  janela. Talvez, quando encontrasse um prestador de servios, 
conseguisse a indicao de um especialista em plantas e rvores.
       -  No muito - respondeu ele. - Mas tenho um amigo que acredita que a resposta para todos os males modernos pode ser encontrada tanto na natureza quanto nos 
laboratrios.
       - Concordo - afirmou Honor, amistosa. - Seu amigo mora por aqui? Alis, sou Honor Jessop. Sou nova na regio e ainda no tive tempo de conhecer nenhuma alma 
gmea...
       David hesitou e meneou a cabea.
       -  No, ele mora na Jamaica. - Fez uma pausa antes de se apresentar: - David... David Lawrence.
       Honor gostou do nome dele.
       - Jamaica... Estava mesmo imaginando onde conseguiu esse bronzeado invejvel. Vai l com frequncia?
       - No - declarou, sucinto. Ento, percebendo que fora rude, suavizou a situao com um pouco de explicao. - Morei l... por algum tempo. Foi assim que o 
conheci. Mas agora... - Franziu o cenho e olhou na direo da torneira gotejante.
       - Irritante, no ? - concordou Honor. - Tentei soltar para trocar a pea, mas est emperrada.
       - Provavelmente, precisa de uma lubrificao - sugeriu David, contente por mudar de assunto.
       - Posso dar uma olhada, se quiser.
       Meia hora depois, David desenrolava as mangas da camisa. Aps consertar a torneira e limpar o sifo, observara que ela deveria trocar o encanamento de chumbo, 
isolando a parte externa para evitar congelamento durante o inverno.
       Observando David locomover-se pela cozinha, Honor deu-se conta de como ele completava o local, como parecia certa a presena dele ali. Sentia-se confortvel 
perto dele, e feminina. Sorriu discretamente  ltima concluso. As filhas ficariam chocadas com seus pensamentos.
       Sempre fora uma esposa fiel, mas sabia que havia um forte lado sexual em sua natureza, o qual reprimia devido s circunstncias e estilo de vida. Sexo bom 
era um dos prazeres da vida, uma experincia que todos tinham o direito de usufruir. Sexo ruim, por outro lado, era como comida ruim, venenoso ao sistema humano, 
destrutivo, s vezes at fatal.
       Honor era tanto realista quanto fatalista. A vida oferecia muitas oportunidades, mas era preciso reconhec-las e tirar vantagem delas. 
       Sem falar nada, enquanto David lavava as mos, foi  geladeira e retirou o chilli que preparara no dia anterior.
       -  No demora para esquentar - comentou, casual. - Devo alert-lo, entretanto, que pode achar um pouco apimentado. Minhas filhas reclamam que...
       - Tem filhos?
       - Sim, duas meninas. Bem, j so adultas agora. E voc, tem famlia?
       - Tenho dois filhos tambm.
       - Mas no tem esposa? - perguntou Honor.
       - No - afirmou David. - E voc?
       - Estou sozinha tambm - informou Honor.
       - Quer dizer que mora sozinha aqui - concluiu David, pouco depois,  mesa, saboreando o chilli de Honor. 
       Ela achou que David no se alimentava havia algum tempo, considerando seu apetite e concentrao no ato de comer. Era um homem educado, falava bem e tinha 
boas maneiras. Com certeza, no se sentia inquieta por estar ali sozinha com ele, pelo contrrio, mas compreendia que no se tratava de algum que sara para dar 
um passeio  tarde. Embora tivesse respondido s suas perguntas, notou que ele elaborava as frases com cuidado.
       - Parece desaprovar. - Honor sorriu.
       - Bem, a casa  muito isolada...
       - E muito mal conservada. Sim, eu sei - concordou ela. - Estou tentando encontrar um pedreiro para fazer a reforma, mas no consegui contratar ningum da 
regio por causa da lenda...
       - Lenda? Oh, quer dizer a velha histria sobre a casa ser mal-assombrada - lembrou-se David.
       Ante a insistncia de Honor, David aceitou um copo de vinho caseiro e acabou relaxando com o lcool, o calor da cozinha e o estmago cheio.
       Se ele conhecia a lenda em torno daquela casa, devia ser da regio, pensou Honor.
       - As pessoas geralmente no usam essa estrada. Acho que  primeira pessoa que vejo nesta semana. Imagino que estava indo para Fitzburgh Place.
       - Sim. Estou procurando algum tipo de servio temporrio... e um lugar para ficar - admitiu David. - Achei que valia a pena perguntar a lorde Astlegh se ele 
est precisando de algum.
       -  Humm... Bem, voc est na poca de entressafra para servio temporrio - alertou Honor. - A colheita  feita com maquinrio e, embora empreguem batedores 
para a estao de caa, acho que no esto precisando de ningum no momento.
       Observando David, uma ideia comeou a tomar forma.
       -  Voc fez um trabalho profissional naquela pia. Estou procurando algum que torne a casa  prova de gua para o inverno. No posso pagar muito, mas posso 
oferecer uma cama e refeio.
       David encarou-a atnito.
       -  Est me oferecendo um trabalho? Est falando srio?
       -  E voc est falando srio sobre precisar de trabalho? - rebateu Honor.
       - Mas voc no sabe nada sobre mim - protestou David.
       - Sei que tem unhas limpas e boas maneiras - brincou Honor. - E sei que consegue consertar torneiras e que gosta do meu chilli.
       - No acredito. - David meneou a cabea. - Faz ideia de...
       - Se vai me dar uma palestra sobre os perigos que estou correndo, por favor, poupe-se - advertiu Honor. - Sou uma mulher adulta e perfeitamente capaz de fazer 
julgamentos e tomar minhas prprias decises. A oferta est de p. Se vai aceitar ou no,  com voc. Torta de ma? - ofereceu, levantando-se para recolher os pratos.
       - ... por favor... deixe que eu fao isso - insistiu David. Levantou-se rpido e tomou os pratos.
       Quando se tocaram, Honor ficou ciente da fora das mos e do calor dele. Apreciando seus dedos longos e os movimentos econmicos, geis, imaginou que ele 
devia tocar uma mulher de um jeito firme e planejado. Mas seria sensual? Perderia o distanciamento e a cautela no calor da paixo? Ou seria o tipo de homem que se 
mantinha inacessvel ao desejo verdadeiro, talvez at por medo? Nesse caso, no permaneceria interessada nele por muito tempo.
       Mas, talvez, no quisesse mant-lo por muito tempo mesmo... talvez...
       David interrompeu seus pensamentos:
       -  O que seria exatamente esse trabalho que est me oferecendo?
       - ... bem, como disse, gostaria de preparar a casa contra a chuva no inverno. Voc disse agora mesmo que o encanamento precisa de isolamento. H uma goteira 
no teto e algumas janelas precisam de pintura... uma ou duas esto com alguns vidros quebrados. H muito trabalho para ser feito no jardim e h a estufa que meu 
primo disse que eu poderia usar. S preciso arranjar algum que a conserte para mim.
       - Primo?
       -  Sim - respondeu Honor. - Lorde Astlegh  meu primo. Por isso vim parar aqui. Ele me deixou morar quase de graa.
       - Quer dizer que est pagando para morar nesse barraco? - David franziu o cenho.
       Honor lanou-lhe um olhar torto.
       - Agora voc est parecendo as minhas filhas - acusou.
       David pensou rpido. Precisava se alimentar e precisava de um lugar para dormir. Honor no era da regio, assim, no havia perigo de reconhec-lo. Pelo que 
ela contara, no tinha muita atividade social, parecia gostar de ficar sozinha. Era surpreendente aquele retraimento, considerando sua sensualidade extraordinria. 
Ou, talvez, fosse por isso mesmo. Poucas mulheres, no importava quo felizes e seguras com o casamento, se arriscariam a uma competio com Honor. Sentindo-se j 
muito excitado, achou prudente recusar a oferta,
       No entanto, queria um lugar para ficar, exatamente naquela na rea. Como podia dizer no? Se quisesse... A imagem da filha Olvia voltou-lhe, como a vira 
pouco antes. Cabisbaixa... infeliz... precisando de ajuda...
       -  Eu aceito - declarou.
       -  timo - alegrou-se Honor. - No vai me perguntar quanto estou pagando?
       - Casa e comida, voc disse - respondeu ele. Casa e comida! Ele estava disposto a trabalhar por isso. Por qu? Honor ficou curiosa. Mas sentia que qualquer 
tentativa de questionamento faria com que ele se retrasse e, talvez, recusasse a oferta de trabalho.
       - Pensei em comearmos com cinqenta libras por semana, pelo perodo de experincia de um ms - sugeriu Honor. Era uma quantia irrisria, mas queria ouvir 
a resposta de David.
       Ele aceitou tranquilo e sem questionamento. Honor sabia que tinha o direito de estar curiosa, curiosa e desconfiada, talvez? As filhas com certeza ficariam. 
Mas no era como as filhas, censurou-se. Preferia confiar nos seus instintos.
       Cinqenta libras por semana, refletiu David. Uma fortuna comparada  renda que ele e padre Incio tinham na Jamaica. Mas no estavam na Jamaica, alertou-se.
       O que esperava obter? Por que voltara? Para aliviar a prpria conscincia? Para rever a famlia? Presenciar a infelicidade de Olvia j o deixara mais preocupado 
com ela do que consigo mesmo.
       Por que sentia que Olvia precisava dele? Podia contar com Jon. Quando criana, sempre preferira o tio, assim como Max, filho de Jon, preferia ficar com ele. 
Mas Max e Jon estavam mais prximos agora.
       Honor completou os copos com mais vinho, ergueu o dela e fez um brinde.
       - A um relacionamento de sucesso e de amizade entre ns.
       David fitou-a. A frase era ambgua. Honor era uma mulher atraente, mas no do tipo predador. No precisava ser. Na Jamaica, conhecera mulheres que falavam 
abertamente em pagar para obter satisfao sexual com ele.
       Honor encarou-o interrogativa. David sabia que ela controlaria a curiosidade, a menos que ele desse um passo... e mesmo assim...
       Havia algo nela que o fascinava. Honor era to sincera, no parecia se importar com sua segurana fsica nem emocional. Ao mesmo tempo, parecia protegida, 
como se tivesse sabedoria e fora adquiridas em momentos de sofrimento e de alegria tambm.
       David sorveu um gole de vinho e imaginou o que padre Incio faria naquela situao. Aprovaria sua atitude? Sorriu para si mesmo, imaginando a resposta do 
grande amigo.
       -  Voc aprova? - diria ele. - Sua prpria aprovao s suas aes e reflexes deveriam ser mais importantes do que a minha opinio.  muito mais difcil 
nos decepcionarmos conosco e, por isso, somos nossos melhores crticos.
       - Sim, mestre. - David s vezes o satirizava ao final de suas homilias.
       -  No h mestres aqui - corrigia o padre, gentil. - S dois aprendizes.
       David no tinha receio quanto  sua capacidade de realizar o servio. Ao deixar a Inglaterra, passara algum tempo na Espanha, trabalhando ilegalmente na construo 
de vilas para estrangeiros.
       - Conte-me um pouco sobre voc - convidou Honor.
       Era um vinho potente, principalmente para um homem que no tocava em bebida desde a noite em que padre Incio o tirara da sarjeta, em Kingston. As bebedeiras 
foram uma tentativa pattica e solitria de destruir o que restava de sua vida. No deu certo, felizmente, mas o desgosto com o prprio comportamento, juntamente 
com a vida abstmia do padre, desabituaram seu organismo ao lcool. Cuidado, alertou-se, sentindo o sangue esquentar e a lngua se soltar.
       -  No h muito para contar - assegurou, cauteloso.
       Honor ergueu o sobrolho, mas no questionou.
       - Voc disse que tem dois filhos...
       -  Um filho e uma filha - especificou David. - Mas no tenho contato com eles.
       Com uma praga, imaginou por que lhe contara aquilo. Aliviado, viu que Honor aceitava o fato.
       - Acontece. Os casais se divorciam e, apesar da boa inteno de todos, s vezes,  impossvel manter contato. Meu marido tinha pouco contato com nossas filhas. 
Era fotgrafo. Minha famlia nunca aprovou nosso casamento e sempre desconfiei de que ele nos deixava, em parte, por sentir prazer em confirmar a expectativa de 
meus pais. Ele era assim.
       -  Deve ter sido difcil cuidar de suas filhas sozinha - atentou David.
       Honor olhou-o de soslaio.
       -  Na verdade, no. Era difcil conviver com meu marido. Casamo-nos jovens. Ele exagerava em tudo, bebidas, drogas, sexo, dinheiro. Queria tudo e tinha tudo. 
Agora, est morto. - Percebeu o olhar surpreso de David. - E, por ironia do destino, herdei os bens dele. No vou fingir que o dinheiro no foi bem-vindo. Minha 
famlia lavou as mos quando me casei e, embora tenhamos nos separado depois, meus pais achavam que eu tinha que me virar sozinha, pois eu mesma procurara aquela 
situao. E voc,  divorciado?
       - Sim. Pelo menos, entendo que o divrcio se efetivou - respondeu David. - No tive contato com minha esposa nem com minha famlia por algum tempo, mas o 
casamento j estava acabado antes... antes da minha partida. - Ansioso por mudar de assunto, indagou: - Mas, afinal, como se tornou uma herbolria?
       - O que faz algum se interessar por alguma coisa? - ponderou Honor. - Eu gostava da ideia de usar o poder de cura da natureza. Acho que me divirto mais com 
isso do que gosto de admitir.
       - Se descobrir um mtodo natural de emagrecimento, vai ficar milionria da noite para o dia.
       - J existe algo na natureza - informou Honor. - Chama-se famine.
       David enrubesceu.
       -  Desculpe-me. No quis menosprezar seu trabalho.
       - Nem a mim? - questionou Honor. 
       Houve uma pausa antes que David respondesse.
       - No tenho o direito de menosprezar ningum, nem de fazer julgamentos. Por direito, deveria estar...
       - Deveria estar onde? - encorajou Honor.
       - Em outro lugar - completou David, de repente. O que ela diria se tivesse completado a frase original, contando-lhe que deveria estar na priso, cumprindo 
pena por um crime que realmente cometera?
       -  Em outro lugar. Quer dizer, com a sua famlia? - indagou Honor. Sentia que algo o perturbava e que o vinho derrubara barreiras que ele preferia ter mantido 
erguidas.
       - No, no com a minha famlia - disse, zangado. - Minha famlia... minha famlia provavelmente se desviaria se me visse na rua, e quem pode culp-los? No 
h dvida de que preferem fingir que no existo... que nunca existi... e com razo. Tm todo o direito de sentir vergonha de serem meus parentes. Eu... o pai... 
o irmo... o filho... o ladro e covarde.
       - Ladro?
       Honor respirou aliviada. Por um momento, imaginou o que ele poderia ter feito. Roubo, embora um crime deplorvel para qualquer pessoa de bem, dificilmente 
despertaria reprovao em algum cujos ancestrais haviam cometido o mesmo crime em grande escala.
       - Honor, no ajuda ningum pensando de forma to radical - criticara uma tia, quando ela questionara a verso amenizada da histria da famlia. - Seu bisav 
foi um dos homens mais respeitveis de sua gerao e seu tio-av foi governador do condado.
       -  Sim, sei que foram to direitos e honestos quanto se pode ser, mas e quanto a nossos ancestrais de verdade, aqueles que violentaram, assassinaram e roubaram?
       - Isso foi h sculos, quando todo mundo fazia isso - explicou a tia. - Voc  uma menina estranha. No sei porque aborda esses assuntos. Isso no se faz...
       Fazendo ou no, no havia como encobrir os fatos. Duvidava de que o crime de David chegasse aos ps das atrocidades de seus ancestrais.
       O vinho acabou e Honor sabia que David lamentava ter revelado aquele fato. Mais alguns minutos e ele diria que havia mudado de ideia e iria embora. No queria 
que isso acontecesse. Oh, no, no queria mesmo.
       Levantou-se e sorriu.
       - Se subir comigo, vou lhe mostrar o seu quarto. Amanh, decidimos quais reparos devem ter prioridade.
       David se levantou, um pouco confuso. Quase dissera a Honor que ia embora. As perguntas sobre sua famlia o alertaram para o perigo e estupidez do que estava 
fazendo. A famlia no queria mais saber dele. No lugar deles, faria o mesmo.
       - Por aqui - chamou Honor.
       Incapaz de se decidir, David a seguiu pelo corredor at a escada. No andar de cima, ela lhe mostrou um quarto na parte dos fundos.
       - No  to grande quanto os quartos da frente, mas eu estou ocupando um e as meninas se apossaram dos outros, para quando vierem aqui me visitar - explicou 
Honor, acendendo a luz.
       O quarto no era grande, mas que importava? Comparado aos lugares onde andara dormindo... Tinha uma cama... um luxo. Tinha mveis tambm, um guarda-roupa 
e duas arcas. No que fosse precisar. Viajava com pouca bagagem, todos os seus pertences estavam na mochila.
       Havia cortinas nas janelas e um tapete. Estavam pudos, mas David pouco se importava. O quarto tinha ainda a prpria lareira e o ar parecia mido e frio.
       - A casa possui aquecimento central... um tipo de  aquecimento  central...  -  informou  Honor, como se lesse seus pensamentos. - Mas ainda no consegui fazer 
funcionar.
       - Humm... qual  a prioridade do aquecimento?
       - Bem; ficaria antes de "arrumar o jardim" e depois de "consertar o telhado" - respondeu Honor, com aquele sorriso que o excitava.
       Quando jovem, no dera a devida importncia  sexualidade e considerava normal a reao que tinha ao ver uma mulher bonita. Quando conheceu Tnia, Tiggy, 
nos anos sessenta, todo mundo fazia sexo sem se preocupar muito.
       Casaram-se e tiveram, dois filhos. Ento, passaram-se anos em que o sexo se tornou um ritual, um dever, uma tarefa. Depois, sexo virou a recompensa para aliviar 
as inseguranas de Tiggy e sua prpria culpa.
       Na Espanha e na Jamaica, mulheres de meia-idade se aproximavam dele, ansiosas, querendo no apenas seu corpo, mas seu esprito tambm. Resistira a todas. 
O celibato dos ltimos anos lhe proporcionara um osis de paz. No se importava em estar impotente tanto fsica quanto emocionalmente no que se relacionava a sexo. 
Entretanto, ali estava ele, ciente de Honor, reagindo a ela como um adolescente.
       - O banheiro fica na terceira porta  esquerda - informou Honor. - Vai encontrar muitas toalhas na estante. Felizmente, o aquecedor da banheira  uma das 
poucas coisas que esto funcionando, portanto, h gua quente. Oh, e sempre deixo as luzes do corredor acesas, mas, com a porta fechada, isso no deve incomod-lo.
       -  Sempre deixa as luzes acesas? - indagou David. - Por causa dos fantasmas?
       Honor ficou tensa. J de sada, estacou, mas no se voltou.
       - Talvez - concordou, mas ele identificou um leve tremor na voz e compreendeu, surpreso e solidrio, que ela devia ter medo de escuro.
       Era um temor to infantil que teve vontade de rir, mas controlou-se a tempo.
       -  Bem, as luzes no me incomodam - assegurou, srio.
       Foi recompensado com um olhar de alvio. Ela disse ainda, com voz insegura:
       - Os cabos eltricos so areos aqui e, quando h tempestades,  comum ficarmos sem energia. Eu mantenho um estoque de velas... caso seja preciso.
       - As velas podem provocar incndio - alertou David, gentil. - Pode valer a pena instalar um gerador.
       - Sim, andei pensando nisso - concordou Honor. David compreendeu que ela devia ter passado por algum trauma, pois seu nervosismo era evidente. Deu uma volta 
pelo quarto, analisando o que sentia ao saber da vulnerabilidade de Honor. Era orgulho, orgulho masculino e machismo... associado ao desejo de proteg-la, de ser 
seu protetor.
       -  No, no - alertou-se, abrindo a mochila. - Oh, no, voc no vai. No  para isso que est aqui, David Crighton. No  mesmo.
       
       
       
       CAPTULO CINCO
       
       David acordou bem cedo e por alguns segundos sentiu-se desorientado com o quarto e o conforto da cama com colcho.
       No fechara as cortinas na noite anterior e, pela janela, via as rvores que formavam o bosque pertencente a Fitzburgh Place, envoltas em nevoeiro. O sol 
acabara de despontar.
       Na Jamaica, essa hora sempre fora a sua preferida, quando o ar ainda estava frio nas montanhas onde padre Incio construra o refgio.
       No havia nada como o outono ingls. Alguns podiam elogiar as cores maravilhosas do outono na Nova Inglaterra, porm, ali em Cheshire podia-se entrar em sintonia 
com a mudana da estao e o ano que chegava ao fim. Havia uma melancolia persistente, salientada pelo calor fraco do sol, uma plida lembrana do vero. Ao mesmo 
tempo, o ar recebia a influncia da nvoa das primeiras horas da manh e isso logo trazia a lembrana do inverno iminente.
       Espreguiou-se, levantou-se e andou nu pelo quarto como um gato selvagem. Aprendera, morando nos trpicos, a poupar a energia do corpo. E, morando com padre 
Incio, aprendera a valorizar a sabedoria que vinha com a experincia do velho religioso.
       A princpio, rira da insistncia do padre em se banhar na cachoeira perto do refgio toda manh. E tambm da rotina de exerccios vigorosos.
       -  O corpo  como uma pea de equipamento. Com um pouco de cuidado, pode nos servir bem, mas, como qualquer outra pea, se o negligenciamos ou abusamos, logo 
a preguia e a falta de respeito vo dar sinais nos anos seguintes.
       - Desde que se esteja vivo para sentir os efeitos - ironizara David.
       O padre inclinara a cabea, aceitando a ressalva.
       -  O verdadeiro sbio orgulha-se de seu equilbrio fsico, mental, emocional e espiritual - ensinou. - E, talvez seja ftil da minha parte, mas no quero 
que digam que no tenho sabedoria por no respeitar os presentes que a natureza me deu. Alm disso, sinto-me limpo e energizado tanto em corpo quanto em esprito.
       - Um tpico ensinamento dos jesutas - desdenhou David.
       - A limpeza faz bem  alma - recitou o padre.
       - O que posso dizer  que a limpeza  o primeiro passo para controlar e erradicar as doenas e, uma vez que nossa tarefa aqui ...
       David dera de ombros, mas sabia que o religioso tinha razo. O padre era meticuloso quanto a ferver toda a gua utilizada no hospital e no manter objetos 
desnecessrios, foco de bactrias, junto aos doentes.
       E, aps algum tempo, David parou de ironizar o hbito de padre Incio de se banhar e de trocar de roupa ao final do dia. Ele mesmo comeara a seguir o mesmo 
ritual dirio.
       No havia diferena entre as roupas, porm, sem dvida, as que estavam limpas caam bem melhor.
       Na Espanha, ganhara o suficiente para comprar roupas bsicas e pagar a uma mulher da vila para lav-las. Mas tivera de partir s pressas, pois os agentes 
com a ordem de deportao por trabalho ilegal j estavam em seus calcanhares. A oferta de trabalho num iate que partia para a Jamaica era oportuna demais para recusar. 
No fim da viagem, entretanto, o capito informara que o nico pagamento que ele receberia seria a passagem gratuita.
       Na Jamaica, o nico trabalho disponvel era o de "mula" para gangues de droga, para levar o produto para a Inglaterra. Por pior que fosse, David sabia que 
no devia se envolver com drogas e viu-se na situao de viver um dia aps o outro sem saber se ganharia o suficiente para comer.
       Vestiu a cala jeans e foi ao banheiro. Duvidava de que Honor j estivesse de p, portanto...
       Honor. Que mulher fascinante. Ainda se intrigava com o fato de ela morar sozinha. Era escolha dela, sem dvida. A reao de seu corpo ao pensar nela era estranha 
e surpreendente. No se lembrava da ltima vez em que reagira de forma to imediata e firme. Tiggy com certeza duvidaria e ficaria espantada ao v-lo agora.
       Mesmo antes da concepo de Jack, fingira orgasmo em vrias ocasies. s vezes, interrompia a sesso para ir ao banheiro alegando vontade de urinar, quando, 
na verdade...
       David franziu o cenho, desgostoso, ao sair do chuveiro. O apetite sexual de Tiggy espelhava sua desordem alimentar. A bebedeira seguiam-se auto-repulsa e 
autopunio. Na poca, podia no ter reconhecido os sintomas, porm, mas com certeza, no tivera interesse nem compaixo para ajud-la, to ansioso quanto ela em 
manter a fachada do casamento perfeito. Ambos empenhavam-se em manter a imagem de um relacionamento muito sexual, com encenaes fajutas de intimidade e adorao 
sempre que havia pblico. E, como sempre acontecera em sua vida, carregar o fardo dessa fico destrura qualquer autenticidade existente. No lugar, ficara um medo 
destrutivo, doentio de que percebessem o logro e descobrissem como ele realmente era.
       Na poca em que comeou a movimentar as contas bancrias dos clientes como se o dinheiro fosse seu, iniciaram-se tambm os sonhos desesperadores. Via-se caminhando 
pela rea comercial de Haslewich, mas ningum parecia reconhec-lo. Ao parar e ver o prprio reflexo na vitrine de uma loja, descobriu por qu. No se parecia nada 
consigo mesmo.
       Voltando-se para a rua, chamava aqueles que o observavam, o irmo, Jon, a esposa, o pai, os amigos do clube de golfe, mas ningum atendia. Davam de ombros, 
como se ele fosse um estranho importunando-os.
       Era fcil entender a mensagem do sonho agora. Podia caminhar pela cidade e ser reconhecido pelo que era, David Crighton, aquele que deixara a famlia, o lar, 
mas por dentro... por dentro, era um homem totalmente estranho, algum que no conheciam. Um estranho s vezes at para si mesmo, considerando sua resposta sexual 
ao conhecer Honor.
       J vestido, desceu e foi para a cozinha, onde encheu uma chaleira com gua. Enquanto aguardava a fervura, estudou o local. Um dos caixilhos estava podre e 
a janela no se fechava completamente. A porta tambm no se encaixava bem no batente. Como j sabia, a escada rangia e, sob o tapete do corredor, alguns tacos do 
assoalho estavam soltos.
       Honor evidentemente tentara clarear a cozinha, pintando as paredes com uma tinta de tom ocre claro. As prateleiras exibiam peas de porcelana de cores mediterrneas.
       Numa reentrncia da parede, sobre um fogo antigo, ervas secavam presas a um suporte de madeira. Fora esses detalhes, a cozinha era fria e ligeiramente mida. 
David aproximou-se do fogo e viu que estava apagado. Aps um segundo de hesitao, ajoelhou-se, abriu as portinholas e comeou a limpar o forno.
       Tinha acabado de acender o fogo quando Honor entrou na cozinha com um cesto de vime.
       - Acordou cedo! - exclamou ela, sorridente.
       - Voc tambm. - David fechou as portinholas do forno, levantou-se e foi a pia lavar as mos.
       - que gosto de colher as plantas e ervas no dia, pois so mais eficazes quando frescas.
       - Isso me parece mitologia medieval - provocou David.
       Rindo, Honor acrescentou:
       - Mas no fui atrs s de plantas e ervas. - Abriu o cesto e retirou um punhado de cogumelos, o olhar cintilante ao mostrar sua colheita. - Veja,  o caf 
da manh!
       - Tem certeza de que so comestveis? - indagou David.
       - Confie em mim, sou herbolria - respondeu Honor, fingindo presuno.
       Ele foi ao fogo antigo, abriu uma portinhola e acrescentou mais lenha ao fogo j alto. Honor espantou-se.
       -  Oh, timo, conseguiu acender o fogo. No consegui manter o fogo aceso.
       - Por que no lanou um feitio?-provocou David.
       -  um fogo muito temperamental - inventou Honor. - Pretendo troc-lo. Felizmente, no dependo dele para cozinhar. Tenho um fogo porttil e um forno de 
microondas.
       - Quer dizer que tive todo esse trabalho para nada? - reclamou David.
       Honor riu.
       - Bem, no para nada. Est vendo? O fogo  grande o suficiente para o meu caldeiro e posso fazer umas receitas, agora que voc conseguiu acend-lo!
       -  Receitas de bruxa? - brincou ele.
       Srio um segundo depois, observou Honor movimentando-se pela cozinha. Ela estava de botas de borracha e cala jeans, os joelhos sujos de terra da horta. O 
suter de algodo branco extragrande devia ter sido de outra pessoa... um homem. O marido? Um amante? Franziu o cenho ao identificar o cime possessivo, bem caracterstico 
dos homens. Apesar de grande, o suter no escondia o volume dos seios, que balanavam tentadores, insinuando que estavam livres.
       Tiggy, apesar dos perodos de necessidade sexual, era obcecada pelo corpo. Dizia que a lingerie que usava seria considerada irresistvel por qualquer outro 
homem. Ele a achava mais como uma boneca de plstico, rgida e sem graa, fria e estril.
       Honor, por outro lado, no usava perfumes caros, nem suti para salientar o busto, nem meias provocantes. No pretendia parecer irresistvel.
       No, Honor era deliciosamente mulher, em vez de artificialmente feminina. Apaixonada, seria terna e carinhosa, gozaria o prazer com hedonismo natural e, assim, 
no deixaria de excitar o companheiro.
       Companheiro! Mas ele no era... no era e nunca seria.
       - No sei quanto a voc, mas gosto de comear o dia com um bom caf da manh - comentou Honor, amistosa.
       Um bom caf da manh. Na Jamaica, o caf da manh, como todas as outras refeies, consistia de frutas frescas, peixe que eles mesmos pescavam e outros alimentos 
que os pacientes e suas famlias forneciam.
       - Um bom caf da manh - repetiu David. 
       Onde ele estivera? Aonde suas lembranas o levavam, imaginou Honor, ante aquele olhar concentrado e distante.
       - Bem, sabe o que dizem: saco vazio no pra em p.
       - Tem razo - aceitou David e deu de ombros. Nunca vira Tiggy tomar o caf da manh, pois ela ainda dormia quando saa. Ele prprio, odiando o caos matinal 
na cozinha, tomava s um caf. Olvia, de uniforme escolar que passava a ferro sozinha, preparava uma tigela com cereais para o irmo Jack e o olhava acusadoramente 
ante os berros que emitia irritando  mulher  guisa de despedida. S no escritrio beliscava sanduches e croissants, que mandava a secretria ir buscar. Como aquelas 
lembranas doam agora! Na poca, no se sentira culpado, egocntrico ao extremo, crente de que, como filho favorito, valia mais que todos os membros da famlia. 
No se cansava, tampouco, de arranjar desculpas para passar o mnimo de tempo com os filhos, ora amuado, ora irritado com  os pedidos  de  ateno.  Era  fcil preencher 
a agenda com reunies de negcios, seguindo para o clube ao final do expediente, de modo a chegar em casa somente quando Olvia e Jack j estavam dormindo.
       - Est pronto.
       O chamado de Honor tirou-o de seus pensamentos. Sorriu triste.
       -  Estava me lembrando do caf da manh quando as crianas eram pequenas.
       -  Lembranas infelizes? - adivinhou Honor, precisa.
       -  Sim - admitiu David.
       Honor era to objetiva, em contraste com a cautela dele, que outra pessoa poderia at se ofender. Entretanto, nela a objetividade parecia natural, considerando 
que respondia sem rodeios tambm.
       -  Nem sempre  fcil ser pai ou me - consolou Honor.
       -  No  fcil ser criana quando se tem um pai to negligente e egosta quanto eu era - confessou David, amargurado. - Meus filhos tm pouco a me agradecer 
e muito a me culpar.
       - E eles o culpam?
       David deu de ombros.
       - No sei, mas se fosse eles... - Deteve-se e a fitou. - Isso est ficando sentimental demais e no pode lhe interessar. Que mais tem esse seu caf da manh, 
fora os cogumelos duvidosos?
       Honor riu. Reconhecia uma porta fechada quando via uma, especialmente quando a batiam com tanta determinao.
       - No h nada de duvidoso nos meus cogumelos. Espere at experimentar.
       - Humm... No sei se vou me lembrar do sabor ou se vou acordar com uma bela dor de cabea e descobrir que...
       - Que eu usei o seu corpo para satisfazer minhas necessidades femininas - sugeriu Honor, com um sorriso maroto.
       Um sorriso maroto e sexy, reconheceu David. Aproximou-se srio.
       - Agora eu me ofendi. Se me levar para a cama, prometo que vou saborear e me lembrar de cada segundo. Com certeza, no precisarei de nenhum afrodisaco ou 
poo mgica.
       Por que dissera aquilo? Algum tipo de machismo, algum tipo de desejo deturpado de provar que era homem? Que tipo de idiota era? Com uma frase, em menos de 
um minuto, mudara completamente a natureza do novo relacionamento e, se fosse Honor...
       Prendeu a respirao e aguardou que ela dispensasse a oferta, ou, pior, dissesse que mudara de ideia a respeito de contrat-lo para fazer a reforma da casa. 
Mas ela simplesmente foi  geladeira.
       - A fazenda fornece toda a carne - comentou, como se nada tivesse acontecido. - O toicinho defumado  feito aqui. Meu primo Freddy diz que perco todo o sabor 
do bacon colocando-o na geladeira, mas, com toda esta umidade, prefiro perder um pouco de sabor a acabar intoxicada. No vero, aps alguns dias quentes, no imagina 
a quantidade de moscas que aparecem...
       -  Os drenos provavelmente precisam de limpeza - comentou David,  mecanicamente, mal acreditando que ela fora graciosa o bastante para ignorar seu desabafo 
indecoroso.
       Graciosa. Palavra estranlia para se definir uma mulher to moderna, pois lembrava vivas da poca eduardiana. A graciosidade de Honor era muito mais que isso, 
uma mistura de gentileza, compaixo, sabedoria e fora, difcil de descrever, como os componentes de um perfume soberbo.
       - Oh, j que tocamos num assunto to infecto, devo alert-lo: desconfio de que a casa tenha ratos.
       - Ratos! Imaginava que sim, l fora. Um gato deve resolver o problema.
       -  Humm... Foi o que pensei, mas at agora, Jsper, ou  muito incapaz, ou anda muito bem alimentado, pois no se animou em ca-los.
       - Jsper?
       - O gato. No  meu... bem, no propriamente. Ele apenas apareceu. Uma vez que ningum sabe quem  o dono, ele e eu nos adotamos. Ele vai aparecer logo para 
o caf da manh. Sempre chega l pelas oito horas.
       -  Os gatos sabem a hora. Bem, ele deve ser inteligente demais para perder tempo caando ratos - brincou David. Ao ver Honor pegar uma frigideira, ofereceu-se: 
- Se  para o toicinho, eu posso fazer.
       Ela lhe passou o utenslio prontamente.
       -  Obrigada. Gosto do meu bem crocante - informou.
       Honor era mesmo uma mulher extraordinria. Meia hora depois, quando o caf da manh estava pronto, ela saiu em direo do corredor e voltou em segundos com 
o jornal do dia. Gostava de ler enquanto saboreava o desjejum.
       A maioria das mulheres de sua gerao insistiria em preparar o caf da manh e passar-lhe o jornal para que lesse primeiro. Em vez de se sentir humilhado, 
porm, revigorou-se. Era como se Honor o informasse, sutil e indirtamente, daquele seu jeito casual e indiferente, de que s se impressionaria com um tipo muito 
especial de masculinidade.
       Um homem muito especial. Bem, quase certamente, ele no o encarnava. Duvidava de que muitas mulheres o achassem atraente e desejvel quando soubessem a verdade 
sobre seu passado, e no as culparia...
       -  Passado  passado - comentou Honor, de repente. - Estamos vivendo o presente. Aqui e agora. E devemos continuar vivendo.
       David sobressaltou-se. Honor baixara o jornal e o observava. Teria adivinhado que ele pensava no passado?
       -  Tem certeza de que no  bruxa ou, pelo menos, telepata? - questionou, um tanto defensivo. - Podemos viver no presente, mas o passado faz parte de cada 
um de ns. O que fizemos no passado  o que nos torna o que somos hoje.
       - Sim, porm, debater com os erros do passado significa impedir que aprendamos com esses erros, para crescer e seguir em frente - opinou Honor.
       - E quando nossos erros no afetaram apenas nossas prprias vidas, mas tambm das pessoas a nosso redor? - replicou ele.
       Honor fitou-o reflexiva. Tratava-se de um homem com a conscincia atormentada, sem dvida. Ele concluiu o desabafo:
       - E quando no podemos pedir para que essas pessoas nos perdoem porque sabemos que o que fizemos no tem perdo?
       - No sei - admitiu Honor. - No sei, mas, se fosse voc...
       Honor calou-se quando a porta da cozinha rangeu, assustando-os, a David principalmente.
       -  Jsper. - Ela se levantou para recepcionar o gato.
       - Precisamos instalar uma portinhola para ele - sugeriu David. O gato adentrou a cozinha, aninhou-se diante do fogo e estudou o estranho antes de comear 
a limpar as patas. - Vou fazer isso. Voc disse que ia listar o trabalho a ser feito - lembrou.
       - Sim, claro - concordou Honor, percebendo que ele queria mudar de assunto, provavelmente lamentando ter revelado tanto a ela.
       Estava surpresa com a prpria curiosidade sobre ele. Era um homem atraente, sem dvida, um homem atraente e muito viril. Sentia a prpria feminilidade aflorar 
ao v-lo, contudo...
       No estava em busca de um caso amoroso e, com certeza, no queria ser confidente de ningum, nem prover um ombro de apoio. Por que deveria? Os problemas de 
cada um s diziam respeito a si mesmos. Herbolria eficiente era aquela que mantinha uma certa distncia dos pacientes, diagnosticando e prescrevendo com calma e 
sem emoo.
       - Vou lhe mostrar a casa toda aps o caf da manh - decidiu Honor, prtica. - Vai precisar de um bloco para anotar tudo.
       
       - Passei na agncia de turismo ontem, os voos para Nova York esto em promoo. Acho que sai mais barato se formos para l e, ento, pegarmos um voo domstico 
para a Filadlfia. A viagem demora um pouco mais, claro, mas achei que poderamos pernoitar num bom hotel e, aps o casamento, passear um pouco pela Nova Inglaterra...
       - Caspar, no vou para os Estados Unidos de jeito nenhum - desabafou Olvia, afastando a xcara de caf intacta.
       Ouvia a movimentao das filhas preparando-se para a escola no andar superior da casa. J estava acordada havia duas horas, pois queria adiantar algumas leituras.
       Caspar detestava v-la trabalhando em casa, pois se dedicava menos a ele e s meninas, porm no tinha argumentos quando ela alegava no dar conta de todas 
as tarefas no escritrio.
       Olvia detestava quando o marido a pressionava, fazendo-a sentir-se culpada. s vezes, tinha a impresso de que nunca conseguiria satisfazer as vontades dos 
homens em sua vida. Alm disso, cada vez mais, sentia necessidade daquela hora extra para si mesma pela manh, que pertencia somente a ela, quando s tinha a si 
mesma para considerar.
       Houve poca em que o nico motivo para acordarem cedo era fazer amor, mas aquilo parecia muito distante agora. No se lembrava da ltima vez em que realmente 
desejara o marido, Caspar... Quando tentava se aproximar, ele externava raiva e mgoa, no carinho.
       Exatamente o que ela sentia agora.
       Ao experimentar a mistura de raiva, pnico e desespero, cerrou os dentes.
       - Caspar, sei que conseguiu um perodo de licena maior na universidade para essa viagem, mas voc sabe que no posso ir. J discutimos e...
       - No, ns no discutimos nada - interrompeu Caspar, zangado. - Eu tentei discutir o assunto, Liwy, mas tudo o que fez foi vetar qualquer discusso.
       Olvia ergueu a mo em protesto.
       - Caspar, simplesmente no tenho tempo para outra discusso. Tenho um compromisso as oito e meia e antes tenho que...
       -  Oh... desculpe-nos se nossas vidas particulares esto interferindo em sua agenda de trabalho - ironizou o marido. - Desculpe-me se s vezes me esqueo 
de quo importante e ocupada voc . A scia do escritrio da famlia.
       Olvia contraiu os lbios ante o sarcasmo.
       Ao lhe propor sociedade no escritrio, tio Jon deixara claro que ela no deveria se sentir pressionada a assumir mais trabalho. Segundo ele, estava apenas 
reconhecendo sua importncia na conduo dos negcios da firma.
       Mas Olvia no entendera assim. A euforia do amor por Caspar, e depois, o nascimento das filhas, escondera por um bom tempo a dor e ansiedade que trazia desde 
a infncia. Recentemente, com a tenso crescente no casamento e a presso no trabalho, percebia que se tornava paranica.
       No que tivesse analisado seus sentimentos e seus medos, nem que soubesse a causa da ansiedade. Pelo que entendia, a motivao era apenas a necessidade. Necessidade 
de qu? No sabia responder.
       Viu raiva no olhar de Caspar. Ao sentir a alienao e a dor crescer entre eles, punha-se na defensiva. A insistncia do marido em comparecer ao casamento 
do meio-irmo nos Estados Unidos, interpretava como uma indireta. Era como se ele dissesse que a famlia dele, os irmos, os homens fossem mais importantes do que 
ela.
       - No entendo por que est to ansioso em ir a esse casamento. Afinal, voc e Bryant nunca foram chegados. Quando ele nasceu, voc j estava no segundo grau 
e s passou frias com ele, seu pai e a me dele uma vez. Se comparecssemos a cada casamento, batizado e outras comemoraes dos seus parentes, ficaramos viajando 
direto.
       - Bem, eu no me importaria - declarou Caspar. - Pelo menos, nos veramos mais, para variar. Como est agora, com voc passando noventa por cento do seu tempo 
trabalhando...
       - No seja ridculo - interrompeu Olvia. - Voc est exagerando.
       - Estou? No acho. Pergunte s meninas o que elas acham... se tiver coragem.
       -  No  justo - protestou Olvia. - Passo o mximo de tempo com elas.
       - O mximo de tempo disponvel, mas quanto seria isso, exatamente, Liwy?
       Olvia mordeu o lbio. Era verdade que ultimamente no passava tanto tempo com as filhas quanto gostaria, mas trabalhava bastante justamente para elas. Que 
modelo ela seria se permitisse que as filhas crescessem como ela mesma, acreditando que as mulheres eram seres inferiores? No! Suas filhas no cresceriam assim 
diminudas, rebaixadas. Se, para isso, tivesse que sacrificar parte do tempo na companhia delas...
       - Est dizendo isso porque... porque est tentando me pressionar a ir a esse casamento - acusou, zangada. - No entendo porque toda essa vontade. Vocs nunca 
foram muito chegados.
       - No como voc e sua famlia, quer dizer - interpretou Caspar, furioso. - E sabemos como o cl Crighton  unido, no sabemos? Principalmente aqueles que 
so deixados de fora. Ns somos sua famlia, Liwy, eu, Amlia e Alex, mas, s vezes... ou melhor, na maior parte do tempo, voc age como se...
       - No  justo e no  verdade - protestou Olvia.
       - No? - desafiou o marido. - Faz ideia de quantas pessoas ainda se referem a voc como Olvia Crighton? No importa o quanto negue, Liwy, voc ainda est 
sob domnio das regras Crighton, do jeito Crighton de fazer as coisas. Consegue imaginar como voc teria reagido se eu sugerisse que no fssemos ao casamento de 
Louise, por exemplo... e ela  s uma prima.
       -  diferente. Ns crescemos juntas. Vejo meus primos e primas todo o tempo. Voc no v seus meio-irmos e irms h anos.
       - No, no vejo - concordou Caspar. - O que justifica ainda mais  minha vontade de v-los numa ocasio especial. Lembra-se de quando nos casamos, Liwy, era 
voc que pedia uma nova atitude... um novo comeo, um novo modo de interagir e reagir  minha famlia.
       - Ns os visitamos - lembrou ela.
       - Acho que no estou me fazendo entender - concluiu Caspar. - Bem, talvez isto funcione, Liwy. Eu vou estar presente no casamento do meu meio-irmo e as meninas 
tambm. Se a minha esposa ir, s depende de voc.
       Olvia ia protestar e dizer-lhe exatamente o que achava daquela atitude autoritria, mas ouviu as meninas descendo e sabia que era tarde demais para expressar 
seus sentimentos. Forou um sorriso largo quando a porta da cozinha se abriu e as filhas entraram.
       - Certo, garotas, caf da manh, e ento, tm dez minutos para arrumar o material.
       - Oh, timo,  a vez de papai nos levar para a escola - comentou Amlia, sentando-se  mesa. - Isso significa que podemos fazer o caminho mais longo e ver 
os pneis no campo.
       Olvia beijou as filhas e foi para a porta. Deliberadamente, evitou passar perto de Caspar. Sentia-se magoada e triste.
       O comentrio de Amlia no fora proposital, mas destacava as diferenas de conduta do pai e da me. Caspar, como palestrante da universidade, podia programar 
seu dia para ter mais tempo pela manh. Olvia tinha outra rotina. At imaginava o que o av diria se a visse chegando ao escritrio depois das oito e meia. Ele 
a condenaria imediatamente. Ao volante rumo ao trabalho, no conseguia parar de pensar no que Caspar dissera. Ele no falara srio, tinha certeza. Ele jamais iria 
ao casamento de Bryant sem ela. S estava querendo pression-la, chantage-la. Mas ele, mais do que ningum, sabia o quanto era difcil tirar uma licena do escritrio. 
Como seu marido, tinha que ser mais compreensivo.
       
       - Bem, h pelo menos um, provavelmente vrios buracos no telhado - alertou David, avaliando as manchas midas no teto e na parede do quarto.
       - Sim. Acho que tem razo, e est ainda pior no sto - concordou Honor.
       Estavam no final da vistoria e, pelo que David vira, havia trabalho suficiente para mant-lo ocupado por meses, considerando s o telhado e as janelas.
       Certa vez, havia muito tempo, em outra vida, um outro David olharia para Honor horrorizado  simples ideia de assumir tal trabalho. No saberia por onde comear, 
nem como fazer, pois seu pai o levara a crer que qualquer tipo de trabalho manual era inferior. At a fogueira nos fundos da casa, acesa todo dia quinze de novembro, 
era preparada pelo jardineiro.
       Tudo era diferente agora, claro. Nos anos em que estivera fora, aprendera, inicialmente por necessidade, a executar tais trabalhos. Tambm, para sua surpresa, 
descobrira gosto em aprender e realizar bem um servio.
       Agora, seu olho clnico reconhecia os sinais de negligncia na construo da casa e acreditava poder realizar a maior parte do trabalho sozinho.
       -  Eu gostaria de pesquisar um pouco - declarou. - Se escolher materiais semelhantes aos utilizados,   a  reforma  vai  ficar  menos  visvel. Quanto a encontrar 
madeira de qualidade para os caixilhos das janelas...
       - Meu primo pode ajud-lo - sugeriu Honor. - Vou telefonar e combinar para irmos l.
       David franziu o cenho. No conhecia lorde Astlegh pessoalmente, portanto, no tinha medo de ser reconhecido, mas ele podia conhecer outro membro de sua famlia, 
em particular, seu irmo gmeo. A ltima coisa que queria era encontrar algum que pudesse reconhec-lo devido a semelhana com o irmo. Por esse motivo, a idia 
de ficar ali isolado com Honor lhe parecia perfeita.
       -  O que foi? - indagou Honor. - Vai gostar dele, prometo.
       Ficou atnito com a percepo de Honor. Ela era to intuitiva, captava seus sentimentos to rpido. Tiggy, por sua vez, no sentiria nem em um milho de anos 
o que Honor to facilmente identificava.
       - No se trata de gostar ou no dele - admitiu David.
       -  Quer dizer, ele pode se sentir obrigado a incorporar o papel de pai e questionar suas intenes para comigo? - Honor riu e meneou a cabea. - Tenho quarenta 
e quatro anos e, deixando de lado outras consideraes, ele acha que eu tenho muito mais experincia em julgar se algum  ou no confvel.
       -  Mesmo? - David no evitou o olhar carinhoso. Desconfiava que, mesmo tendo sofrido um pouco na vida, ela tivera uma existncia relativamente protegida e 
no fazia ideia do quo fundo as pessoas podiam cair.
       -  Sim, mesmo - confirmou Honor. - Meu finado marido era fotgrafo, nenhum gnio da arte, mas famoso o bastante para conseguir bons trabalhos para revistas 
e continuar sustentando a bebida, as drogas e as modelos bonitinhas. -Apurou as recordaes. - Ele gostava de formar trios, e contrastes. Talvez fosse o artista 
dentro dele. Sua combinao favorita era uma modelo branca e outra negra. Eu sei, no porque ele me disse, mas porque vi as fotografias... e as meninas, tambm quase 
viram! Ele queria que eu soubesse onde conseguia aquilo que eu no lhe fornecia. - Sorriu. - Compartilhar nunca foi meu ponto forte.
       -  Lamento - murmurou David.
       -  No se lamente. Eu no me lamento. Foi um casamento ruim, mas aprendi muito... e tenho Abigail e Ellen.
       - No estava lamentando seu casamento. Estava me desculpando por t-la julgado mal... por achar que no conhecia as realidades da vida por ter sido sempre 
poupada.
       Honor capturou seu olhar e David resistiu  tentao de se aproximar. Havia algo terno e convidativo nela, algo...
       Um tanto rouco, voltou ao assunto da reforma:
       - Embora esteja abandonada, a casa em si foi bem construda e tem um bom tamanho. Mais as terras adjacentes,  com certeza um bom investimento e...
       - No posso compr-la - interrompeu Honor. - Meu primo se ope a tudo que fragmente a propriedade, e entendo o ponto de vista dele. Entretanto, ele me disse 
que podia arrendar a casa pelo tempo que eu quisesse, e optei por noventa e nove anos.
       -  Parece suficiente - concordou David, sorrindo. - Mesmo para uma bruxa.
       - Pode parar de dizer isso? - censurou Honor, divertida. - No sou bruxa.
       - Ah, mas voc diria isso, no diria? - provocou ele. Sua expresso mudou completamente quando ela se voltou para a janela e a brisa lhe enfunou a blusa contra 
o corpo. - No tenho certeza se posso confiar em voc - acrescentou, rouco. - Sinto-me meio enfeitiado.
       Honor voltou-se para ele.
       -  mesmo?
       -  Desculpe-me, no devia ter dito isso - reconheceu David, sem jeito.
       -  Por que no, se  o que sente? - indagou Honor, tranquila.
       - O que eu sinto no ... Eu no deveria falar assim com voc - concluiu ele, passando a mo nos cabelos. - No tenho nada a oferecer a uma mulher... a mulher 
nenhuma, muito menos a uma mulher como voc.
       Honor lanou-lhe um olhar severo.
       - No sou eu quem deveria decidir? Ento, antes que ele respondesse, ela apontou para uma mancha na parede.
       -  Se puder arrumar isso, pretendo redecorar este quarto e me mudar para c. No sei por que, mas sinto que este  o quarto certo para mim. A casa toda precisa 
de reforma, claro, mas o telhado  mais urgente. Depois, pretendo persuadir Freddy a acrescentar a estufa no meu contrato.
       Ela olhou o relgio.
       - Oua, preciso visitar um paciente. Importa-se de ficar sozinho e fazer uma lista do que vai precisar? Veja por onde quer comear, est bem? Vai precisar 
de dinheiro para comprar o material. Podemos conversar  tarde.
       
       CAPITULO SEIS
       - Mas como sabe que ele a ama? 
       - Porque ele me disse - respondeu Annalise, recuando quando a outra garota lanou para o lado a cabeleira castanho-escura com reflexos cor de mel.
       - Oh, mas ele diria isso de qualquer forma, no diria? - Patti olhou-a de soslaio e acrescentou: - Todos os meninos dizem isso quando esto na cama com voc.
       Annalise sentiu o corao disparar. Estavam no quarto de despejo sobre a garagem da manso dos pais de Patti. A construo era nova e moderna. Patti, que 
sabia controlar o pai como ningum, convenceu-o a permitir que a banda ensaiasse s vezes ali. O pai reclamara, pois queria instalar uma mesa de bilhar e um bar 
para uso particular, mas acabara concordando.
       A banda, que ensaiara ali pela primeira vez na noite anterior, considerou o local mais adequado do que o barraco da tia de Mike Salter. Annalise sabia o 
que motivava Patti. Nova na cidade e na escola, Patti deveria se manter recatada, mas tinha suas prprias regras de comportamento. O pai acabara de vender uma pequena 
rede de supermercados no sul da Inglaterra, segundo Patti, por "milhes", e a famlia se mudara para Cheshire por causa das excelentes oportunidades de negcio na 
rea. Como a filha, Will Charles se promovia com a sutileza de um rinoceronte.
       J nas primeiras semanas na escola, Patti decidira que faria parte da trupe da banda. Annalise no tinha dvida de que ela secretamente se interessava por 
Pete, seu namorado. Embora se passasse por amiga, vivia lhe telefonando, convidando para atividades, mas sentia que ela no queria a sua amizade.
       -  Por que faz isso? - questionou Patti, certo dia, quando Annalise recusou mais um convite com a desculpa de que devia ajudar nos servios domsticos. - 
Deixe seu pai fazer isso ou que encontre algum que faa. Ele no tem namorada?
       - No - respondeu, sucinta.
       -  Como voc sabe? - rebateu Patti. - Ele pode ter uma namorada e no ter contado nada. Os homens nem sempre contam. Ele  homem e precisa de sexo. Todos 
os homens precisam. Aposto que Pete  bom de cama - acrescentou, insinuante. - Pode falar... sou sua melhor amiga.
       - No h nada a contar - respondeu Annalise, formal.
       - Mentirosa - acusou Patti, volvendo os olhos ao teto. - Pete  to sexy. Se ele no est transando com voc, ento deve estar procurando outra garota. E, 
se ele quiser, no me importo em ajudar! - Riu e acrescentou: - S estava brincando. Voc sabe que  a minha melhor amiga.
       Annalise no respondeu, e Patti prosseguiu:
       - Acho que esse corte de cabelo no lhe cai bem. Realmente, no quero ser grosseira, mas ouvi Pete dizendo outro dia o quanto gostava de garotas morenas. 
- Lanou os cabelos para o lado, olhando-a maldosa. - Se ele realmente a amasse, no diria isso, diria? - Ajeitou o cabelo. - Ele disse que gostava do meu estilo...
       Annalise comeando a sentir nusea. Era verdade que no havia nada a comentar sobre sua vida sexual com Pete. At ento, s haviam trocado uns beijos. Pete 
queria ir mais alm, mas ela se recusara. Iria para a cama com ele, para se completar, mas sua alma romntica desejava muito mais que a intimidade fsica, quase 
casual que ele propunha. Fora difcil dizer no, pois o amava muito.
       Em sua imaginao, am-lo e estar apaixonada por ele eram sentimentos diferentes da realidade de ser sua "garota". Para ela, tratava-se de duas partes de 
um todo e ele deveria am-la acima e alm de tudo e de todos. Ele devia estar s esperando completar dezoito anos para despos-la e possu-la e, assim que se casassem, 
viveriam felizes juntos. Tudo seria perfeito. Ela se sentiria desejada, amada, segura.
       Nunca largaria os filhos, como sua me fizera. No, nunca faria isso. Desejava que Pete dissesse as palavras que a fariam se sentir segura, mas reparava no 
jeito como ele olhava para outras garotas. Notava tambm os olhares delas para ele e, em seu corao, j sentia a dor do que viria.
       - Sei como fazer algum me amar - vangloriou-se Patti, confiante.
       Sria, Annalise observou-a. No devia estar ali. Devia estar em casa, mas a banda viria mais tarde e, se no estivesse ali, Patti, sua "melhor amiga", cairia 
em cima de Pete.
       -  A que horas ser que Pete vai chegar? - comentou Patti, impaciente. - Ele parecia aborrecido ontem  noite e no conversou muito com voc, no foi?
       Annalise no disse nada e desviou o olhar. s vezes, Pete a tratava com cruel indiferena. Tentava no se importar, mas, quando ele agia assim, magoava-se 
muito.
       -  Meus pais vo viajar no fim de semana e vou dar uma festa - contou Patti.
       -  Preciso ir - disse Annalise. Levantou-se e foi para a porta ao perceber que j era tarde.
       - Mas Pete vai chegar logo - comentou Patti, com um brilho no olhar. - Mesmo assim, se precisa... Eu tomo conta dele para voc, est bem?
       Annalise sorriu forado e abriu a porta.
       - Annalise,  voc? - chamou o pai, quando ela entrou em casa.
       - Sim - respondeu, desanimada.
       Estava mais atrasada do que deveria e sabia disso. Esperara chegar em casa antes que o pai voltasse do trabalho. Ele no gostava de Patti nem de Pete e, se 
soubesse que ficara conversando com ela em vez de ir direto para casa, ficaria irritado. Para seu alvio, ao abrir a porta da cozinha, viu um dos amigos do pai, 
Hal,  mesa com ele.
       Hal tinha uma empreiteira que realizava reformas e servios. Sempre gostara de Annalise e, com um brilho no olhar, comentou:
       - Ora, mas voc est uma moa muito bonita. 
       Annalise enrubesceu e o pai franziu o cenho.
       -  No encha a cabea da menina com essas bobagens. Ela precisa passar mais tempo com os livros do que diante do espelho.
       Hal riu, piscou para Annalise e provocou:
       -  Ouvi dizer que voc e Pete Hunter andam namorando...
       -  Namorando? - rugiu o pai, para surpresa de Annalise: - Ela no anda fazendo isso, no!
       Hal lanou um olhar solidrio a Annalise e amenizou:
       -  S estava brincando...
       
       David franziu o cenho ao completar a lista de materiais e equipamentos de que precisaria para realizar o trabalho de reforma para Honor. Ficaria caro, muito 
caro. Talvez, quando Honor visse...
       Honor...
       Imaginou quanto tempo ainda demoraria a chegar. A casa parecia vazia sem ela. Pensara em Honor o dia inteiro... sonhando... Provavelmente, por ela ser a primeira 
mulher com quem tinha contato estreito em muito tempo. Honor era muito atraente e ele, humano. Estava confuso, pois Honor definiria o homem, que ele seria daquele 
momento em diante.
 tarde, nuvens pesadas, troves e relmpagos anunciaram a chegada da chuva. Ao ouvir o som de um carro se aproximando da casa, ficou tenso.
       Fora, abriram e fecharam a porta do carro e, ento, Honor surgiu na cozinha. Balanando a cabea para eliminar o excesso de gua, parecia sem flego.
       - Est chovendo forte! Fiquei ensopada s nesse trechinho...
       David sentiu ternura ao v-la to animada. Com gentileza, estendeu a mo e enxugou as gotas de chuva de seu rosto.
       - Voc est molhada. Devia ter usado uma capa - observou, ausente, e Honor percebeu que ele no pensava em sua roupa molhada. - Fiz uma lista do material 
e equipamentos de que vamos precisar. Vai ficar um pouco caro - alertou, o tom rouco, perturbado.
       - Sim, eu sei - respondeu Honor, igualmente perturbada.
       David tinha os olhos azuis mais lindos... Sabia que, por trs da conversa mundana, algo muito mais significativo, poderoso e potencialmente perigoso acontecia. 
Formava-se entre eles uma conexo intensa e profunda.
       Os homens flertavam com ela antes, insinuando com frases de duplo sentido que a desejavam, mas nenhum nunca a afetara tanto quanto David. Apesar disso, no 
dava mostras do que pensava ou sentia. Sorrindo, afastou-se e foi  mesa para analisar cada item.
       - Precisamos providenciar algum tipo de transporte para voc - observou, ao final da leitura. - Voc sabe dirigir, claro.
       David sabia dirigir, sim, e at tinha carteira de motorista vigente, mas no no nome com o qual se apresentara. Alm disso, no tinha nenhum seguro.
       -  Eu...
       - Meu carro tem seguro para qualquer motorista - adiantou Honor. -  grande o bastante para a maioria dos materiais que precisar comprar. Pode usar quando 
precisar.
       Honor sabia que ele mentira sobre sua identidade? No, no havia como. Era apenas a conscincia pesada levando-o a crer que ela evitava olh-lo.
       -  Eu... - David calou-se quando um trovo soou ao longe.
       - Estou ficando com fome - comentou Honor, quando o rudo arrefeceu. - E preciso fazer algumas anotaes depois do jantar. Oh, falei com meu primo Freddy 
na volta e ele me disse que o caseiro da fazenda poder nos fornecer os tijolos necessrios. At falei com esse caseiro. Um bom homem, australiano, e faz pouco tempo 
que trabalha aqui.
       David no percebeu que prendia a respirao, ansioso. Bem, se o caseiro era australiano e novo na regio, dificilmente o reconheceria.
       Enquanto falava, Honor sem querer derrubou o livro sobre ervas que estivera lendo. David inclinou-se para apanh-lo e leu a descrio em latim de uma planta, 
traduzindo-a automaticamente.
       - Voc sabe latim? - indagou Honor, surpresa.
       - Um pouco. Ns... eu... fazia parte do currculo escolar - gaguejou David, incomodado.
       Honor franziu o cenho. Um trabalhador itinerante com conhecimento de latim no era comum. Para ter tido latim no currculo, David devia ter frequentado uma 
escola particular.
       - A maioria das pessoas acha que  uma lngua morta e associada ao Direito, mas...
       - Por que pensa assim? - interrompeu David, abruptamente.   To   abruptamente   que   Honor franziu o cenho. Cnscio de que exagerara na reao, explicou: 
- Sempre pensei no latim como o idioma da igreja.  a lngua franca.
       - Sim, acho que tem razo - concordou Honor, afvel.                     
       Por que David reagira daquela forma a uma breve aluso  rea do Direito? Bem, ele confessara ter roubado. Nesse caso, sem dvida, tinha um bom motivo para 
temer o Direito, as leis.
       - J passa das onze. Vou dormir. Posso deixar a loua para voc? - indagou Honor, quando voltou para a cozinha.
       Ele detalhara planilhas de todos os servios necessrios, para Honor ordenar por prioridade.
       -  Sim, claro. Vou dar uns telefonemas pela manh para descobrir onde posso encontrar o material necessrio pelo melhor preo. Quanto antes arrumar o telhado, 
melhor.
       Sorrindo, Honor passou por ele e abriu a porta da cozinha. David abandonara o trabalho vrias vezes para espi-la concentrada nas anotaes. Estava to absorta 
que nem percebera.
       Mesmo sob a iluminao deficiente da cozinha, a pele de Honor apresentava frescor e textura juvenis, embora a expresso fosse de maturidade e ternura. Era 
uma das pessoas mais naturais e descontradas que ele j conhecera. No tinha nada de ardiloso ou artificial, o que, de algum modo, a assemelhava a padre Incio. 
Talvez porque, como o padre, ela demonstrasse a capacidade de ver alm da face exterior, direto na alma. Sim, Honor conseguia enxergar atravs da concha, no julgava 
somente com base no que via.
       
       - Voc est inquieto hoje - comentou Jenny, vendo o marido andar de um lado para o outro na saleta. - J passa das onze, vou dormir. Voc vem?
       -  V na frente. Subo j - disse Jon. Cenho franzido, admitiu: - Estou mesmo apreensivo e no sei por qu.
       - Deve ser porque os meninos ainda no voltaram - sugeriu Jenny, calma.
       -  Foi bom Guy ter arranjado trabalho para eles nas terras de lorde Astlegh nas frias.
       -  Sim, foi - concordou Jenny, sorrindo amorosa. Abriu a porta e subiu a escada.
       Sozinho, Jon deteve-se  janela. Talvez se sentisse tenso por causa da tempestade... era como se esperasse algo. O qu? Por qu?
       De repente, lembrou-se da conversa com Olvia naquele dia, sobre Ben. Ele comentara que estava preocupado com a sade do velho, completando:
       - Ele sente muito a falta de seu pai.
       -  Ele pode at sentir, mas eu, com certeza, no sinto - afirmou a sobrinha, rancorosa. - Nunca mais quero v-lo e se tiver... - Sem completar, encarou-o: 
- Mas voc deve se sentir da mesma forma... aps o que ele fez.
       - Sim... a princpio - concordara ele. - Com certeza, no posso justificar seus atos, mas o tempo passa e cura todos os males.
       -  Os meus, no - rebateu Olvia. - Nunca vou perdo-lo pelo que fez.
       Perturbado com a veemncia da sobrinha, Jon no alimentou a discusso. Olvia no era mais criana. Era uma mulher. Adulta... esposa... me... e filha.
       Fora, as trovoadas se sucediam. Seria uma noite muito chuvosa.
       David subiu a escada e encontrou as luzes do corredor acesas. Seria Honor espantando seus demnios? Quando abriu a porta do quarto, uma trovoada ribombou 
no cu fazendo tremer a casa.
       No quarto, Honor ouviu o assoalho ranger quando David passou no corredor. Mantinha os dois abajures ao lado da cama acesos, espantando a escurido. As pessoas 
achavam difcil entender seu medo do escuro e at suas filhas a provocavam por isso, mas nunca conseguira livrar-se da fobia. Naquela noite, entretanto, tinha algo 
muito mais agradvel em que pensar, algo para embalar seus sonhos... David era um homem to atraente.
       Sorrindo para si mesma, fechou os olhos e revisou, do ponto de vista feminino, por que considerava David to sexy. Nem se abalou com a trovoada anunciando 
a chegada da tempestade. Nunca se perturbara com os troves, nem quando o estrondo abalava a estrutura da casa. Quando as luzes piscaram, porm, ficou tensa. Sentou-se 
na cama, a boca seca. As luzes piscaram novamente e se apagaram.
       No, por favor, isso no, orou, mas era tarde demais. Aterrorizada, permaneceu imvel enquanto o breu se adensava. No pde evitar um grito abafado, de medo.
       Sem saber por qu, David acordou. Seu sexto sentido alertava que havia algo errado. Totalmente desperto na cama, olhou ao redor e percebeu o problema. Mesmo 
com a porta do quarto fechada, sabia se as luzes do corredor estavam acesas ou no. Naquele momento, s havia escurido. Isso significava... Tateando, encontrou 
o interruptor do abajur no criado-mudo. Nada. Estavam sem energia eltrica.
       Sem parar para analisar o que fazia, ou por qu, afastou a coberta e procurou o robe atoalhado que Honor lhe emprestara comentando que fora um presente das 
filhas, "caso recebessem visitas masculinas".
       - Brinquei na ocasio dizendo que a visita masculina que Abigail tinha em mente era o namorado dela - contara ela. - Mas eles terminaram antes que o relacionamento 
chegasse a tanto. No ouso dizer, mas devo admitir que estou ansiosa para ser av... mas no quero que nenhuma delas se apresse sem ter certeza do que est fazendo. 
Voc tem netos?
       Vendo-o constrangido, Honor o dispensara da resposta adiantando-se:
       - Desculpe-me. Estou xeretando. - E mudou de assunto.
       David abriu a porta do quarto e saiu ao corredor escuro. A casa silenciosa devia ser o paraso para alguns, ou muito assustadora, para outros. Tendo passado 
tantas noites a cu aberto, sem os refinamentos da civilizao, qualquer construo de quatro paredes e teto para proteger das intempries era bem-vinda. Mesmo assim, 
tinha que admitir que gostava de Foxdean. Ao vistoriar a casa com Honor, compadecera-se tanto de seu estado precrio quanto da m reputao injusta.
       No meio do corredor, ouviu um som que no era das tbuas do assoalho, nem das janelas mal encaixadas. O som se repetiu, um som abafado de terror. Honor!
       Sem perder tempo, foi at o quarto dela e abriu a porta.
       O quarto, bvio, estava escuro, mas, apesar das nuvens carregadas no cu, havia bastante claridade do luar. Acostumado ao breu dos aveludados cus tropicais, 
conseguiu discernir os mveis e o volume encolhido sobre a cama.
       - Honor? Est tudo bem. Sou eu - sussurrou, bem suave, enquanto se aproximava.
       Ela se voltou, mas ele no saberia dizer se registrara sua presena ou sua voz.
       - Honor? - Ele se sentou ao lado dela na cama. - Est tudo bem. Acabou a energia, s isso.
       - David? - murmurou ela, a voz insegura.
       -  Sim, sou eu.
       Honor o fitou nos olhos, e ele viu o quanto estava amedrontada.
       - Obrigada por vir. Estava aterrorizada demais para me mover.  idiota, eu sei...
       - No  idiota - garantiu ele. - Todo mundo tem medo de alguma coisa, com certeza.
       Honor tentou sorrir, mas estava difcil.
       - Do que voc tem medo? - quis saber, mais para se descontrair.
       Honor j se recuperava. David percebia, pelo olhar. Ao mesmo tempo, outros sentimentos se manifestavam,  medida que reparava no luar sombreando a pele dela, 
salientando a curva da boca tentadora, os cabelos junto ao pescoo. Honor tinha os ombros desnudos, levando  concluso de que estava completamente nua sob as cobertas.
       Ele sentiu o corpo reagir aos pensamentos sensuais.
       -  Neste momento, estou com medo de estar aqui com voc - respondeu, honesto. Por um segundo, pensou que o silncio de Honor significava que a ofendera e 
que ela o rejeitava.
       Ento, viu o brilho das lgrimas nos olhos dela e lhe tomou a mo, protetor. Ela comeou a contar:
       - Todos os anos, ns, meus pais e meus irmos, costumvamos ir  Esccia visitar meus avs. Eles tinham uma casa enorme. No andar superior, havia um longo 
corredor, com os retratos da famlia e trofeus de caa. Costumvamos brincar ali quando chovia. Num dos extremos, havia uma grande arca. Meus irmos costumavam me 
provocar dizendo que era um caixo. - Sorriu, tremula. - Clara que no era, mas, por algum motivo, acreditei. Os dois eram mais velhos do que eu, acho que se ressentiam 
por ter que brincar com uma menina. Como estudavam num internato, no tnhamos muito contato, exceto nos feriados. Parece muito arcaico hoje, mas, na poca... Bem, 
nesse feriado em particular... eu era bem novinha, tinha oito anos, inventamos de brincar de pirata. Eu fui "capturada" e eles me enrolaram num lenol velho e ameaaram 
me fazer andar na prancha, porm, por algum motivo do qual j no me lembro, decidiram me prender na arca...
       Honor acelerava o ritmo da narrativa, sinal evidente de ansiedade. De repente, aumentou as pausas, como se fosse difcil encontrar as palavras.
       A voz tambm saa fraca, tanto que ele se achegou para poder ouvir.
       -  Foi s uma brincadeira de meninos... eles no tinham a inteno... Mas algo deve ter acontecido. Algum os chamou, ou, simplesmente, esqueceram-se de mim.
       Honor estremeceu, o rosto to branco quanto os lenis. David via o suor brotar em sua pele  medida que ela revivia o terror do aprisionamento. David entendia 
por qu.
       Sentia o corao disparado s de ouvi-la e imaginar seu desespero. Se pegasse os dois pilantrinhas, seus irmos, naquele instante...
       Sentia ansiedade, raiva e necessidade de abra-la, de dizer-lhe que estava a salvo, que no havia o que temer, e que ele, David Crighton, a protegeria pelo 
resto da vida.
       -  O que foi? - perguntou Honor, ofegante, quando ele lhe apertou a mo com mais fora.
       -  Nada - tranquilizou ele. - Seus irmos, gostaria de ter tirado o couro deles.
       Honor riu, parecendo ter superado o terror. Aliviado, David desejou apertar os lbios contra sua pele sedutora.
       -  Embora, como me, eu desaprove todo tipo de violncia contra crianas, no sabe como me faz bem ouvir isso - confessou ela. - Quando a empregada de meus 
avs me achou, todos j estavam to amuados que s recebi bronca por fazer brincadeiras bobas e por sujar meu vestido. Meus irmos tinham ido lanchar com um amigo 
e no disseram a ningum que tinham me deixado trancada na arca. Felizmente, a empregada que estava me procurando para me dar o jantar ouviu minhas batidas na arca 
e a abriu com uma chave extra.
       -  Seus irmos devem ter se sentido culpados pelo que lhe fizeram - considerou David.
       -  Na verdade, no - retrucou Honor. - No ramos esse tipo de famlia. Precisa lembrar-se de que meus irmos estudavam em internato. Essas escolas valorizavam 
o que consideravam ser qualidades masculinas desejveis. Acho que minha famlia perdeu a pacincia comigo quando desenvolvi esse medo ridculo do escuro. Experincias 
assim deviam nos fortalecer, no nos tornar mais frgeis.
       Ela suspirou, compreensiva.
       - No me deixavam ficar nem com uma luzinha  acesa no quarto e meu pai at insistia de forma obsessiva que apagassem todas as luzes  noite. Eu escondia velas 
e fsforos e acho que meu anjo da guarda me protegeu, evitando que incendiasse a casa acidentalmente.
       -  Uma vela... - Pensativo, David olhou ao redor e entendeu o verdadeiro propsito de tantos candelabros na casa.
       -  Levei o candelabro daqui l para baixo no ltimo corte de energia - explicou Honor. - Ento,  minha culpa estar essa situao agora. Desculpe-me por t-lo 
acordado. Realmente,  uma vergonha uma mulher adulta fazer tanto barulho a ponto de acordar o hspede. Deve estar me achando uma idiota.
       David fitou-a, saboreando o brilho de seu olhar, a pele cintilante, os lbios carnudos tentadores, o perfume natural...
       - O que eu acho ...  subjetivo. - Na verdade, quisera dizer: "No estou em posio de julgar ningum". Porm, para seu prprio espanto, replicou: - Acho 
que eu  que sou idiota por vir aqui sabendo o quanto estou vulnervel e com vontade de fazer amor com voc.
       Honor levou um segundo para digerir a informao.
       - Tem vontade?
       -  Sim, tenho - afirmou David. Ento, aproximou-se e a beijou.
       Honor gemeu, satisfeita. O medo se dissipou e em seu lugar, surgiu uma emoo igualmente perigosa.
       Havia quanto tempo no se sentia assim com um homem? Havia quanto tempo no desejava...
       Tempo demais, sentiu o corpo responder, impaciente. Entretanto, no era mais uma adolescente impetuosa, mas uma mulher madura. Sendo assim, com certeza, sabia 
o que queria, podia se satisfazer um pouco, podia ser franca e honesta com sua sensualidade. Afinal, o que quer que fizessem ficaria apenas entre ela e aquele homem. 
No devia explicaes a ningum. s filhas j eram adultas, por causa delas no se relacionara com nenhum homem aps a separao. Deviam consider-la uma retrgrada 
por no satisfazer a necessidade sexual, mas a realidade era...
       A realidade era que queria David com uma intensidade que tornava fcil   deitar-se ali e se deixar tragar pelas ondas voluptuosas do desejo mtuo.
       J sabia que ele seria um amante terno e carinhoso, que ao toc-la e possu-la no se mostraria voraz, nem egosta.
       Tinha conhecimento do que era o sexo pelo sexo, acompanhando as aventuras de Rourke, ainda que no tivesse vivenciado. Adotando uma viso distorcida dos homens, 
passara muito tempo esquivando-se do assdio daqueles que tentavam convenc-la de que tudo de que precisava era fazer sexo com eles.
       No era verdade. Se precisava de algo, era de amar e ser amada em troca, mas isso havia sido h muito tempo. Agora, detinha a sabedoria de que o amor assumia 
vrias formas, que se podia obter tanta alegria no amor emocional e no sexual com uma criana ou um amigo quanto na sensualidade com um amante.
       No, nem tentaria se convencer de que a tenso entre ela e David era "amor".
       No. Preferia respeitar e usufruir a pureza da intimidade e necessidade sexuais que os unia a denegrir essa imagem rotulando-a de pseudo-amor.
       - Humm... isso foi bom - murmurou, suave, quando ele concluiu o beijo.
       - Bom, quanto? - sussurrou ele, carinhoso. Sorrindo, Honor ponderou:
       - Melhor que bom...
       - Muito bom - concordou David, afastando os cabelos de seu pescoo. - Muito melhor que bom.
       Honor fechou os olhos e ele a beijou na pele sensvel do pescoo, enquanto ela deslizava a mo por dentro do robe atoalhado que ele usava.
       -  Voc est to bronzeado - comentou, sonhadora.
       Ele ergueu a cabea e riu.
       -  Est escuro... como sabe?
       -  Posso sentir - insistiu Honor. - Sua pele  quente e dourada.
       Ele provocou a rea macia atrs de sua orelha e sorriu, lembrando como ele e o resto da tripulao do iate nadaram nus no mar na primeira etapa da viagem 
de volta  Europa.
       - A sua pele parece cetim - comparou ele. - Como um creme suave. - Enquanto falava, afastou o edredom.
       Honor sentiu inflarem seu ego e orgulho femininos ante o olhar de David sobre seu corpo nu.
       Ela acreditava em moderao em qualquer assunto. Nunca fizera regime, nem se exercitara em excesso, mas gostava de alimentao sadia e ar puro. Gostava tambm 
da sensao de usar o corpo, de se espreguiar e sentir prazer. Em Londres, quando as filhas eram mais novas, frequentara aulas de ioga e ainda seguia os princpios 
aprendidos. Entretanto, desconfiava de que a boa forma do corpo e a pele maravilhosa deviam-se a bons genes.
       David a apreciava embasbacado. Ao contrrio de Tiggy, Honor tinha seios fartos e era robusta.
       Seu corpo se afunilava na cintura e se alargava, formando os quadris sedutores. As pernas esguias terminavam em tornozelos delicados.
       Tiggy tinha um corpo sem curvas e seus tornozelos eram grossos, do que ela vivia reclamando. Obcecada pela perfeio, encontrava mil defeitos e os enumerava.
       De certa forma, a insatisfao de Tiggy com o corpo espelhava sua insatisfao com o casamento. Toda vez que salientava ou criticava um ou outro aspecto fsico, 
era como se atacasse os defeitos daquela relao. Sua incapacidade de atingir o corpo perfeito teria como consequncia a incapacidade do marido de se excitar com 
ela.
       J Honor no tinha a menor dificuldade em estimul-lo. Mesmo antes de v-la nua, j reagira proporcionalmente.
       Houve poca em que se orgulhara da virilidade, ftil, mas o tempo e padre Incio, bem como a cincia de seus erros colocaram a questo no devido lugar. Sentia-se 
satisfeito, claro, e de certa forma, orgulhoso. Mostrar-se viril sempre seria fonte de orgulho para seu lado masculino, mas nada lhe dava mais prazer do que a espontaneidade 
de Honor em revelar seu desejo e extravasar a sexualidade com ele.
       Um pouco envergonhado, David inclinou e a beijou no ventre.
       - Ohhh... - Honor suspirou de prazer.
       -  bom? - provocou David.
       - No tenho certeza - respondeu ela, provocante. - Faa novamente.
       Rindo, David obedeceu. Pouco depois, ambos ofegavam.
       - Tire o robe - sussurrou Honor, puxando-lhe a gola.
       - Ajude-me, ento - sussurrou ele, fechando os olhos ao sentir as mos macias sobre o corpo nu.
       Na Jamaica, havia perto de casa uma cachoeira cujas guas despencavam de to alto que era impossvel repres-la. A sensao era a mesma ali, de estar diante 
de algo intenso, incontrolvel.
       Honor passou a provoc-lo com a lngua atrevida, pedindo passagem entre os lbios. David abraava-a de forma terna e segura. Ela quis retribuir o prazer que 
tomava conta de seu corpo. Estremeceu ao sentir as carcias nas costas, no ventre, nos seios. Frutos tentadores, intumescidos, estes ardiam, pesados e cheios de 
promessa, lascivos e suculentos.
       David massageou um mamilo com o polegar e, insatisfeito, abocanhou-o. Honor sentiu uma pontada de prazer e gritou. Ansiosa, indicou onde queria ser acariciada. 
Excitado ao ver que Honor queria que ele lhe provocasse sensaes, ele obedeceu, passando a explor-la com a mo. Ela comeou a sentir as primeiras contraes do 
orgasmo. No havia tempo para avis-lo do momento da penetrao.
       As feministas defendiam a "auto-satisfao", que viam como ritual de passagem  maturidade da mulher, porm, embora fosse fisicamente satisfatria, deixava 
algo a desejar, uma pontada de excitao, a sensao de alvio em integrao com o parceiro.
       Indefesa, Honor entregou-se s sensaes crescentes de seu corpo. No se envergonhava do prazer despertado pelo companheiro.
       - Desculpe-me - murmurou, sem flego, quando as ondas de satisfao amainaram. - Mas fazia tanto tempo e voc foi...
       - Eu fui - concordou David, tomando-lhe a palavra e distorcendo-a para seu propsito. - Mas, infelizmente, no sou mais. - Percebeu que ela compreendera e, 
mesmo antes que ela olhasse para seu corpo, admitiu: - Faz muito tempo para mim tambm e j tinha me esquecido, se  que um dia soube, como pode ser ertico e excitante 
tocar e saborear uma mulher to intimamente. O seu prazer foi demais para meu prprio autocontrole.
       Surpreso, viu Honor enrubescer, to intensamente que nem a penumbra disfarou.
       - Desculpe-me - pediu. - No quis deix-la envergonhada.
       -  No me deixou - assegurou ela. -  s que... Meu marido costumava reclamar, dizendo que eu exercia sobre ele o mesmo efeito que migalhas de torrada. Eu 
o irritava a tal ponto que ele s queria fazer o que tinha que ser feito e sair da cama o mais rpido possvel. Agora, me de duas filhas adultas e j fora da idade... 
Bem, saber que um homem atraente sente desejo por mim e no consegue se controlar... - Suspirou, satisfeita. - Voc me fez uma mulher muito feliz.
       -  Eu fiz? - indagou David, sem esconder o orgulho e satisfao ante o elogio. - Bem, no sei como vai se sentir a respeito, mas desconfio de que em pouco 
tempo...
       -  O que eu sinto a respeito... o que sinto por voc - Honor tomou uma deciso. - Venha aqui e deixe-me demonstrar o que acho e sinto.
       David no precisou de mais incentivo.
       
       CAPTULO SETE
       
       - Ento, o que vocs dois esto planejando fazer no fim de semana? - indagou Jon, durante o caf da manh tardio,
       Jack fzera questo de mostrar suas novas habilidades domsticas preparando o desjejum para todos. Quando trocava uma receita de caarola com tia Jenny, o 
primo Joss caoou dele.
       - S quero ver quando voc for para a universidade - advertiu, bem-humorado. - Agora  a minha vez e sei que no vai ser fcil me virar com a mesada de estudante. 
Alm disso, se soubesse o que eles comem... ugh! - Fez uma careta. - Ao menos, se aprender a cozinhar, saberei o que estou comendo.
       Jenny estava to orgulhosa de Jack. Sim, houvera aquele evento triste no passado, quando o pobre sobrinho se sentira confuso e zangado com o golpe que o pai 
dera na famlia, mas agora, felizmente, parecia ter superado o problema. Sabia o quanto Jon estava satisfeito com a deciso de Jack de estudar Direito, seguindo 
a tradio dos Crighton.
       Quanto a seu caula, Joss, era o tipo de pessoa que todos amavam naturalmente. Ruth comentara certa vez que se tratava de uma daquelas pessoas raras capazes 
de estabelecer uma ponte entre os homens e o cu. Na hora, Jenny protestara, dizendo que ela exagerava as qualidades do sobrinho neto favorito, mas, no fundo, secreta 
e orgulhosamente, concordava com ela. Joss era especial, muito especial, mas isso no diminua seu amor pelos outros filhos, nem por Jack.
       "A cada um o que precisa" dizia o ditado, e era assim que Jenny se sentia com relao aos filhos. As vezes, um deles precisava de mais amor do que os outros, 
e Jack, bem como Olvia, tinham ateno na medida de suas necessidades.
       Olvia nasceu quando Jenny acabara de perder seu primeiro filho no parto. A me dela, Tnia, mostrara-se assustada com a maternidade, chegando a demonstrar 
repulsa, s vezes. Modelo, Tnia queria seu corpo esbelto de volta e se recusou a amamentar o beb, delegando a Jenny essa tarefa. Embora ansiasse por ter seu prprio 
filho, Jenny ainda no conseguira engravidar novamente. Tambm compadecera-se da pequena Olvia, tratada com indiferena pelos pais e com desprezo pelo av, por 
ser menina.
       Jenny mal coubera em si de felicidade quando a sobrinha se casou com Caspar e iniciou sua prpria famlia. Aps o nascimento da segunda filha, Olvia passou 
a procur-la menos, alegando estar muito ocupada com o trabalho. Jenny concluiu que a presena de um companheiro diminua a necessidade de se confidenciarem. Era 
normal que Olvia passasse a confiar mais no marido para dividir seus problemas.
       Jenny sentia que a idade provocara sua mudana de status dentro da famlia. No era mais a me atarefada com a casa e a famlia numerosa. Devia ser a sndrome 
do ninho vazio. O lao com a nora, Maddy, se intensificou, mas ainda sentia falta de Olvia, que, durante muitos anos, foi sua "filha mais velha".
       Algumas mulheres, ao alcanar a meia-idade, podiam se achar inteis ao se ver despojadas do papel de me. Mas Jenny tinha certeza de que no se abateria quando 
Joss, a exemplo de Jack, fosse para a universidade. Em vez disso, tentaria convencer Jon a se aposentar parcialmente. Havia tantas atividades que poderiam realizar 
juntos, enquanto se sentissem bem-dispostos.
       - Podemos ficar com seu carro esta noite, me? - perguntou Joss.
       - Talvez - respondeu, cautelosa.
       Embora os dois rapazes tivessem carteira de motorista e dirigissem bem, Jenny e Jon decidiram no lhes dar um carro ainda.
       -  No importa o quanto sejam responsveis, no fundo so jovens movidos a hormnios masculinos. J tive de lidar com muita papelada resultante de tragdias 
envolvendo jovens e carros possantes - explicara Jon.
       Jenny concordou totalmente, apesar das reclamaes dos rapazes. Combinaram que eles poderiam usar o carro dela, sempre que quisessem, com permisso, e s.
       - Eles vo dirigir com cuidado, sendo o carro da me - concluiu Jon. - Alm disso, vo valorizar seus prprios carros muito mais se tiverem que trabalhar 
para consegui-los.
       Jenny sorriu. Jon sabia do que estava falando, afinal. Quando ele e o irmo eram adolescentes, Ben dera um carro esportivo a David dizendo ao outro que ele 
no precisava de carro porque ainda morava em casa.
       Jenny e Jon protestaram quando Ben insistira em comprar um carro veloz para o neto Max. Mas Ben, sendo Ben, adorara contrari-los. Naquela ocasio, Max abusara 
da generosidade do av.
       - Ele no est satisfazendo Max, est satisfazendo a si mesmo - concluiu Jon, nervoso com a atitude do pai, passando por cima de sua autoridade sobre o filho.
       Jenny no se manifestara, incapaz de refutar a verdade por trs do desabafo do marido. Ao dar de presente o carro, Ben comprava a lealdade de Max e, pior, 
seu filho, vergonhosa e traioeiramente, se deixava corromper pelo av.
       Mas no teriam esse problema com Jack, nem com Joss.
       Ben nunca fora chegado aos netos mais novos. Jenny desconfiava de que seu amor obsessivo, primeiro por David, depois por Max, o incapacitava de amar qualquer 
outra pessoa.
       Jack sentia que o av, de certa forma, o culpava pelo desaparecimento de David. Joss, com sua natureza alegre, encarava Ben com compaixo e Jenny achava que, 
de certa forma, seus papis eram opostos. Em termos de conhecimento da natureza humana, Joss era o adulto e Ben, a criana.
       - Para que precisa do carro? - perguntou Jon.
       - Ns vamos a uma festa - explicou Joss. 
       Jon ergueu o sobrolho, indeciso.
       - Vamos dirigir com cuidado - prometeu seu caula.
       Jon olhou para Jenny, que assentiu discretamente.
       -  Est bem, ento - concedeu Jon.
       Jenny se sentiu recompensada ante o olhar agradecido de Jack.
       -  Festa de quem? - indagou, curiosa, uma hora depois, ao caminharem pelo jardim. As rosas daquela parte abrigada haviam resistido aos ventos, porm, com 
a tempestade da noite anterior, foram destrudas.
       -  De Patti - contou Jack. - A famlia dela se mudou recentemente para Haslewich. Joss e eu nos encontramos com Mike Slater ontem  noite e ele nos convidou. 
Ele ia ensaiar com a banda na casa dela. Mike toca teclado.
       -  Mike Slater - repetiu Jenny. -  o filho da irm de Guy, no ?
       -   - confirmou Jack.
       Jenny no se mostraria cautelosa quanto a Patti ou seus pais nem que os comentrios sobre eles fossem verdadeiros. Afinal, no era nenhuma esnobe. Longe disso. 
Mas ele detectara um certo carter materialista tanto em Patti quanto no pai dela. No gostava da maneira pouco feminina como ela exibia sua sexualidade.
       A loirinha, Annalise, cujo namorado Patti estava tentando roubar, no seria preo para a disputa. No se os olhares que Pete Hunter lanava a Patti fossem 
uma indicao.  Jack sabia qual das duas preferiria. No se sentia atrado por maquiagem pesada, saias muito curtas e show de sensualidade.
       No que tivesse muito tempo para garotas atualmente. Estava determinado a estudar com afinco na universidade e obter boas notas. Era importante, no apenas 
para dar orgulho a Jon, mas tambm para refutar o olhar que o av lhe dedicava com frequncia.
       Ao contrrio de Max, podia nunca se tornar conselheiro da rainha e, com certeza, no tinha a capacidade intelectual e presena de Joss, no entanto, conforme 
tio Jon lhe assegurara, poderia se tornar um bom advogado.
       - Direito no  s o teatro das cortes - observara Jon, durante uma de suas conversas francas. - E muito mais que isso.
       Jack sentira-se reconfortado com as palavras gentis do tio logo aps o av dispens-lo como o filho de um homem indigno como David.
       Por pouco, Jack no atirara na cara do av o maravilhoso ser humano que ele tanto adorara, o mentiroso, o ladro. Felizmente, conseguira se controlar. As 
lembranas que tinha do pai eram vagas e nebulosas. David parecia nunca ter tempo para ele, nunca fora sequer rspido. Sempre que tentara conversar com Olvia, sua 
irm, sobre o pai, ela se esquivara.
       No era segredo na famlia o quanto Ben desejava a volta de David, mas Jack no sabia ao certo como reagiria se reencontrasse o pai.
       Quando precisava de conselho e apoio... e amor, procurava Jon.
       - Vamos l. Quem vai saber? Seu pai no est. No quer que eu a leve para cima, tire suas roupas e...
       - No. - Annalise tentou parecer firme, mas a voz saiu insegura.
       Tremia, mas no de desejo. Era medo e nervosismo, ante a impacincia e o aborrecimento de Pete. Annalise sabia que ele andava dando muita ateno a Patti, 
que, alis, passara a exibir uma atitude triunfante.
       - Voc no existe, sabia? - zombou o namorado. - Por que tem tanto escrpulo com isso? Ningum quer virgens...  no  legal. Devia me agradecer. Eu estaria 
lhe fazendo um favor.
       Pete tinha razo, Annalise sabia. O pessoal que acompanhava a banda caoava abertamente das garotas que no faziam sexo.
       - Imagine no saber como  quando um rapaz a excita - comentara Patti, dias antes, maliciosa.
       - Elas simplesmente no sabem o que esto perdendo, sabem? Pete j transou com voc? - perguntou, casual.
       Annalise sentiu o corao falhar ao forjar um ar despreocupado e dar uma resposta dbia.
       - Eu transei com todos os meus namorados - gabara-se Patti. - Com certeza,  uma maneira de eles provarem que amam. O que mais vocs fizeram? - especulou, 
porm, felizmente, nem aguardou rplica. - Meu ltimo namorado me deu nota vinte, numa escala de dez, para o meu desempenho! - Devia ter visto. Era mesmo grande. 
Aposto que o de Pete tambm ...
       Annalise enrubesceu, enquanto Patti prosseguia:
       - J fez com mais de um menino... ou menina? - indagou Patti. - Um dia, fui a uma festa legal. Todo mundo fazia com todo mundo. E tinham uma balinha. Voc 
colocava na bebida e sua mente voava...
       -  Drogas? - perguntou Annalise, nervosa. -  Mas...
       - Isso mesmo - confirmou Patti, e mudou de assunto: - J viu seus pais fazendo sexo?
       Muda, Annalise negou com um meneio de cabea.
       - Eu j vi. Encontrei um vdeo. Foi impressionante. No admira meu pai viver dizendo que minha me tem o traseiro grande. Se bem que ele no pode falar muito... 
- Fez uma careta. - Eu no faria com um homem velho e gordo, e voc? De jeito nenhum. Gosto de rapazes fortes, corpos torneados... como Pete.
       Annalise e Pete seguiam para o shopping center agora, o local de encontro favorito dos jovens aos sbados. O namorado gostava de ir  loja de discos ouvir 
os ltimos lanamentos...
       - Chegamos - alegrou-se Pete, em tom de raiva e desprezo. - Ento, v se no aborrece.
       -  A... aonde voc vai? - indagou Annalise, insegura, quando ele soltou sua mo e lhe deu as costas.
       - Por que quer saber? - retrucou Pete, spero. - No quer ir para a cama comigo, por que devo ficar aqui com voc?
       Annalise reprimiu o soluo de desespero. J estava acontecendo, como todos haviam previsto. Pete ia deix-la... larg-la. Oh, no aguentaria a humilhao. 
Ele ia contar a todo mundo que ela era virgem e seria motivo de piada... principalmente para Patti.
       Mas nem por isso cederia. De forma alguma, permitiria que a rotulassem, como sua me, pois, no importava o que Pete dissesse, no mundo real, no mundo dos 
adultos, as coisas eram diferentes. S tinha que ouvir o pai agora e, alm disso... Tinha medo. Apesar de tudo o que ouvira, toda a conversa de Patti, ainda no 
queria...
       Baixou o rosto para que o namorado no visse suas lgrimas, imaginando como ele reagiria se lhe dissesse que estava com medo de... fazer aquilo... com medo 
da dor.
       Talvez houvesse algo de errado com ela. Talvez no fosse como as outras garotas... talvez fosse... horror dos horrores... anormal de alguma forma.
       Vendo Pete entrosado com o grupo, deixou cair os ombros e afastou-se em silncio.
       Naquela noite, haveria uma festa e estava com medo, por um nico motivo: no tinha roupa para vestir... pelo menos, nada parecido com o que Patti iria usar. 
Alm disso... Sentiu a boca seca, imaginando o que poderia acontecer naquela noite.
       Haveria bebida, em excesso, de acordo com Patti, e provavelmente, drogas. Mas a banda iria tocar e isso lhe daria desculpa para ficar nas laterais. Como garota 
de Pete, que era o chefe, o lder, usufrua certo respeito, considerada intocvel pelos demais. Felizmente.
       Mas, ainda era a garota de Pete? O que acontecera com o rapaz que a beijara terno e amoroso na festa do ano anterior? Pete mudara muito aps se envolver com 
a banda. Queria um namoro diferente agora. Ele estava diferente.
       Joss e Jack voltavam da casa de Ruth Crighton, que ficava perto da igreja.
       - Ei, no  a garota que estava no ensaio da banda no outro dia? - comentou Joss, cutucando o primo.
       Jack estreitou o olhar contra o sol de outono. De fato, parecia Annalise, solitria e pensativa.
       - Acho que sim - opinou Jack, imaginando o que teria acontecido, por que ela no estava com o namorado.
       -  Ela  bonita - avaliou Joss, reflexivo. - Mais bonita que a outra.
       - Bonita? - indagou Jack.
       -  Sim - confirmou o primo, explicando: - Outras pessoas podem no ver ainda, mas  porque ela mesma no se v assim.
       - Ei, no est pensando em tentar a sorte com a garota do chefe, est? - advertiu Jack.
       - No. Ela no  o meu tipo - assegurou Joss, e sorriu para o primo. - Mas aposto que  o seu!
       Um transeunte censurou a algazarra dos dois.
       A caminho de casa, Annalise passou no restaurante de Frances Salter e o marido. Sempre trabalhava ali nas frias e esperava que eles tivessem uma vaga.
       - Bem, estamos precisando de lavador de pratos - informou a dona do estabelecimento, ignorando a gesticulao negativa do filho atrs de Annalise. -Quando 
quer comear? Esta noite?
        Annalise enrubesceu e meneou a cabea.
       - No... eu... tenho uma festa hoje. Mas posso estar aqui para a hora do almoo - ofereceu-se, ansiosa.
       - Que histria  essa de contratar a moa para lavar pratos? - questionou o filho de Frances, aborrecido, depois que Annalise foi embora. - Acabamos de comprar 
uma lavadora automtica supermoderna!
       - Eu sei - retrucou a me. - Mas  que fiquei com pena da menina. Ela no tem uma vida fcil. O pai... - Calando-se, sorriu para o filho mais velho. Sua vida 
familiar era to feliz que, reconhecendo a sorte, procurava ajudar os outros sempre que possvel.
       Era censurada na famlia por no ser capaz de dizer no. Todo pedinte na regio sabia que sempre podia conseguir um prato de comida quente no restaurante.
       -  S estou pagando o que devo - justificava Frances, enigmtica.
       
       - Caspar, que bom v-lo! - exclamou Maddy, ao abrir a porta da frente. - Entre.
       -  No cheguei em m hora, cheguei? - perguntou Caspar, entrando com as duas filhas. Maddy chamou os filhos para cumprimentar as visitas.
       - Em absoluto! - assegurou. - Max no est, infelizmente. Foi jogar golfe. - Torceu o nariz. -  E desconfio de que haver atraso no dcimo nono buraco! Como 
est Olvia? Faz sculos que no a vejo... - protestou, exagerada, seguindo para sua espaosa cozinha.
       Caspar deixou as filhas irem ver os brinquedos das crianas da casa.
       - Ela anda... muito ocupada - explicou, sem graa.
       Maddy colocou gua para ferver e se voltou, sentindo que havia algo errado, pelo tom sombrio da voz dele.
       -  Ela est trabalhando demais - concordou.
       - Jon e Jenny comentaram que ela anda se desdobrando, pois, para completar, Katie tirou alguns dias de licena.
       - Tirou? - Caspar parecia indiferente. - Olvia e eu nos encontramos to pouco que a agenda dos outros seria nosso ltimo assunto. - Inconformado, desabafou: 
- Raios, no temos tempo nem para falar de nossas prprias vidas... Desculpe-me - murmurou. - Voc no tem nada a ver com isso, mas  que...
       -  Est tudo bem - tranquilizou Maddy. - Entendo o seu nervosismo. Eu tambm ando preocupada com Liwy. Mas se est planejando umas frias para vocs dois...
       - No para ns dois - interrompeu Caspar, sombrio. - Olvia se recusa a conversar sobre o assunto. Diz que est muito atarefada... Meu meio-irmo vai se casar. 
Ele nos convidou para a cerimonia e acho que devemos ir... como uma famlia. Olvia parece pensar diferente. Claro, sei que minha famlia no  como os Crighton, 
no se pode dizer que somos unidos, mas j  a segunda vez que minha mulher inventa uma desculpa para no visit-los e eu estou ficando sem desculpas para dar. Comeo 
a pensar que ela no quer passar muito tempo comigo e com nossas filhas.
       Ele fez uma pausa e retomou:
       -  No entendo, Maddy. Ela queria tanto ser me e, agora, quase no tem tempo para Amlia e Alex e, com certeza, no tem tempo para mim.
       -  Caspar, eu sei o quanto ela os ama - garantiu Maddy.
       - Eu tambm... sabia! Pelo menos, achava que sabia, mas parece que estava errado. No  s falta de sexo - acrescentou, franco. - Posso ser homem, mas isso 
no significa que no percebo o prejuzo que a sobrecarga com a famlia e a carreira plena causa  libido da mulher.
       -   o mesmo efeito na libido do homem, na mesma situao - observou Maddy, gentil, defendendo as mulheres. - Mas no ter vontade de fazer sexo no significa 
que no h mais amor.
       - No, mas essa recusa em comparecermos ao casamento de meu irmo... Desculpe-me - pediu, mais uma vez. Massageou a nuca, cansado, tentando aliviar a tenso 
que sentia desde o ultimato que dera a Olvia.
       Nunca imaginara que a situao chegaria a esse ponto. No era apenas esse assunto que Olvia encerrara. Simplesmente, ela j no falava com ele sobre nada! 
Apostava como seria capaz de dormir no escritrio, se pudesse. Com certeza, ele mesmo ficara tentado a pernoitar em seu gabinete na universidade nos ltimos dias 
e, provavelmente, teria ficado, no fossem as filhas.
       -  Olvia est mudada, Maddy. Ela no... ela no  mais a mesma pessoa.
       Talvez no, mas Caspar mudara, tambm, desconfiava Maddy. Por exemplo, ele agora a chamava de Olvia, em vez de Liwy. Era como se estivesse deliberadamente 
se distanciando da esposa.
       Maddy sentiu um peso no corao. Gostava de Caspar e de Olvia e no queria tomar partido.
       - Talvez deva tentar conversar com ela novamente, Caspar.
       - Conversar! - Ele franziu o cenho. - Olvia no tem tempo e, quando tem, fica repisando os mesmos problemas... as velhas mgoas. Sugeri que tirssemos um 
tempo para ns, mas Olvia diz que a estou pressionando e que a fao se sentir culpada. Sim, acho que estou exagerando, mas, s vezes, sinto que ela no se importa 
mais. Sei que minha famlia serviria de exemplo para um livro de disfuno familiar, mas, ainda so a minha famlia, e agora, com as meninas, sinto que devo reatar 
as relaes... por elas.
       - Diga isso a Liwy - sugeriu Maddy, gentil. - As vezes, esperamos que nossos companheiros entendam tudo que pensamos e sentimos sem que falemos nada, mas, 
infelizmente, isso  exigir demais.
       - Mas no sou s eu. Olvia parece no ter tempo para as garotas tambm - continuou Caspar. - Seus filhos tm sorte de ter uma me como voc, Maddy. Voc 
est sempre aqui para eles.
       Maddy sorriu.
       - Eu sei o quanto Liwy ama as meninas, Caspar - afirmou. - Sei o quanto ela os ama.
       -  Vi um carro dobrando a curva na estrada quando cheguei. No era o Caspar? - comentou Max com Maddy, meia hora depois, na cozinha.
       -  Era. Ele est preocupado com Liwy. Acha que ela est trabalhando demais e, alm disso, se recusa a ir para os Estados Unidos para o casamento do meio-irmo 
dele.
       - No me envolveria muito se fosse voc, Maddy. Casais deviam resolver suas diferenas. Outra coisa, se algum homem vai chorar no ombro da minha esposa, serei 
eu. 
       Maddy parou de mexer o molho.
       - No est com cime, est? No de Caspar?
       -  No de Caspar - imitou Max. - No. De quem mais estaria com cime?
       - De ningum - protestou Maddy.
       Max observou-a e imaginou o que Maddy diria se soubesse que sentia cime e insegurana, s vezes. No se esquecia de que quase a perdera, nem do distanciamento 
emocional que ela impusera mesmo aps a reconciliao. Afinal, deliberadamente a engravidara do terceiro filho, sabendo que ela levaria em considerao aquela nova 
vida em seu ventre, mais as duas crianas que j tinham, desistindo de abandon-lo. Ele quisera ganhar tempo e conseguira.
       A terceira gravidez os aproximou e Max prometeu se empenhar para que a boa relao perdurasse.
       Mas isso no alterava o fato de que Maddy planejara deix-lo. Sabia quantos homens invejavam seu casamento e sua esposa, e no os culpava. O antigo Max, com 
certeza, seria um desses homens. Seduziria Maddy apenas pela diverso, assim como outros. Maddy tinha um corao terno, o que era um perigo. No estava sugerindo 
que Caspar seria capaz dessa indignidade, porm, encontrando-se to magoado e vulnervel, diante de Maddy to solidria...
       -  No, no estou com cime - afirmou, sorrindo. - Mas ponho para correr qualquer homem que tente tir-la de mim.
       Maddy reprovou, meneando a cabea, porm, no ntimo, estava emocionada. Era bom saber que o marido se sentia possessivo, mas no tinha o hbito de confessar 
tais sentimentos. Era uma mulher um tanto inflexvel e muito mais independente do que a garota que se casara com Max. J nem se sentia to compelida a demonstrar 
indiferena.
       - Gosto quando fica assim possessivo. Sinto-me... 
       Max atravessou a cozinha e abraou-a.
       - Voc me deixa excitado - declarou ele, rouco. - Esquea o jantar. Quero voc, agora...
       -  Max, as crianas...
       -  D o jantar a elas e deixe-as assistindo  televiso - sugeriu o marido. - Ento, ns dois subimos e...
       - Max... - alertou Maddy.
       - Vou sair e comprar o seu prato favorito para viagem - prometeu. -  sbado  noite. Casais fazem sexo aos sbados.
       -  No, no fazem - protestou Maddy. - A maioria faz no domingo pela manh.
       Max interrompeu os beijos no pescoo dela.
       -  Bem, podemos fazer, tambm. Eu no me importo - declarou, amvel.
       Na cama, David inclinou-se sobre o rosto sereno de Honor. Mesmo dormindo, ela sorria. Com que estaria sonhando...? Com ele? Franziu o cenho ante a prpria 
frivolidade, cogitando a seguir se ela ainda sorriria se soubesse a verdade sobre ele. Inevitavelmente, passaram o resto da noite juntos aps voltar do trreo com 
um monte de velas. Honor protestara contra o desperdcio ao v-lo acender vrias em volta da cama.
       -  Ser como fazer amor numa ilha, cercados pelo mar tranquilo - sugerira ele, romntico.
       E comprovaram que havia algo mgico, quase mstico, em fazer amor  luz das chamas tremeluzentes.
       Tomaram o caf da manh na cama e riram como crianas ao discutir sobre a responsabilidade de recolher as migalhas.
       Ele lambera o mel sobre a pele dela e...
       David fechou os olhos e lembrou-se do toque, do gosto de Honor. Na realidade, mal se conheciam, mas havia honestidade e pureza naquela unio, que os elevava 
alm do ato barato e carnal.
       Era improdutivo e injusto comparar o que partilharam com o que tivera com Tiggy, mas no deixava de pensar que a verdadeira intimidade, a verdadeira partilha, 
o verdadeiro amor, conhecera nos braos de Honor... no corpo de Honor.
       - No usamos preservativos - comentou, depois, quando ela o acariciou amorosa e sussurrou seu desejo. - Nem...
       - No. - Ela riu, despreocupada. - Na minha idade, duvido de que sejam necessrios. Tenho duas filhas adultas. E, quanto ao sexo seguro... j que nenhum de 
ns tem parceiro h muito tempo...
       - Nunca tive parceira - corrigiu David, honesto. - Esposa, sim, mas parceira... no.
       - Costumava imaginar o que tinha feito de errado, por que o destino no me mandava um homem que realmente me amasse - desabafou Honor, parecendo aliviada. 
- Mas isso foi antes de aprender o quanto  importante amar a si mesma.
       - E desde ento? - sussurrou David, mordiscando-lhe gentilmente o lbulo da orelha.
       -  Desde ento, no precisei do amor de mais ningum - respondeu ela, sincera.
       Enquanto j revelara quase tudo sobre sua vida, seu passado, ele no conseguira depositar nela a mesma confiana.
       No havia por qu. Aquela unio seria breve, transitria e, assim que soubesse a verdade, Honor o rejeitaria. Quem poderia culp-la? Agora, contemplando-a 
plcida no sono, percebia que teria de contar a ela, mesmo sem entender a compulso que o levava a agir assim. Da mesma forma, no compreendia por que sentira necessidade 
de voltar para casa.
       O que iria fazer, agora que estava ali? Passaria o resto da vida se escondendo no matagal de Queensmead?
       - Honor...
       Devagar, ela abriu os olhos.
       - Preciso lhe contar sobre mim - comeou David.
       
       CAPTULO OITO
        - Caspar. Onde esteve?
       Amuado, Caspar mandou as filhas ao quarto trocar o uniforme por roupas de casa antes de encarar a mulher.
       - Voc se importa? - questionou. - So cinco horas da tarde e hoje  sbado, Olvi. Voc saiu antes das oito da manh e...
       -  Estava de volta  uma e meia - defendeu-se  ela.  - Mas  voc  no  estava  aqui. Aonde foi?
       - Levei Amlia  aula de dana. Ela vai todo sbado, lembra-se?
       -  Isso s dura uma hora - observou Olvia.
       -  Fui conversar com Maddy - revelou ele, por fim.
       - Conversar com Maddy... - Olvia o fitou confusa. Ento, adivinhou. - Oh, entendo. Foi chorar no ombro dela, reclamar de mim.
       -  Ela est preocupada com voc, Olvia. Ns todos estamos - afirmou Caspar, sombrio. - Todo mundo v o que est fazendo a si mesma e a esta famlia.
       - Tem certeza disso, Caspar, ou s enxergam aquilo que voc descreveu? O que est tentando fazer comigo?
       - No estou tentando fazer nada. Preocupo-me com o que est fazendo consigo mesma. Essa sua obsesso pelo trabalho...
       - Obsesso? - Olvia se enrijeceu. - O que est tentando dizer? Que estou louca... perturbada?
       -  No seja ridcula - protestou Caspar.
       - Mas obsesso no  isso? - pressionou Olvia. - Uma forma de loucura. Eu trabalho porque preciso, Caspar.
       -  Precisa por qu? - questionou o marido, spero.
       - Bem, um bom motivo  que precisamos do dinheiro --observou Olvia. - Voc sabe disso. No poderamos ter comprado esta casa com o que voc ganha dando palestras. 
Temos dois carros. Vivemos bem e foi voc quem insistiu em proporcionar s meninas muitas atividades extracurriculares. Todas essas atividades precisam ser pagas.
       - Ento,  minha culpa o fato de voc ter que trabalhar tanto.  isso?  minha culpa, porque no ganho bem... porque no ganho o bastante...
       - Eu no disse isso - cortou Olvia, irritada. - Oua, Caspar, foi voc que comeou essa discusso. Est se comportando como uma criana mimada porque no 
quero ir ao casamento do seu irmo. No entendo toda essa vontade de ir. Voc mesmo admite que no so chegados. Segundo voc, nem se lembra de todos os nomes e...
       - Olvia, isso foi h anos. Sim, eu sentia mgoa de minha infncia quando cheguei aqui, mas, desde ento, ganhamos nossas filhas e agora... - Caspar fez um 
gesto vo, desanimado. - Isto no  um ensaio.  vida real. Est na hora de eu me reconciliar com minha famlia, com meu pai...
       -  Seu pai! - Olvia torceu o lbio. - O que h com vocs, homens, que os faz se unir... se perdoar por tudo? Ben receberia meu pai de braos abertos se tivesse 
a chance, e mesmo Jon... Pensei que Jon se sentisse como eu... que ele nunca perdoaria o irmo, mas, s vezes como se...
       -  Como se o qu? Como se sentisse a falta dele? Olvia, eles so gmeos.
       - Sim, e ele  meu pai - rebateu ela, nervosa. - Mas isso no me impede de odi-lo.
       Caspar franziu o cenho.
       - Oua, por que estamos falando sobre seu pai? Estamos discutindo sobre a minha famlia. Sabe, Olvia, s vezes, acho que tem obsesso por David. Sim, ele 
fez algo muito errado e entendo como se sente mal a respeito, mas ficar repisando o assunto como voc faz... sempre trazendo  tona... sempre exumando...
       - No estou fazendo nada disso. No  preciso exumar. Est l, Caspar, bem na minha frente todos os dias. Como acha que me sinto, sabendo que os outros membros 
da famlia, que tio Jon e Max e os outros, todos sabem o que o meu pai fez e cuidam de me vigiar s para garantir...
       -  Agora sei que est se debatendo por nada - declarou o marido. - O que est fazendo, Olvia? Se acha que revolver o drama da fraude de seu pai vai me demover 
da ideia de ir ao casamento, se est tentando o meu voto de empatia...
       - Voc no entende, no ? - irritou-se Olvia, plida, os olhos obscurecidos. - Voc no entende nada. No vou ao casamento do seu irmo e pode se lamentar 
o quanto quiser com Maddy,  porque no  vou mudar de ideia.  Eu odeio os homens! - gritou, nervosa. - Vocs so todos iguais... s pensam em si mesmos e no se importam 
com o quem destrem pelo caminho. Vov, meu pai, Max, voc...
       - No estou mais ouvindo - avisou Gaspar, irritado. - No sou responsvel pelo que seu pai fez, nem pelo fato de Max ser o favorito de seu av. Nada disso 
 culpa minha!
       Olvia retirou-se e bateu a porta. Ele rugiu de dio.
       
       Hesitante, Annalise olhou pela porta da cozinha da casa dos pais de Patti. O corredor lotava-se de adolescentes animados.
       -  Tem certeza de que seus pais no vo se importar? - perguntou a Patti, nervosa. - No conheo muita gente. Podem ser penetras...
       -  E da? Quanto mais gente, melhor - desdenhou Patti, chamando a ateno para Joss e Jack, que acabavam de chegar.
       -  Por que convidou esses dois? - sussurrou Annalise.
       - Porque so bonitos - respondeu Patti.   
        Annalise lembrou-se de t-los visto  antes, naquele mesmo dia, e, em especial, do modo como Jack a olhara. Com pena.
       - Patti, no acho que devamos ficar aqui - repetiu, ao ouvir uma risada aguda vindo de um dos quartos. A porta se abriu e uma garota bbada saiu com uma 
garrafa na mo. - Quem  ela?
       -  No sei - admitiu Patti. - Ela veio com um grupo de Chester.
       - De Chester! - exclamou Annalise. - Como eles souberam que haveria uma festa aqui?
       Patti deu de ombros.
       - A notcia se espalha. - Foi se pendurar num rapaz que acabava de chegar. - Toby, no vai me dar um beijo?
       Annalise desviou o olhar. Patti apertava o corpo contra o de Toby Horley, insinuante. Em torno deles formava-se uma rodinha cujos componentes os incentivavam 
com palavras obscenas.
       Ela chegara cedo para ajudar Patti com os preparativos e agora, vendo os convidados, imaginava por que Pete estaria atrasado. Os outros membros da banda j 
estavam ali. Podia, claro, perguntar por Pete, mas, por algum motivo, sentia-se relutante.
       - Humm... nada mal - elogiou Patti, quando Toby a liberou.
       -  Se gostou disso, espere at ver do que eu sou capaz de verdade.
       Annalise viu quando ele passou a mo com liberdade sobre o corpo de Patti, incluindo a regio entre as coxas. Escandalosa, ela se contorcia toda. Olhou desdenhosa 
para Annalise.
       - Pete, veja o que Toby est fazendo comigo! -  exclamou, lasciva.
       - Camarada de sorte.
       Ao ouvir a voz do namorado, Annalise voltou-se a tempo de v-lo olhando cobioso para Patti.
       - Pete...
       Por que estava to hesitante e nervosa? Com certeza, o namorado no a ouvira, por isso, no atendia. Ou talvez... sentiu o corao disparar... talvez ainda 
estivesse zangado, por causa do que ocorrera  tarde.
       - Pete... - tentou mais uma vez, a voz rouca. Ele continuou de costas para Annalise.
       -  Preciso de uma bebida, boneca - disse a Patti. - Onde tem?
       - Venha comigo e eu lhe mostro - respondeu Patti, ignorando os comentrios obscenos ao redor.
       - Por aqui. - Puxou-o pela mo para longe de Annalise.                  i
       Demoraram para voltar. Annalise reparou que Patti estava com o batom borrado. Esperou at ver Pete sozinho e aproximou-se. Tocou-o no brao e aguentou a humilhao 
de ser ignorada por mais alguns segundos. Finalmente, ele a olhou.
       - O que voc quer? - indagou, glido. Annalise sentiu o cheiro de bebida e recuou um pouco. Ele estava cambaleante, os olhos embaados. Havia outro cheiro... 
seu instinto feminino indicava que era o cheiro de outra mulher. Patti? Mesmo assim...
       - Pensei que voc e eu... - comeou, hesitante, mas ele a interrompeu.
       -  Bem, pensou errado, meu bem - cortou ele, arrogante. - Est acabado. O pouco que havia. Preciso de uma mulher de verdade... uma que saiba das coisas. V 
brincar com suas bonecas, garotinha.
       Estava acabado. Ele a dispensara e logo todos saberiam. Sentiu as lgrimas ardendo nos olhos. No podia mais ficar ali. A porta, voltou-se. Viu Pete com Patti 
outra vez, ele acariciando-lhe o seio despudoradamente.. Patti se esfregava nele, cnscia de que ela os observava. Olhou-a com expresso triunfante.
       Cega pelas lgrimas, Annalise saiu  escurido.
       -  Vamos, acho que est na hora de irmos embora.
       Joss olhou para Jack, interrogativo.
       - Acabamos de chegar - protestou Joss.
       A festa era muito menos inocente do que Jack imaginara. Havia uma atmosfera ali da qual no gostava. Franziu o cenho ao ouvir o som de vidro se quebrando 
dentro da casa.
       -  Vamos dar o fora - decidiu, chamando o primo. - Acho que vai haver confuso.
       Joss concordou. Jack teve algum trabalho para manobrar o carro de Jenny em meio aos outros, estacionados desordenadamente. Foi um milagre ter sado sem arranhar 
a pintura.
       -  Coitado de quem for fazer a limpeza a - comentou Jack, quando finalmente tomaram a rua escura que levava  avenida principal.
       -  O clima era mesmo de baderna, no ? - concluiu Joss. Jack assentiu.
       - Podem at destruir a casa. Metade dos convidados no era daqui.
       -  Muita gente, eu no conhecia - admitiu Joss. - Mas vi Patti e Pete juntos. Voc viu?
       - Vi... - Jack levou um susto ao torcer o volante para se desviar de uma garota que caminhava meio perdida pela rua. Brecando seco, abriu a porta e gritou 
uma advertncia: - O que pensa que est fazendo? Quer se matar?
       Annalise reconheceu a voz de Jack e soube, ento, que sua humilhao estava completa. Deu-lhe as costas, sem responder, rezando para que ele fosse embora.
       - Jack! - chamou Joss, ao v-lo sair do carro. Jack agarrou a moa pelos braos e a encarou.
       - Responda! - exigiu. - Voc... - Deteve-se ao notar que ela chorava.
       - Solte-me - murmurou ela, desolada. Ele era a ltima pessoa que gostaria que a visse daquele jeito.
       Jack olhou para ela e, ento, para a rua deserta. Seriam uns trs quilmetros de caminhada at Haslewich.  No  podia  abandon-la  ali  quela hora... uma 
garota to abalada...
       -  Entre no carro - ordenou. - Vamos lhe dar uma carona para a cidade. - Como ela no se mexia,  argumentou,  impaciente: - Vamos. Voc no pode ficar aqui. 
No  seguro.
       Joss saltou tambm e foi at eles, curioso. Reconheceu Annalise.
       - O que foi? O que aconteceu?
       - O que acha que aconteceu? - rebateu Jack. - Voc viu o que se passava l na festa.
       -  Oh,  mesmo...
       Comeou a chover forte e Annalise estremeceu, enregelada.
       -  Entre no carro - repetiu Jack.
       -  Sim - reforou Joss, gentil. - Volte para a cidade conosco.
       Annalise queria recusar, por orgulho, mas, de repente, ouviu-se um estrondo na casa de Patti, como um estouro de boiada, e vrios carros arrancaram cantando 
os pneus. Sozinha na estrada, poderia ser abordada por alguns daqueles rapazes bbados, talvez drogados, e...
       - No est pensando em voltar para l - desconfiou Jack, interpretando erroneamente a ansiedade em seu olhar. - Deve estar louca. Para qu? Voc viu o que 
estava acontecendo. Ele no...
       -  Ele no me quer - completou Annalise, a boca contrada.
       Jack desviou o olhar.
       - Ele no a merece - corrigiu.
       - Vamos, entre no carro - encorajou Joss. - Estou ficando ensopado.
       Annalise achou mais fcil ceder ao apelo de Joss.
       - Onde exatamente voc mora? - indagou Jack, quando entraram na rua principal de Haslewich.
       - Oh, pode me deixar aqui no centro - informou a moa.
       - Oh, no  incmodo deix-la em casa - assegurou Joss. - Certo, Jack?
       - Em absoluto, assim que soubermos onde fica - concordou o primo, amuado. Contrariada, Annalise forneceu o endereo. Sentia o quanto Jack Crighton a desprezava 
e no estava surpresa. Sem dvida, como Pete, ele preferia a assanhada da Patti.
       Para sua humilhao, Jack no se contentou em apenas parar o carro diante da casa. Fez questo de descer.
       - O que est fazendo? - questionou ela, quando ele se postou a seu lado.
       -  Levando-a a salvo at a porta de sua casa -  explicou ele. - Sou educado.
       - Quando  um encontro, concordo - replicou Annalise. - Acontece que no estamos... - Desviou o olhar, constrangida. - Alis, nem precisava ter me trazido 
at aqui. Eu podia vir andando.
       - Podia - concordou Jack. - Oua, no desconte em mim s porque...
       - Porque Pete me dispensou? - completou ela, frustrada.
       - Voc est melhor sem ele - garantiu Jack, perturbado ante as lgrimas nos olhos dela. - Se ele tiver algum juzo...
       Tremula, Annalise encontrou a chave e abriu a porta. Entrou rpido antes que Jack pudesse completar o que dizia. Agora, sua humilhao era total. Ele vira 
as lgrimas, sabia como ela se sentia.
       A passos lentos, Jack voltou para o carro.
       - Ela estava muito abalada - comentou Joss. Jack ligou o carro.
       - Estava - concordou Jack, sombrio.
       Automaticamente, David virou o rosto ao cruzar com o carro que vinha na direo contrria pela estrada que levava a Foxdean. Era improvvel que se tratasse 
de algum conhecido, num domingo quela hora. Devia ser s algum que sara para comprar os jornais, assim como ele.
       -  Oh... croissants frescos e os jornais de domingo. Que maravilha... - Honor no disfarava a satisfao. - Caf da manh mais perfeito, no imagino! - declarou, 
com uma piscadela.
       -  Eu vou comprar os croissants e os jornais - ofereceu-se David.
       - Enquanto isso, fao o caf - completou ela. A harmonia flua to naturalmente entre eles que David se sentia abenoado, mais at do que naqueles momentos 
de prazer sexual que compartilharam.
       J sem vestgios da tempestade da noite anterior, o cu amanhecera limpo e fresco. Uma leve nvoa cobria os campos.
       Na Jamaica, padre Incio acordava de madrugada, a fim de aproveitar ao mximo o perodo mais fresco do dia.
       David queria conversar com Honor sobre a Jamaica, mas no sabia como ela se sentiria a respeito do trabalho que ele desenvolvera l. As vezes, mesmo as pessoas 
mais educadas e inteligentes demonstravam receio e apreenso ao saber, que ele e o padre cuidavam de doentes. Testemunhara pessoalmente, ao acompanhar padre Incio 
numa viagem a King-ton para levantar donativos junto aos ricos e poderosos,    incitando-os a fazer algo mais do que apenas elogi-los por fazer um bom trabalho.
       Aids, hansenase, cncer terminal. David cuidara de portadores de todas essas enfermidades quando ainda se atolava na autopiedade, o que o impedira at de 
reagir com repulsa. Pois desconfiava de que teria dado as costas tambm, se no fosse o padre.
       Ainda se lembrava de como reagira... de como se sentira... quando Tiggy sofrera um de seus ataques de comilana desenfreada, seguida da auto-mutilao. O 
banheiro, o quarto, s vezes, a casa toda pareciam impregnados do cheiro de vmito.
       Depois disso, vira seres humanos em pior estado ainda. s vezes, reprimira as lgrimas de raiva, dor e angstia ante o sofrimento dos enfermos, sabendo que 
no havia mais o que fazer.
       -  Todos vamos morrer um dia - lembrava padre Incio.
       - Morrer, sim... mas no dessa forma - protestara David.
       Sabia que as infuses de ervas do padre no passavam de poderosos narcticos, facilmente disponveis na ilha. Enquanto os ricos se drogavam por diverso, 
o produto, mesmo na forma de medicamento, era caro demais para os pobres.
       Deitado na cama, ao lado de Honor, ocorreu-lhe que ela e o padre se assemelhavam no desgnio de ajudar o prximo. Eles se dariam bem, provavelmente com tantas 
idias a trocar que ele se veria deixado de lado.
       Queria lhe dizer isso. Ento, lembrou-se da manh anterior, quando desejara contar a Honor sobre sua vida, mas ela o impedira.
       - No, nada de confidncias, nada de confisses - pedira Honor. - Vamos aproveitar o que temos aqui.
       Com isso, reiniciara as carcias pelo corpo dele, e tudo o mais foi esquecido, prevalecendo apenas o desejo sexual.
       Passaram o resto do dia tranquilamente, trabalhando juntos. Ela lhe mostrou como cultivar as ervas e como colh-las, comentando rapidamente sobre as propriedades 
de cada planta.
       Mais tarde, quando escureceu, jantaram e conversaram sobre a reforma na casa.
       David lembrou-se. da casa que fora sua, cuja decorao Tiggy vivia mudando ao sabor da moda, sendo que ele nunca se incomodara em dar uma opinio. Agora, 
refletindo, entendia que nunca considerara aquela casa seu "lar". Lar era... era a casa de Jon e Jenny, cheia de carinho e amor.
       Quando Honor falou em redecorar Foxdean, David entusiasmou-se em dar ideias, para seu prprio espanto.
       -  Parece que ns dois temos gosto por cores fortes - reconheceu Honor, a certa altura. - Minhas filhas acham loucura pintar a saleta de ocre. Segundo elas, 
j est escuro demais. - Sorriu ao lembrar-se. - Abigail  muito organizada e             caprichosa, mora num loft onde tudo  branco, cromado ou de madeira.
       -  E a sua outra filha? - indagou David.
       -  Bem, ela mora num apartamento alugado. Est insegura sobre seu futuro, quer mudar de emprego, o que significaria uma mudana, talvez at para o exterior.
       -  Acho que ocre vai ficar timo - opinou David. 
       Certo Natal, quando criana, David ganhou uma caixa de tintas de tia Ruth. Jon, se no se enganava, ganhara sementes. Agora, entendia que Ruth tentava encoraj-los 
a desenvolver caractersticas diferentes de suas personalidades. Ruth interessava-se tanto por jardinagem quanto por arte. Adorara as tintas e criara figuras grandes 
e coloridas, mas o pai, ao ver aquilo, ficara muito zangado.
       - Pintura! Rabiscos! Isso  para garotas - criticara ele, preconceituoso.
       David jogara tudo fora e repetira, grosseiro, as palavras do pai, quando a tia lhe perguntara se estava usando as tintas.
       Na Jamaica, frequentemente sentira vontade de colocar em telas as cores vibrantes que via ao redor.
       - Esta pobre casa ficou tanto tempo fria e sem amor que precisa de cores quentes para traz-la de volta  vida - ponderou Honor.
       David lembrou-se da saleta de face norte onde Honor colocara as caixas de livros. Ficariam ali, segundo ela, at fazer as estantes e pint-las em cores terracota.
       -  Quero decorar a escada com um mural - contou Honor. - Com cores brilhantes.
       -  Uma cena toscana - concluiu David, sorrindo. Vira esse tipo de mural nas vilas onde trabalhara.
       Honor negou, explicando:
       -  O que tenho em mente  algo... - Ela fez uma pausa e estreitou o olhar, concentrando-se. - Algo nico e especial. S no sei bem o que .
       - Que tal copiar alguns manuscritos que os monges usavam com o desenho das ervas? - sugeriu David. - Eles usavam cores fortes e voc poder criar seu prprio 
jardim pessoal com as ervas que...
       -  Oh!  uma ideia maravilhosa - aprovou Honor, entusiasmada. - Sim,  exatamente o que quero. Como no pensei nisso? Oh, voc  to esperto, David.
       David riu do entusiasmo quase infantil, lisonjeado por ela ter gostado de sua sugesto.
       Passaram o resto da tarde conversando sobre ervas antigas, que Honor colecionara, at que chegou a hora de dormir.
       - Vou subir - anunciou ela. - Duvido de que tenhamos corte de luz agora que a tempestade passou, mas voc  bem-vindo em minha cama... se quiser.
       Deixou a cozinha sem esperar pela resposta. Ele a alcanou no meio da escada.
       - Voc me deixa de um jeito que no sei se conseguiremos chegar ao quarto - confessou, e beijou-a possessivo.
       Enquanto voltava de carro pela estrada deserta na rea rural de Cheshire, David lembrou-se da mxima: A cavalo dado no se olha os dentes. Ou seja, no se 
deviam analisar demais certas situaes.
       Certa vez, David perguntou ao padre por que pessoas que nunca cometeram nenhum crime tinham que sofrer tanto no final da vida. Padre Incio no soube responder.
       - S sei que enfrentamos melhor essas provaes quando temos f, crena, aceitao.  melhor aceitar a tentar encontrar uma explicao.
       Para alguns, tal atitude era sinal de fraqueza, para outros, de fora. David no sabia mais que lado tomar. S sabia que naquela manh de outono maravilhosa, 
dirigindo para a casa onde uma mulher de encantos mgicos o aguardava, sentia-se mais feliz, mais em paz, mais satisfeito do que jamais estivera em toda a sua vida. 
Talvez, Honor estivesse certa ao dizer que deveriam viver um dia de cada vez. Por que complicar ou estragar tudo?
       Estacionou junto da casa e pegou a sacola com croissants. Estavam saindo do forno do padeiro quando os comprou.
       Haveria forma mais perfeita de passar uma manh preguiosa?, imaginou Honor, feliz, ao ouvir David chegar.
       Tinha uma ideia para a decorao da sala de jantar e queria discuti-la.
       Ele parecera confuso no dia anterior, quando ela comentou sobre seu talento artstico evidente. Estava curiosa para saber sobre a vida dele, entender por 
que se surpreendera e, ao mesmo tempo, se envergonhara, com o reconhecimento de seu talento. De qualquer forma, no pretendia especular. David era apenas algum 
que estava passando por sua vida, exatamente o que queria. Sentia-se feliz e no precisava das complicaes de um compromisso. Tinha tantos planos, tanto a fazer. 
Planos egostas, talvez, para os outros, mas, com certeza, ganhara o direito de fazer o que quisesse, de ser a pessoa que era, a filha, a esposa, a me.
       Sua prpria cura era muito importante. Havia tanto a aprender e no queria considerar as necessidades e desejos de outra pessoa se, por exemplo, decidisse 
estudar mais ou, talvez, viajar.
       No tinha nada planejado e essa era a beleza de estar onde estava, de ser quem era. Entretanto, no havia como negar a sintonia entre ela e David. Nem o prazer 
inesperado da intimidade.
       Foi maravilhoso acordar pela manh e ver David aninhado junto a seu corpo, o brao musculoso sobre ela, protetor.
       - O caf est cheirando bem - comentou ele, ao entrar na cozinha.
       Honor nem respondeu, j se deliciando com o aroma dos croissants que ele trazia.
       - Foi mesmo uma ideia excelente! - aprovou David, depois, ao lamber migalhas de massa folheada da pele dela.
       -  Humm... foi, no foi? - concordou Honor, preguiosamente. Estendeu os braos, enlaou-o pelo pescoo e lhe ofereceu seu corpo.
       A famlia compareceu em bom nmero  igreja, pensou Jenny, conduzindo o velho Ben para um ponto onde havia luz do sol. Ela e Jon no compareciam  igreja 
aos domingos tanto quanto deveriam, mas sempre iam ao cemitrio adjunto para visitar o tmulo do filho natimorto. No sentia mais a dor insuportvel, nem o desespero 
do momento da perda, mas ainda havia tristeza. Por Harry, por si mesma, por tudo o que poderia ter sido.
       - David foi batizado aqui - contou Ben, desnecessariamente, quando transpunham o porto. - J se via o tipo de homem que seria. Nunca chorou... nem uma vez.
       Jenny ficou tensa com a indireta do sogro em relao ao marido.
       -  Lawrence e Henry foram os padrinhos de David e Jon, mas nunca fizeram nada por eles. Quando David voltou de Londres, deviam ter lhe oferecido um lugar 
na cmara, mas, claro, tiveram medo de que ele se destacasse em relao aos prprios filhos.
       Jenny ouviu e absteve-se de comentar que Henry Crighton no oferecera um cargo a David porque ele fora demitido de seu emprego em Londres sob circunstncias 
nebulosas.
       -  Esta famlia no  a mesma sem David - resmungou Ben, enquanto Jenny o levava para o carro. - Ele sabia como fazer as coisas. As pessoas o admiravam e 
o respeitavam. Ele tinha presena... autoridade. Ele devia ser conselheiro da rainha, sabe. Teria sido se no fosse aquela esposa dele.
       Jenny, que j ouvira aquelas lamentaes uma centena de vezes, no disse nada.
       David se casara com Tnia pelo mesmo motivo que o levara a fazer tudo na vida: parecera-lhe o mais fcil. Na poca, ficara de ego inflado, conforme Ben sempre 
lhe ensinara ser seu direito.
       -   culpa de Jon o fato de David no estar aqui conosco - disparou Ben, de repente, mudando de enfoque.
       Jenny estacou.
       - Isso no  verdade - protestou, com firmeza e dignidade.
       Alm de David, se mais algum era responsvel, era o prprio Ben, mas no adiantava lhe dizer isso. Ben j estava velho e frgil, mas nem por isso ela ficaria 
ali ouvindo-o criticar seu amado Jon.
       -  Oh, voc diz isso, claro - rebateu o sogro, zangado. - Nenhum de vocs gostava de David... nem os prprios filhos.
       Jenny atingiu seu limite. Era a ltima pessoa no mundo a querer agredir algum ou encorajar uma discusso, mas Ben estava sendo injusto.
       - No, Ben. Voc est errado - corrigiu, determinada. - Pelo contrrio, David  que no gostava de ns.
       - O que est dizendo? - gritou Ben, alterado. - David era meu filho. Eu o conhecia melhor do que ningum. Ele...
       - Jon tambm  seu filho - lembrou Jenny.
       -  Oh, Jon - resmungou Bem, em tom de desprezo.
       Jenny ficou aliviada por chegarem ao carro. No sabia o que teria dito se a discusso continuasse.
       -  Problemas? - indagou Max, solidrio, enquanto Maddy ajudava Ben a entrar no carro.
       - Na verdade, no - assegurou Jenny. - Eu devia ser mais paciente, mas, s vezes, fico to aborrecida quando ele menospreza seu pai. Sei que est sofrendo 
de dores, porm...
       -  Maddy chamou uma herbolria para v-lo amanh. Oh, isso me lembra, quero falar com papai. H um terreno  venda do outro lado da cidade e estou pensando 
em compr-lo. - A surpresa da me, explicou: - Sei que vai parecer horrvel, mas Ben no vai viver para sempre e isso significa que eu e Maddy teremos que procurar 
outro lugar para morar.
       - Mas pensei que estivesse acertado que Ben deixaria Queensmeal para voc e Maddy - replicou Jenny.
       - Sim, ele me prometeu Queensmead quando me tornei conselheiro da rainha, mas anda jogando umas indiretas, dizendo que a casa devia ficar para David. Por 
direito, claro, devia ficar para papai, mas vov ainda acha que David vai voltar. Maddy contou que, quando comentou sobre umas mudanas que queria fazer, ele disse, 
spero, que ramos apenas arrendatrios ali. Independente do que ele me prometeu, lembrou que  tradio da famlia Crighton que a casa fique com o primognito.
       - Mas no  justo - protestou Jenny. - Voc e Maddy j gastaram uma fortuna na casa. Vocs pagam as contas e...
       - E a casa pertence legalmente a Ben - concluiu Max. - Ele  como um urso ferido, me, e    capaz   de   qualquer   coisa,   incluindo   deixar Queensmead 
para  qualquer pessoa.  Por outro lado, admito que no deve ser fcil para ele tambm, com trs crianas correndo para l e para c o tempo todo.
       - Sem o cuidado de Maddy, ele iria para algum asilo. Ben no tem condies de viver sozinho - observou Jenny.
       - Humm... Maddy e eu concordamos que no adianta discutir. J acertamos que, mesmo que ele deixe Queensmead para mim, vamos fazer uma avaliao e dar a cada 
neto sua parte em dinheiro.
       -  Oh, Max, ningum espera que faa isso - opinou a me, desolada.
       -  Talvez, no - ponderou Max. - Mas eu, com certeza, espero isso de mim mesmo.
       A p, Jack entrou na rua estreita formada por casas medievais, da era Tudor e georgianas. Foi passando pelas construes procurando a porta desejada, at 
que encontrou.
       Estava escuro quando deixara Annalise diante do sobrado na noite anterior, mas, ainda assim, conseguiu voltar l.
       Quando acordara, a ltima coisa, a ltima pessoa em sua cabea era Annalise. Mas, ento, Joss o convencera a ir  igreja. Quando meninos, ambos haviam participado 
do coral e, embora no gostasse de admitir, era reconfortante passar algum tempo na igreja antiga com seus rituais e o aroma nico de pedra, madeira, veludo e flores.
       Enquanto Joss conversava com a irm Katie, o cunhado Seb e os sobrinhos gmeos, Jack conseguira escapulir.
       A rua estava vazia. Hesitante, aproximou-se da casa e tocou a campainha.
       Annalise sobressaltou-se ao ouvir o chamado. Tinha esperana de que Pete, arrependido, a procurasse para pedir perdo.
       Felizmente, o pai sara e os dois irmos entretinham-se ao computador.
       Rapidamente, soltou os cabelos loiros, desembaraando-os com dedos trmulos, e correu para a porta. Ao ver Jack na soleira, desanimou-se.
       -  O que voc quer? - indagou, amuada. Jack deu de ombros.
       - Nada. Estava passando e resolvi perguntar se voc est bem.
       - Bem? Por que no deveria estar? - desafiou Annalise, defensiva.
       J era ruim a visita no ser Pete, mas ter Jack Crighton lembrando-a da perda humilhante na noite anterior era dez... no, cem vezes pior. Quando fechava 
a porta, ouviu-se um grito na sala, seguido de um som de vidro se quebrando.
       Temendo o pior, pois conhecia os irmos, Annalise deu meia-volta no saguo e correu para dentro. Jack a seguiu sem que ela se desse conta. Os meninos haviam 
atirado um objeto no aqurio, que se quebrara na lateral. Agua e peixes escorriam pela cadeira e sobre o tapete. Annalise no conseguia controlar os irmos, que 
se acusavam mutuamente.
       Jack resolveu assumir o controle:
       - Um dos dois, v pegar um balde! - ordenou. - E fiquem longe dos cacos de vidro.
       -  Um balde no vai adiantar - protestou Annalise.
       - Sim, vai - afirmou Jack, inclinando-se sobre o aqurio. - A fenda no vai at embaixo e, se pudermos remendar provisoriamente, poderemos colocar o aqurio 
numa banheira. Assim, se o vidro se quebrar de vez, pelo menos os peixes sero salvos.
       Antes que ela pudesse dizer algo, Um dos irmos, Teddy, voltou com um balde e Jack o colocou sob a vazo.
       - Os peixes esto no cho... morrendo! - disse o menino, assustado.
       - Tome, segure aqui - instruiu Jack, ficando de lado para que Annalise tomasse seu lugar. Ento, ajoelhou-se e pegou os peixinhos com cuidado. - No, no 
pegue neles - alertou a Teddy. - Voc pode se cortar com o vidro - explicou, devolvendo os peixinhos para o aqurio cheio pela metade.
       - Vo sobreviver? - indagou Teddy, ansioso, quando Jack resgatou o ltimo.
       -  Vamos esperar para ver - respondeu Jack, calmo. - Se voc tiver jornal e um plstico adesivo, poderemos consertar a fenda e levar o aqurio.
       Meia hora depois, com o aqurio mergulhado na banheira, Jack recusou o convite para brincar de videogame.
       -  pena, mas tia Jenny j deve estar imaginando onde me escondi. Oua, acho que temos um aqurio encostado na garagem. Se ainda o tivermos, posso emprest-lo, 
at que compre outro.
       - Voc tinha peixes? - indagou Teddy.
       -  Sim, tnhamos.
       -  O que aconteceu com eles? - perguntou o caula, Martin, muito interessado.
       - Minha me no gostava deles e, ento, tive que me desfazer - resumiu Jack. - Felizmente, tia Jenny disse que Joss podia ficar com eles.
       -  Mas... - Annalise mordiscou o lbio, abstendo-se de comentar que pensava que ele sempre morara com os tios.
       -  Oua, se conseguir achar o aqurio, passo amanh  tarde depois do trabalho, se estiver bem para voc. Com sorte, o plstico vai resistir at l.
       - Bem, se tem certeza de que no  incmodo... -  aceitou Annalise, relutante.
       Ela tentou visualizar Pete no lugar de Jack, tomando as providncias que ele tomara, e percebeu que Pete jamais teria se incomodado com aquele pequeno drama 
familiar.
       Ainda sentia dor no corao ao pensar que todos j sabiam que Pete a dispensara. Logo, teria que enfrentar os colegas de escola.
       -  Vamos, vocs dois - comandou ela. - Eu tenho que ir trabalhar e vocs tm que arrumar os quartos...
       - Trabalhar? - Jack franziu o cenho. - Pensei que ainda estivesse na escola.
       -  Sim, estou - confirmou Annalise, sucinta.
       - Mas alguns tm que trabalhar assim mesmo, sabe. Nem todos ns temos famlias ricas.
       Jack lhe lanou um olhar e ela enrubesceu.
       -  Onde est trabalhando? - quis saber ele.
       - No restaurante de minha tia Frances Salter, no centro.
       - Oh, ela  irm de Guy Cooke, no ? - perguntou Jack.
       - Sim - respondeu Annalise. - Mas, se est achando que, por ser metade Cooke, sou... - Ela se deteve e deu meia volta. - Vou lhe mostrar a sada.
       Ele a segurou pelo brao.
       -  O que quer dizer... o que estava dizendo?
       - No disse nada - negou Annalise e deu de ombros, mas percebeu que ele no ia desistir. - O pessoal diz que as moas da famlia Cooke so... so fceis - 
revelou, envergonhada. - E se voc est pensando que eu...
       -  Espere um pouco - protestou Jack, impedindo-a de abrir a porta. - Foi voc que mencionou isso, no eu. Nem sabia que voc era Cooke e, mesmo que soubesse... 
Acha que vim aqui por isso? Porque, eu... porque estou procurando uma garota fcil? No estou to desesperado por sexo - declarou, orgulhoso.
       Annalise comeou a chorar. Tentou golpe-lo e exclamou:
       -  No tenho culpa se no sou sexy... ou que no... que no tenha... Eu o odeio - declarou, espantando-o. - Eu o odeio.
       O que ele fizera? Ora, afirmara que no pensava nela como uma garota fcil e ela reagia como se a tivesse insultado...
       -  Ei, vamos - apaziguou Jack, segurando-a pelos punhos delicados. Ela estava trmula e as lgrimas corriam por seu rosto. - Por favor, no chore - pediu, 
rouco. - Eu no quis dizer...
       De repente, sem que se dessem conta, Jack a tinha nos braos, o rosto umedecido contra seu ombro. Ela soluava, transtornada.
       - Eu sei o que todo mundo acha, mas no  verdade - choramingava ela. - E, quando Pete disser a todos, vo caoar de mim.
       -  Quando ele disser o que... que ele desistiu de uma garota como voc por algum como Patti? No  de voc que vo rir - assegurou Jack.
       Annalise ergueu o rosto, controlando os soluos.
       - No pode estar falando srio - disse, confusa. Jack estava mentindo. Nenhum rapaz poderia preferi-la a uma garota sexy e experiente como Patti. Annalise 
tinha olhos deslumbrantes,  pensou Jack, encantado. Mas era nova demais para ele, lembrou-se, severo. Ele tinha dezenove e ela...
       - Quantos anos voc tem? - perguntou.
       -  Dezoito. - Vendo que ele no acreditava, Annalise corrigiu: - Dezessete, mas vou fazer dezoito em maro.
       Dezoito anos em maro, mas parecia mais novinha. Isso significava que o homem que se envolvesse com ela teria uma grande responsabilidade, teria que estabelecer 
um compromisso srio, porque ela com certeza merecia muito mais do que Pete Hunter podia oferecer. Muito mais, alertou-se Jack, sombrio. Sendo assim, por mais que 
seus hormnios se manifestassem, no importava o tipo de relacionamento que ela tivera com Pete, deveria ficar longe dela. Devia dedicar-se aos estudos, no queria 
se envolver emocionalmente com ningum.
       - Voc no devia sair com rapazes como Hunter - aconselhou, severo, - E se fosse seu pai...
       -  Meu pai! - Annalise arregalou os olhos.
       - Bem, seu irmo - corrigiu Jack.
       Sentiu um frio na espinha ao imaginar o que poderia ter acontecido com ela na noite anterior. Sua famlia no sabia os riscos que ela andava correndo? Quando 
as meninas de Olvia, suas sobrinhas, alcanassem essa idade e comeassem a sair com tipos como Pete Hunter, no ficaria calado.
       Jack despediu-se de Annalise assombrado com a grande responsabilidade que era ser homem.
       
       CAPTULO NOVE
       Vou ver um paciente em potencial hoje - comentou Honor com David, durante o caf da manh.
       - Bem, eu vou comear a tirar as placas de madeira do telhado onde faltam as telhas de ardsia para ver quanto material  necessrio e, ento, quando acabar, 
vou at Fitzburgh Place falar com o caseiro. Aproveito para me informar sobre o gerador de energia tambm - acrescentou.
       - Certo - concordou Honor. - Vamos trocar o aquecedor central tambm, como discutimos.
       Conversaram por mais meia hora a respeito dos planos de Honor para a casa. Ento, ela anunciou que se no subisse para trocar de roupa, iria se atrasar.
       - Eu arrumo a cozinha - ofereceu-se David, indicando a loua do caf da manh.
       Honor levantou-se, inclinou-se e o beijou. Sentiam-se to confortveis um com o outro, to compatveis, que um observador presumiria que estavam juntos havia 
muito tempo.
       - No me interessa quem  essa mulher. No vou receb-la. Herbolria... embromao, se quer saber - resmungou Ben, quando Maddy lhe disse que Honor iria visit-lo.
       - Bem,  voc que est sentindo dor - observou ela. calma. - Se acha que no precisa...
       - Ela no vai fazer nada - insistiu Ben, mas Maddy percebeu que estava menos agressivo.
       -  Bem, talvez no, e devo admitir que o dr. Forbes acha que  bobagem consult-la...
       - Forbes disse isso? - interessou-se o velho. Sorrindo para si mesma, Maddy desviou o olhar e fingiu tirar o p da mesa j sem p. O antagonismo entre Ben 
e o mdico era notrio.
       - Bem, ele disse que no h motivo para voc estar sentindo dor - continuou Maddy, sagaz.
       -  Ele acha, ? - rugiu Ben. - E como ele pode saber? No  na carne dele. O que essa mulher diz? - perguntou, desconfiado.
       -  Bem, ela disse que precisa conversar com voc primeiro, mas adiantou que acha ser possvel ajud-lo - respondeu Maddy, cautelosa.
       -  Se ela acha que vou beber alguma poo nojenta...
       Aliviada, Maddy viu um carro estacionar em frente  casa. Ben comeava a ficar difcil.
       -  O velho est implicando? - indagou Max, minutos depois, quando ela saiu ao corredor fechando a porta do escritrio de Ben. - Eu avisei - murmurou,  examinando 
a correspondncia. Pretendia trabalhar em casa naquele dia.
       Maddy sabia que o sogro chegaria mais tarde para discutirem a questo do terreno que pretendiam comprar. Pessoalmente, detestaria se mudar dali, ainda mais 
para uma casa moderna, mas, ao mesmo tempo, aceitava que Queensmead pertencia a Ben.
       -  Eu sei - concordou Maddy, e foi abrir a porta para Honor. - Por favor, entre - recepcionou, calorosamente. - Este ...
       Sem graa, percebeu que o marido convenientemente desaparecera.
       -  Por aqui - improvisou, conduzindo a herbolria direto ao escritrio de Ben. - Vou apresent-la ao av de meu marido e, ento, os deixarei sozinhos. Ele 
normalmente toma ch com biscoito s onze...
       - Se precisar de ajuda antes disso, eu grito - completou Honor, com um sorriso.
       Ben Crighton era to difcil quanto Maddy alertara, reconheceu Honor, mas as dores de que se queixava eram verdadeiras. Desconfiava que, ao contrrio do que 
ele pensava, a dor no decorria tanto das operaes, mas do fato de no exercitar o corpo havia muito tempo. Embora no pudesse oferecer uma cura definitiva, uma 
dieta balanceada, rica em ervas, e cremes poderiam no apenas diminuir o desconforto como aumentar a mobilidade.
       -  Que tipo de dieta? - questionou Ben, desconfiado. - No acha que vou viver comendo capim, acha? Um homem precisa de carne vermelha.
       -  Carnvoros precisam de carne vermelha - corrigiu Honor, firme. - E, quando no podem agarrar e matar sozinhos, morrem. Os seres humanos so bem mais afortunados.
       Honor percebeu, divertida, que o argumento o silenciara. Mas desconfiava de que logo voltaria  carga. Olhou discretamente para o relgio. Eram quase onze 
horas. Antes de prosseguir, gostaria de perguntar a Maddy Crighton que alteraes poderiam implementar na dieta de imediato.
       - V e diga a Maddy que so onze horas - ordenou o velho, rude. - Quero meu ch.
       Calmamente, Honor se levantou. No mesmo instante, a porta se abriu. Era Maddy trazendo uma bandeja.
       -  J no era sem tempo - aprovou Ben, rabugento.
       -  Achei que gostaria de tomar ch conosco na cozinha, Honor - convidou Maddy, com um sorriso.
       - Conosco? - questionou Ben, franzindo o cenho.
       -  Sim. Jon acaba de chegar. Max lhe pediu que viesse.
       - Huh, que filho. Nem se importa em me dizer que vai vir, nem aparece para dizer ol, sendo esta a minha casa. Se fosse David...
       Apressadamente, Maddy conduziu Honor para o corredor.
       -  Desculpe-me - pediu. - Ben s vezes  muito rude. Jon  meu sogro, filho de Ben. David... era... era seu irmo gmeo - contou, a ttulo de esclarecimento. 
- Acha que pode ajud-lo? - perguntou, ansiosa, mostrando o caminho para a cozinha.
       - Espero que sim - respondeu Honor, cautelosa. - Mas o quanto depender muito do prprio Ben.
       -  Oh - suspirou Maddy. - Achei que iria dizer algo assim. Ele se recusa a tomar os remdios que o mdico receitou e...
       - E ele me disse que no vai deixar de comer carne vermelha, nem vai tomar nenhuma poo de mentira que provavelmente vai mat-lo em vez de cur-lo - completou 
Honor.
       - Oh, ele lhe disse tudo isso? - lamentou Maddy, abrindo a porta da cozinha. - Max, vov foi horrvel com a sra. Jessop.
       Adentrando a cozinha, Honor viu dois homens sentados  mesa. Estacou, espantada.
       -  Honor, voc est bem? - indagou Maddy, sem entender. - Voc est plida.
       Por um segundo, Honor pensou estar diante do mesmo homem com quem compartilhava a casa havia algumas semanas... o mesmo homem com quem compartilhava a cama. 
Ento, percebeu que no era o mesmo homem. Havia algumas diferenas, tpicas de gmeos idnticos adultos. Gmeos... David era o irmo gmeo daquele homem, o que 
significava...
       Pondo de lado os pensamentos conflitantes, prestou ateno s apresentaes. Aquele era Jon Crighton, filho de Ben, seu paciente relutante, e irmo gmeo 
de David. No lhe passou despercebido o tom de desgosto de Maddy ao citar David, como se isso trouxesse um gosto ruim  boca.
       Durante os anos em que fora casada, para sua prpria sobrevivncia e pelas meninas, aprendera a no trair seus sentimentos. Agora, versada nessa autodisciplina, 
forou-se a sorrir.
       -  Muito prazer.
       A semelhana entre os dois homens era incrvel, porm, quando apertaram as mos, Honor deu-se conta de que jamais se enganaria. Reconheceria cada um pelo 
simples toque.
       Mesmo assim, no pde deixar de especular:
       -  Quer dizer que tem um irmo gmeo?
       -  Tenho - confirmou Jon, conformado.
       - E a est o maior problema de vov - opinou Maddy, triste, olhando para o sogro e o marido antes de explicar: - Pelo que me disse ao telefone, voc acredita 
na anlise holstica aplicada ao tratamento dos pacientes, por isso... concordamos que deveramos coloc-la a par da histria de nossa famlia.
       Honor ouviu com ateno a narrativa de Maddy dos eventos que haviam culminado com o desaparecimento de David, destacando o efeito que a ausncia do filho 
predileto causava no pai.
       -  Ben sente demais a falta dele - explicou Maddy. - Acho que, se algum disser que David  no vai voltar, ele simplesmente vai se entregar. 
       -  No acredito - disse Max. - Ele vai se recusar a acreditar. Pessoalmente, no acho que David vai voltar.
       -  Nem tendo a famlia aqui? - questionou Honor. - Ele tem uma filha e um filho, alm do pai e...
       -  Uma filha e um filho aos quais ele deu as costas - observou Max, severo. - Nenhum dos dois o receberia de volta; principalmente Olvia. Ela nunca vai perdo-lo 
pelo que fez.
       Honor absorveu a informao. Era estranho estar ali sentada com a famlia de David, ouvindo-os falar dele. A pessoa que descreviam, entretanto, parecia-lhe 
irreconhecvel. A frivolidade, a vaidade, o egosmo, tratava-se de caractersticas que jamais atribuiria ao homem sensvel e carinhoso que deixara em casa.
       Onde estavam o humor, a humildade, a humanidade, o calor e compaixo que ela sentia to claramente nele?
       -  Esse dinheiro que vocs dizem que ele tomou... - comeou Honor.
       Jon meneou a cabea, meio impaciente.
       - O dinheiro no  o caso - declarou, contrariado ante a disposio da famlia em revelar fatos ntimos a uma estranha, ainda que sua inteno fosse ajudar 
o velho Ben.
       -  Claro que , pai - protestou Max.
       -  No  mais - insistiu Jon. - Sim, o que ele fez foi errado, muito errado, mas isso  entre ele e sua conscincia. Graas  generosidade de Ruth, o desastre 
em potencial foi evitado.
       -  Oua - comeou Max. - Se existe algum que deveria defender tio David, esse algum sou eu. Afinal, ele sempre me favoreceu em relao a Olvia, embora 
ela fosse sua filha.
       -  Ele estava apenas repetindo as lies que aprendeu com nosso pai - explicou Jon. - Filhos tm mais valor que filhas.
       -  E alguns filhos tm mais valor que outros - completou Max, amuado. - Voc no lhe devia favores, pai. Afinal, quando ele lhe fez algum favor? Ele sabia 
que quando sumisse e deixasse a baguna para trs, voc  que ficaria para consertar tudo.
       - Ele provavelmente no via dessa forma -, repreendeu Jon. - Fossem quais fossem suas fraquezas, David jamais foi maldoso.
       -  Sente a falta dele? - indagou Honor, para sua prpria surpresa.
       - Para ser franco, no - confessou Jon, cauteloso, como se pesasse as palavras. - Nunca fomos chegados, nem quando crianas, nem como adultos.
       -  No, vov cuidou para que no fossem - ironizou Max.
       Jon voltou a repreender o filho antes de completar:
       - Mas o que realmente sinto  no saber onde ele est. E difcil explicar, mas  como se... como se, de certa forma, estivesse faltando uma parte de mim. 
Entretanto, minha vida nunca foi to... feliz.
       -  Nunca disse isso antes - ralhou Max, contrariado.
       - Nunca pensei muito sobre isso antes - justificou Jon. - E, para ser honesto, no sei por que me sinto assim agora. Talvez tenha a ver com a conversa que 
tive com sua me, sobre a ligao que existe entre gmeos. 
       Voltou-se para Honor e explicou:
       -  Discutamos sobre a sade de Ben e seu desejo de ver David novamente, e Jenny sugeriu que eu tentasse entrar em contato telepaticamente. Ns tambm temos 
duas filhas gmeas e, como ela me lembrou, as duas tm uma ligao forte, sentem quando uma est precisando da outra. Mas veja, elas so assim desde crianas. David 
e eu nunca fomos.
       - Est dizendo que levou a srio o que mame sugeriu? - questionou Max, atnito, e trocou um olhar espantado com Maddy. - Voc nunca disse...
       - Porque no havia nada a dizer - respondeu Jon. - No  como se eu estivesse por a, tentando me conectar telepaticamente com ele.  s... bem, no consigo 
deixar de pensar nele.
       - Ele no vai voltar - afirmou Max. - No tem por qu. O casamento est acabado. Tnia se divorciou dele. Jack est melhor com voc e mame. Olvia no faz 
segredo de que nunca mais quer v-lo. Para quem, excetuando vov, ele voltaria? E se vov soubesse o que ele fez, se soubesse que ele quase arruinou a reputao 
da famlia, reputao pela qual  quase obsessivo, duvido de que o recebesse!
       -  Acho que est enganado, Max - interveio Maddy, gentil. - O amor dos pais  muito forte e perdoa tudo.
       - Eu sei - concordou Max, olhando carinhoso para o pai. - Mas vov no ama tio David. Esperem - pediu, quando Maddy e Jon iam protestar. - Pensem. Ben pensa 
que ama tio David porque v nele o irmo gmeo que ele mesmo perdeu. Duvido de que ele veja David como ele realmente .  mais provvel que o veja como ele gostaria 
que fosse.
       Jon suspirou. No gostava de admitir, mas o raciocnio do filho tinha lgica.
       - Que seja - considerou. - Mas acho que j estamos aborrecendo a sra. Jessop com a triste histria de nossa famlia.
       - No estou aborrecida - afirmou Honor, sincera. - Mas entendo o que querem dizer e concordo que a sade de Ben  bastante afetada pela infelicidade emocional.
       -Ento, uma vez que no podemos trazer David de volta, h algo que possamos fazer? - indagou Maddy.
       - Vou analisar o caso - respondeu Honor, levantando-se. Queria desesperadamente ficar sozinha, digerir toda aquela informao.
       David inventara outro sobrenome. David Lawrence. Por algum motivo, combinava.
       O caseiro de lorde Astlegh, to solcito quanto Honor descrevera, disse a David que poderia levar tudo o que estivesse disponvel na fazenda para a reforma 
de Foxdean, assegurando:
       - Lorde Astlegh ficar feliz em ajudar a prima no que for possvel. Antigamente, ele mandaria um grupo para colocar a casa em ordem, mas no temos mais esse 
tipo de trabalhador. Quando precisamos de homens, temos que contrat-los.
       - A sra. Jessop quer trocar o sistema de aquecimento central - comentou David. - E quer abrir as lareiras originais.
       - Bem, temos uns radiadores que foram encomendados quando o aquecimento central foi instalado aqui, que nunca foram usados. Est pensando em fazer o servio 
sozinho?
       -  Depende - disse David. - No sou encanador qualificado, mas ela me disse que no consegue contratar gente para trabalhar na casa.
       -  Sim, acho que  difcil. Eu no sou daqui, mas lorde Astlegh comentou que sempre teve dificuldade em arranjar gente para ir trabalhar l.
       - Mas de gerador ela precisa, com certeza - opinou David. - A energia eltrica l no  muito confivel.
       - No vo ter problemas para instalar um - assegurou o caseiro. - Na verdade... qual  o seu carro? Se  da fazenda...
       -  Eu no vim de carro. Vim andando - respondeu David.
       - Andando!? - O caseiro parecia surpreso. - Est bem, eu providencio o gerador para voc. Tenho mesmo que arrumar uma cerca l para aqueles lados esta semana. 
Aproveito, passo na casa e deixo l o equipamento.
       - Excelente - disse David, e agradeceu.
       Dez minutos depois, estava na estradinha interna da fazenda. David decidiu passar pelas novas barracas de artesanato para ver os trabalhos. Se encontrasse 
um marceneiro, poderia encomendar caixilhos para as janelas iguais aos originais.
       Ao passar pelo ptio de brita, viu dois rapazes sarem de uma barraca. Os dois eram altos, mas concentrou-se em apenas um deles. Tenso, estacou, retendo o 
flego.
       Ao mesmo tempo que absorvia cada detalhe do filho, tratou de se esconder. Era difcil associar aquele rapago  criana que guardava na lembrana. Gostaria 
de se aproximar e abra-lo, a carne de sua carne. Sentiu lgrimas nos olhos. Como pudera ser idiota a ponto de desprezar o amor que poderiam ter partilhado?
       Jack crescera desde que o vira na Jamaica e estava mais forte, tambm. Ria de algo que o outro rapaz disse, o caula de Jon, Joss. Pareciam irmos, os traos 
de Jon e dele mesmo evidentes em cada semblante.
       Jack golpeou o brao de Joss, de brincadeira, negando alguma insinuao. Sem saber seguiam na direo de David, que se embrenhou mais nas sombras.
       -  Levei o aqurio, sim - dizia Jack. - Ela nem estava l. Ainda estava trabalhando. E da?
       - E da? Por que foi l, se no gosta dela? - caoou Joss, rindo. - Voc mesmo disse que a preferia.
       - Posso ter dito isso, mas no significa que... Vamos, estou morrendo de fome. Espero que tia Jenny tenha feito aquela torta para o almoo.
       Para alvio de David, eles mudaram de direo e comearam a se afastar.
       Jack... seu filho... A emoo o abalava. No podia exigir que o filho o aceitasse de volta. No tinha direito a nada. Afinal, algum dia se preocupara em dar-lhe 
amor, proteo? De qualquer forma, doa v-lo to perto, saber que poderia se aproximar e toc-lo, porm, incapaz de se mover.
       Honor no tinha outros compromissos. Planejara passar na loja de tintas aps ver Ben Crighton para pegar amostras de cores, entretanto, a redecorao da casa 
era a ltima coisa em sua cabea agora.
       De volta a Foxdean, estacionou na lateral da casa. Antes de saltar, porm, ligou o motor novamente e continuou em frente. No queria entrar em casa ainda. 
Tinha que pensar.
       - Preciso lhe contar algo sobre mim - dissera David, mas ela o impedira.
       Nem o passado nem o futuro lhe interessavam, convencera-se. Tudo o que queria, tudo de que precisava, era o aqui e agora. Quando acabasse, quando a fora 
da paixo entre eles se extinguisse, ficaria feliz em v-lo partir.
       No lhe devia lealdade, nem compaixo, nem apoio. Havia um rea de acostamento  frente e Honor parou o carro. Milhes de relaes estabeleciam-se em seu 
crebro, estava confusa.
       No pensava no crime de David, fraude financeira, roubo. Ele fora desonesto, sim, desprezvel, talvez, mas existiam crimes piores, muito piores. - Ele no 
vai voltar - afirmara Max Crighton, e Honor percebera que Jon e Maddy compartilhavam a mesma opinio.
       Mas ele voltara. Por qu? No por ganho financeiro, apostaria a vida nisso. Ento, por qu? Para reencontrar a filha que o odiava? Para ver o filho que parecia 
estar muito mais feliz com os tios? Para ver o pai... o irmo?
       Por que remoa essas questes? Por que se importava?
       Importar-se com os outros era algo que j havia descartado, pois levava a complicaes e no queria  mais complicaes em sua vida.
       Era ridculo, convenceu-se. Mal conhecia aquele homem. Aos quarenta e quatro anos, estava velha demais para acreditar em amor. A atrao no passava de um 
truque da natureza para garantir a continuao das espcies. O problema era que a humanidade, decidindo melhorar a natureza, transformara algo simples numa trama 
complicada, que ia muito alm da mera necessidade de reproduo. O amor no tinha nada a ver com a urgncia do desejo sexual. Implicava conhecer o outro, dedicar-se 
a ele. Requeria tambm desprendimento e compromisso, e no estava disposta a conceder nenhum dos dois.
       No precisava se envolver, lembrou-se. Podia manobrar o carro, voltar a Foxdean e no comentar nada com David. Os Crighton no imaginavam que David estava 
to perto, morando com ela, e David no sabia quem era seu novo paciente.
       Mas ento, voltando com o carro pela estradinha, relembrou Jon Crighton dizendo, no consigo deixar de pensar nele.
       - Tomem cuidado - alertou Annalise aos irmos. - No podemos danificar o aqurio, afinal, no  nosso.
       Ela no estava em casa quando Jack Crighton entregara o aqurio. Alm de ter de fazer hora extra no restaurante, convencera-se de que no precisava v-lo 
novamente. Para qu?
       Ao chegar, encontrara os peixes j no aqurio emprestado.
       - Jack fez tudo - contaram os meninos.
       - Bom rapaz - comentou o pai, mal-humorado. Annalise no comentou nada, nem contou que Jack a aguardava  sada do restaurante.
       - O que est fazendo aqui? - indagara, rspida.
       - Pensei em lev-la para casa - justificara ele. Levar para casa?
       - No sou criana - defendera-se, hostil. Enquanto cruzavam a praa da cidade, Annalise viu algumas garotas da escola vindo na direo contrria. Ao v-la 
com Jack, ficaram observando.
       -  O que foi? - perguntou ele, notando seu olhar ansioso.
       - Elas vo contar a todo mundo na escola que me viram... que nos viram - esclareceu ela, contrariada.
       - E isso  problema? - indagou Jack, tranquilo. Ela se irritou com a falta de discernimento.
       -  Talvez no para voc. Mas, agora que nos viram juntos, vo achar que...
       Annalise conteve-se, mas Jack adivinhou o restante.
       - Vo achar que estamos namorando?
       -  Isso mesmo. No sei porque est sorrindo - censurou, zangada.
       - Talvez porque gosto da idia - confessou Jack. Ele gostava da idia!
       Annalise no sabia para onde olhar, a ansiedade crescente ao imaginar o que ele pensava em obter dela. Jack tinha dezenove anos e estava a caminho da universidade. 
Provavelmente, j dormira com vrias garotas e acreditava que ela dormira com Pete. Devia acreditar no que diziam sobre as moas Cooke e estar em busca de sexo fcil, 
antes de partir para o mundo. Bem, se ele achava que ela ia se entregar...
       Foi quando os viu... Patti e Pete, saindo do carro dele. Ela agarrou o  brao dele possessiva.
       Annalise sentiu uma onda de dio e, sem pensar nas consequncias, voltou-se para Jack.
       - Pode me beijar, se quiser.
       Beij-la? Jack estava confuso. Por que ela dissera aquilo? Ento, com o canto do olho, viu o outro casal. No sabia se protestava ou se ria. Percebendo o 
desespero nos olhos de Annalise, decidiu no fazer nem uma coisa, nem outra.
       Inclinou-se, abrigando-a dos observadores, encaixou a mo em sua nuca, acariciando-a como um amante, e explicou:
       - Quando eu a beijar, no vai ser no meio da rua. Vai ser num local reservado, muito reservado, e vai ser muito especial. - O tom grave e calculado, reforou: 
- Quando eu a beijar.
       Jack tratou, ento, de enxugar as lgrimas que brilhavam nos olhos dela.
       - Voc  jovem demais... jovem demais - observou, quase lamentando.
       Ento, de repente, abraou-a. Annalise estremeceu com as sensaes que tomaram seu corpo. Confusa, desejou permanecer ali junto dele para sempre.
       Mas Jack a soltou em seguida. Por sobre o ombro dele, ela viu o carro de Pete arrancando da praa ruidosamente.
       Ele a deixara  porta de casa sem dizer se voltaria. Os irmos conversavam excitados sobre a visita de Jack, mas ela realmente no ouvia o que diziam. S 
ouvia a voz suave de Jack dizendo: quando eu a beijar...
       Quando ele a beijasse... Fechou os olhos e cambaleou um pouco.
       
       CAPITULO DEZ
       Honor dirigia devagar pela estradinha. Pela primeira vez, relutava em voltar para casa.
       No queria se envolver no drama de David. Era complicado demais, exigiria demais. Tinha seus prprios conflitos emocionais, por se deixar levar ora pelo corao, 
ora pela razo.
       No admitia nem a si mesma o quanto se magoara ao perceber quem Rourke realmente era e como fora idiota em am-lo. Levara um bom tempo para enxergar o verdadeiro 
carter de Rourke e entender que o homem que amava era apenas fruto de sua imaginao.
       Se aprendera algo naqueia experincia, era que no devia confiar nas emoes. No entanto, l estava ela, permitindo que seu corao a enganasse quanto a David 
Lawrence. No, no era David Lawrence, corrigiu-se. Era David Crighton. O nome de um estranho... e David era esse estranho.
       Por fim, chegou em casa. Parou o carro e saiu devagar. Podia estar errada, ponderou. A semelhana entre David e Jon Crighton podia ser um acaso, talvez houvesse 
outros membros da famlia sobre as quais no sabia nada.
       Quando abriu a porta da cozinha, David estava de costas, examinando um pedao de madeira.
       - Ol, David Crighton - saudou Honor, calma. Ele se enrijeceu. Devagar, largou a madeira e voltou-se.
       - Voc sabe quem eu sou - disse, a voz trmula, o olhar espantado.
       -  Sim, eu sei - confirmou ela, sem emoo.
       -  Voc tem um irmo gmeo chamado Jon, um sobrinho chamado Max, um pai rabugento chamado Ben. Oh, e tem uma filha e um filho... e duas netas.
       David esperou que ela terminasse e, ento, sentou-se  mesa, apoiando a cabea nas mos.
       - Voc sabe de tudo.
       - A maior parte.
       -  Eu ia lhe contar. Eu devia ter lhe contado. -  Ele se levantou e lhe deu as costas. - Voc no vai me querer mais aqui - concluiu. - Vou arrumar minhas 
coisas...
       Honor no tentou det-lo. Ele tinha razo. Seria melhor para os dois se ele partisse. Quando ele voltou  cozinha, indicou um envelope sobre a mesa, sem encar-lo.
       -   o dinheiro que lhe devo pelo trabalho.
       - Mas ainda no fiz nada - protestou David.
       -  Pegue. - Ela fez uma pausa e, ento, perguntou: - Por que voltou? Sua famlia... -  Conteve-se.   
       -  Eu no sei - murmurou David. - Padre Incio disse que eu devia voltar.
       - Padre Incio?
       -  uma longa histria. No quero aborrec-la. Desculpe-me por...
       - Ter me levado para a cama? - completou Honor, com um sorriso torto.
       -  No, nunca - negou David. - Nunca lamentaria uma experincia to... No, no lamento por isso - repetiu, e dirigiu-se  porta.
       Honor no se voltou para v-lo partir. Sentia um n na garganta e os olhos ridos, embora as lgrimas estivessem presentes. Lgrimas aceitveis numa garota, 
porm ridculas numa mulher madura.
       David j devia ter passado pelo jardim e tomado a estrada a essa altura. Para que lado iria? Para Haslewich ou...
       Sem poder resistir, Honor correu para a porta, escancarou-a e saiu.
       Ele j estava mais longe do que imaginara e precisou chamar duas vezes antes que ele parasse e se voltasse.
       -  Est indo na direo errada - informou, rouca. - Haslewich...
       Ele meneou a cabea.
       - No h nada para mim l. Eu no devia ter voltado.
       No havia amargor na voz, s uma dor que fez Honor sentir o corao diminuir.
       - No v - pediu, suave, estendendo a mo.
       - No est falando srio.
       - Sim, estou - confirmou Honor.
       Com isso, ps-se na ponta dos ps e o beijou com paixo.
       - No devia fazer isso - grunhiu David, contra sua boca. - E eu no devia permitir.
       - Venha para casa - pediu Honor.
       -  Casa. - Ele sorriu amargurado.
       -  Sim. Para casa... - repetiu Honor.
       Por um instante, ela achou que ele ia recusar. Prendeu a respirao. Ento, aliviada, viu-o dar meia-volta.
       Honor bocejou e olhou para o relgio. Passava das trs da madrugada. No acreditava que ela e David Lawrence Crighton, o nome completo dele, tivessem conversado 
por tanto tempo.
       David lhe contara tudo, sem excluir nada, e ela sentira lgrimas nos olhos vrias vezes, no apenas por ele, mas pelos outros personagens tambm. A pobre 
e infeliz Tiggy com sua desordem alimentar e vida fragmentada, o irmo, Jon, os filhos, Olvia e Jack.
       -  Gostaria de conhec-lo - declarou Honor, quando ele lhe contou sobre padre Incio.
       - Eu tambm gostaria que o conhecesse - respondeu David, abraando-a, estreitando-a junto a si. - Ele me ensinou tantas coisas, ajudou-me a descobrir a verdade 
sobre mim mesmo. Gostaria de conversar com todos, curar meus traumas. Vi Jack hoje - revelou. - Ele estava na feira de artesanato de seu primo, trabalha l, acho. 
Jon o educou muito bem.
       -  Ele  seu filho, David - observou Honor, gentil.
       Ele meneou a cabea.
       - No. Eu sou pai s no papel. Dele e de Olvia. Pobre garota. Meu pai sempre foi rude com ela e eu piorei ainda mais as coisas.
       -  Seu pai  responsvel por muitos dos problemas - opinou Honor.
       - No. Culp-lo  muito fcil. Eu podia, devia, ter sido mais forte. Magoei tantas pessoas, Honor, e nao sei... Seria uma sada fcil culpar meu pai por minhas 
faltas, mas... A certa altura da vida, as pessoas so livres para fazer suas escolhas, para reconhecer as influncias recebidas e aceit-las, ou corrigi-las. Isso 
 amadurecer,  se tornar adulto - analisou. - Eu percebia o que meu pai fazia, mas gostava do efeito sobre meu ego. Achava-me no direito de fazer tudo o que quisesse. 
-  Fitou-a. - Tem certeza do que est fazendo, pedindo para que eu fique?
       - Acho que sim - respondeu Honor, confiante.
       -  A sua famlia no vai gostar - alertou-a. - Suas filhas... - Ele fez uma pausa, avaliando seu semblante. - Ou prev que nosso relacionamento ser breve 
e estar acabado antes que...
       -  No! - interrompeu Honor, to veemente que ela mesma se espantou.
       No pensara na famlia, nem no futuro ao correr atrs dele e convenc-lo a ficar. At aquele instante, no entendera a necessidade, mas tudo lhe parecia claro 
de repente.
       - No me olhe assim - pediu David, voltando a abra-la. - Eu no mereo, Honor. Eu no a mereo.
       -  Como o seu padre diria, no  voc quem decide - provocou ela, rouca. - Quero voc aqui comigo, David. Quero que fique.
       No declararia que o amava. O que significava aquilo no mundo moderno, onde a palavra amor era to banalizada? Alm disso, a palavra no expressava tudo o 
que sentia.
       -  Deve ser o destino - ponderou Honor. - Nosso carma. Voc deve ser o meu destino, David - concluiu, emocionada.
       -  Como algum to maravilhosa quanto voc pode ter a mim como destino? - sussurrou David.
       - Voc merece um prncipe entre os homens, Honor, um cavaleiro de armadura reluzente. Voc merece um homem de coragem, fora e virtude.
       - Voc tem coragem e fora - afirmou Honor. 
       David meneou a cabea, calando-a com o indicador.
       -  No diga isso - implorou. - Ns dois sabemos que no  verdade.
       -   verdade, David - insistiu Honor, sria.
       - A verdade  o que est acontecendo agora, neste momento. Talvez, no passado, no fosse verdade, mas teve coragem o bastante para voltar. Voc demonstrou 
coragem.
       - E virtude? - questionou, severo.
       -  Os motivos que o trouxeram de volta no so virtuosos? - questionou Honor.
       - No sei - admitiu David. - Por que voltei, afinal? - Meneou a cabea. - Realmente, no sei.
       - s vezes, a vida  como a curva de um rio - comparou Honor, reconfortante. - Alm da curva, nunca se sabe o que vir,  preciso enfrentar o obstculo com 
f e esperana.
       - Voc  minha f e minha esperana - confessou David.
       Carinhosa, Honor estendeu a mo e o tocou no rosto. Tinha lgrimas nos olhos quando ele lhe tomou as mos e as beijou, lentamente. Um dedo de cada vez... 
e ento as palmas... e ento os pulsos... e ento...
       - No toquei em nenhuma mulher desde que eu e Tiggy nos separamos - revelou David, mais tarde com Honor em seus braos. Mantinha-a apertada junto ao corpo, 
como se no suportasse distncia maior. - E por muito tempo em nosso casamento... eu no fui... eu no consegui... O que sinto por voc  totalmente novo para mim. 
No sei definir. Quero que saiba que o que sinto por voc  o que tenho de melhor, Honor.
       - Eu sei - afirmou ela.
       Honor se sentia protetora em relao a David, ante a preocupao genuna dele por ela, ante o espanto com a intensidade dos prprios sentimentos.
       O passado de David, com toda a dor e todos os erros, era passado, e pessoalmente, ela considerava mais louvvel um homem que cometera erros e honestamente 
os reconhecia do um que negava ter cometido qualquer irregularidade.
       Abigail e Ellen ficariam estarrecidas, claro, com seu comportamento impetuoso e imprudente. Lembrariam que era uma mulher de posses considerveis e, por isso 
mesmo, alvo potencial de aproveitadores que procuravam mulheres das quais se aproveitar, mas Honor sabia que David no era um deles.
       - Conte-me como foi sua visita  minha famlia - pediu David, de repente, ansioso. - Como ele est... o que ele disse? Ele falou de mim ou.,.
       -  Seu pai? - indagou Honor. 
       - Ele... David negou, aflito. - No. Estou falando de Jon. Disse que o viu em Queensmead.
       Jon, seu irmo... seu gmeo. Agora, Honor sabia por que ele voltara, ainda que ele mesmo no percebesse.
       -  Sim, ele estava l - confirmou Honor. - Ele... Eu gostei dele - declarou. - Tem um relacionamento maravilhoso com o filho.
       - Filho. - David franziu o cenho. - Qual deles? Ele tem dois, Max e Joss.
       - Max - respondeu Honor. - Eu vi Max em Queensmead.
       - Max? - David lutou contra a prpria inveja. - Max e Jon nunca foram chegados. Quando menino, Max era mais ligado a mim do que a Jon. - Ao ver a expresso 
de Honor, reprimiu seus sentimentos novamente. - Eu sei que Jon e Max tm um relacionamento muito melhor agora. Estou contente por eles. Era meu pai quem dizia que 
Max devia ser meu filho e Olvia, filha de Jon.
       Honor no disse nada, digerindo a nova informao.
       David obviamente dava grande importncia ao relacionamento com o irmo. Honor percebera a ansiedade em sua voz ao perguntar de Jon, mas desconfiava de que 
ele no aceitaria se ela dissesse que o motivo de sua volta era o gmeo.
       Compreensvel. Ela mesma vivera essa situao com as filhas, vendo como era difcil para a mais velha admitir que precisava da mais nova. Talvez, inconscientemente, 
David sempre soubesse que Jon era o mais forte, apesar da determinao do pai em impor o contrrio. Possivelmente, por isso, David aceitara a separao que o pai 
criara entre eles, usando-a para manter os sentimentos a salvo.
       - Jon no vai querer me ver, claro - disse David. - Se estivesse no lugar dele, eu me sentiria da mesma forma, portanto, no posso culp-lo. Voc disse que 
tia Ruth reps o dinheiro que tomei - acrescentou, e fechou os olhos. - Ainda acordo  noite com esse pesadelo, no aceito o que fiz, temo ser descoberto, mas, ao 
mesmo tempo, desejo ser. Eu s queria emprestado... s um pouco... por algum tempo. Eu tinha uma dica de investimento, algumas cotas, mas o mercado... - Deu de ombros. 
- Estava to certo de que conseguiria  lucro  que  gastei  antecipadamente  e, quando o preo das aes caiu, no apenas fiquei sem dinheiro para repor, como me 
vi devendo centenas de libras. Foi quando comeou. Tomei mais algum "emprestado" para pagar o banco. Tiggy e eu vivamos alm das nossas posses, mas tentar moralizar 
os gastos dela era como... Bem, ela no fazia idia. Claro, agora vejo o que no via antes, o que no queria ver, que ela tinha uma personalidade com tendncia  
obsesso e eu, com meu egosmo, levei-a a... - Conteve-se. - No tenho desculpas, assim como no espero que Jon me oua.
       - Acho que  mais fcil do que imagina - contou Honor, calmamente. - Eles estavam muito cientes do quanto seu pai deseja a sua volta. Acho que por causa dele 
e por nenhum outro motivo...
       - Como est meu pai? - indagou David.
       - Fisicamente, est forte, mas espiritualmente... - Honor meneou a cabea. - Ele est no fim da vida, David, e carrega um fardo pesado, de dor emocional.
       - Por minha causa?
       -  No, por causa dele mesmo - esclareceu Honor. - No estado fsico dele, uma pessoa feliz, um homem que se permitiu amar os filhos com generosidade, poderia 
viver mais uma dcada, mas seu pai... Ele o quer de volta, mas quer de volta a imagem que ele criou.
       - Voc me lembra cada vez mais o padre - declarou David. - Ele me disse a mesma coisa. Talvez eu no deva voltar. Talvez deva ficar longe... longe de suas 
vidas.
       - E ficar escondido aqui em Foxdean comigo. - Honor riu. - Bem, eu com certeza no vou me opor.
       - Voc entende, no ? Que no tenho nada, que minhas nicas posses so literalmente as roupas que visto, que nunca poderei sustent-la financeiramente do 
jeito que merece?
       -  Dinheiro no  importante. No para mim - assegurou Honor. - Voc pode consertar o telhado e a casa. Tambm pode consertar a ferida em meu corao e em 
meus sentimentos - acrescentou, rouca.
       - Dinheiro pode no ser importante para voc, mas aos olhos do mundo...
       - Os olhos do mundo no so importantes, tampouco. O que vejo com meus olhos  o que importa - declarou Honor.
       -- E o que est vendo? - indagou David, hesitante.
       Honor sabia que a resposta significava muito para ele.
       - Vejo voc, David. Vejo um homem cuja humanidade e fora aquecem meu corao, sem mencionar seus atributos menos esotricos e mais fsicos, que alimentam 
meu corpo e meus desejos carnais. - Rindo, conseguiu aliviar a tenso dele.
       - Ento, no sente amor por mim e sim, desejo sexual? - provocou David.
       - Humm... - Honor inclinou a cabea e considerou a questo. - Diria que  uma boa mistura das duas coisas, uma excelente mistura.
       David a trouxe para junto de seu corpo j excitado.
       
       - Olvia?
       - Sim? - respondeu ela, voltando-se para Caspar, mantendo a caneca de caf entre eles.
       - Reservei passagens para Nova York.
       - Passagens? - Ela sentiu um aperto no estmago. A ltima coisa de que precisava era outra briga com o marido, pois tivera um pssimo dia.
       Representava uma mulher num processo de divrcio particularmente complicado. Na reunio que tiveram pela manh, ela comeou a chorar e declarou que no queria 
se separar do marido. Ento, sem almoar e reprogramando todos os compromissos, conseguira pegar Amlia na aula de dana. A professora a chamara  parte para informar, 
glida, que as roupas e sapatos da menina j no lhe serviam.
       -  Esto apertados? Mas por que ela no me disse? - ponderou Olvia, irritada.
       - Talvez no tenha conseguido - considerou a professora, dura. - No outro dia, comentou que a me estava sempre muito ocupada...
       Sentindo remorso com a repreenso da professora, fora at Chester, onde as lojas ficavam abertas at mais tarde e comprara material novo para Amlia.
       -  Isso mesmo - confirmou Gaspar, sucinto. - Vamos partir no final de semana antes do casamento e voltaremos na noite seguinte, assim.,.
       - Ns vamos? - questionou Olvia.
       -  Sim, ns vamos - repetiu Caspar. - Fiz reservas para ns quatro.
       - Voc no pode levar as meninas - alertou Olvia.- Eu...
       - Acho que no estava ouvindo, Olvia - interrompeu ele, sombrio. - Eu disse que fiz reservas para todos ns.
       - Voc sabe que no posso ir. J tnhamos descartado esse assunto e no quero mais falar sobre isso - decretou ela. - Se voc precisa ir, ento v, mas eu 
no vou com voc.
       -  Ento, eu e as meninas teremos que ir sozinhos.
       - Voc no vai lev-las sem mim - protestou Olvia, furiosa.
       - Elas so to minhas filhas quanto suas, Olvia, e eu vou lev-las comigo. Se voc vem ou no conosco  escolha sua. No vou mudar os planos. Haver um lugar 
para voc, se mudar de ideia.
       - Quer ir a Chester hoje  noite? Jack hesitou antes de responder a Joss:
       - ... no, no posso... eu planejei outra coisa.
       - Outra coisa? Que coisa? - indagou o primo, mais curioso ao ver Jack enrubescer, constrangido.
       - Nada importante.
       - Nada... - Joss pensou um pouco. - E, no tem a ver com Annalise, tem? - adivinhou, rindo ao ver a expresso de Jack, denunciando que acertara na mosca.
       -  Eu disse aos garotos que passaria l para ver os peixes - esquivou-se o primo.
       - Ou para ver a irm deles? - provocou Joss.
       - Parece cansada, Maddy. O que foi? - indagou Max, ao entrar na cozinha, largando a pasta numa cadeira. - Vov andou aprontando de novo?
       - Ele est meio rebelde hoje - relatou a esposa.
       - Onde ele est? No escritrio? - Max j seguia para o corredor.
       - Max, no diga nada. Ele no faz de propsito e entendo que as crianas devem fazem muito barulho e baguna, s vezes. Esta  a casa dele, afinal.
       -  E isso o que ele diz a voc? - questionou Max. - Queensmead pode ser a casa dele, Maddy, mas  voc que a torna um lar. Se ele anda aborrecendo... - Calou-se, 
assustado ao v-la chorar. - Querida, o que foi?
       Ele cruzou a cozinha e a abraou. Ela soluava tanto que ele se compadeceu. Faria o av se desculpar, apesar da idade.
       - Maddy... Maddy, por favor, conte o que est acontecendo. Se cuidar da casa e de vov  trabalho demais para voc, diga. Podemos nos mudar. Para que uma 
manso deste tamanho afinal? Uma casa moderna de quatro quartos e...
       Calou-se novamente ao perceber que a esposa tremia. Ansioso, afastou-a um pouco para ver-lhe o rosto. Ela ria agora, meio histrica.
       -  No podemos - informou, corada, o olhar tmido. - Quatro quartos no sero suficientes. No agora. Ns...
       - Ns... o qu?
       - Estou grvida, Max - declarou ela. - Eu... eu devia ter previsto, acho, mas estava to ocupada e nada voltava ao normal aps o nascimento de Jason, por 
isso, no tomei... no estava.,. Mas fui a uma consulta de rotina hoje e...
       - Voc est grvida? - repetiu Max, confuso. - Mas...
       - No estvamos planejando ter outro, eu sei - interrompeu Maddy. - Mas... bem, eu no estava... voc no estava... e... - Embaraada como uma adolescente, 
simplesmente   declarou:   - Quando voc me toca, esqueo-me de que j sou uma mulher casada e me... Max, pare de me olhar assim!
       Sem flego, protestou levemente quando o marido a abraou e beijou no ventre macio.
       - Outro beb - sussurrou Max. - Oh, Maddy! Sabe o que isso significa, no sabe? - Aprumando-se, tomou-a nos braos, o olhar cheio de amor e alegria.
       -  Como v, no poderemos nos mudar para uma casa menor - concluiu a esposa.
       - No, pior que isso. - Max inclinou a cabea para sussurrar junto a seu ouvido. - Primeiro Jason e, agora, este beb. Todo mundo vai saber que no conseguimos 
ficar separados.
       - Oh, Max...
       - E ento?
       - Voc est me provocando, mas... tem certeza de que no se importa?
       - Importar? Por que deveria me importar? Voc  quem vai carreg-lo... por nove meses. Tudo o que tenho a fazer  parecer orgulhoso e receber os cumprimentos. 
Humm... Acho que um homem se sente mais homem quando a mulher fica grvida.  algo primitivo e atvico, acho.
       -  Seja l o que for, no foi planejado - observou Maddy.
       - No. De qualquer forma, no vou suportar.
       - No vai suportar o qu? - indagou Maddy, confusa.
       -  No vou suportar vov atormentando voc. No pode cuidar dele e de quatro crianas, Maddy - observou, gentil. - J me sentia mal quando eram s trs.
       - Mas eu gosto de morar aqui em Queensmead - declarou Maddy. - E, a maior parte do tempo, Ben no  to mau. S fica rabugento porque sente medo e solido, 
s vezes.
       - Vou conversar com minha me.  uma pena no podermos encontrar David. Se vov mudar o testamento e deixar Queensmead para meu tio sumido, vamos ficar com 
uma mo na frente e outra atrs.
       - Se pudssemos encontr-lo, fico imaginando se ele nos venderia a propriedade - considerou Maddy.
       - Significa tanto para voc? - indagou Max.
       -  a nossa casa, Max,  uma parte de sua herana Crighton. A histria de sua famlia est aqui.
       - Bem, se vov no mudar o testamento, no teremos problemas. Mas se ele deixar Queensmead para David... oua, no quero que se preocupe com isso... no quero 
que se preocupe com nada! - Ele sorriu. - Posso contar para todo mundo ou quer manter segredo por enquanto?
       - Pode contar - respondeu Maddy. - Na verdade, desconfio de que sua me j sabe. Ela veio outro dia aqui e, quando fiquei enjoada, ela disse que podia ser 
um beb chegando. Eu estava to certa de que no era que neguei. Devo desculpas a ela... Max, o que est fazendo? - questionou, ao v-lo pegar a luva de cozinha.
       - Vou preparar o jantar. Voc pode descansar - esclareceu, autoritrio.
       -  Oh, Max, voc no pode, est de terno... - protestou Maddy, mas acabou cedendo.
       Determinada a ignorar a presena de Jack e dos irmos, Annalise concentrou-se na lio de casa. Sentira o corao to disparado meia hora atrs ao abrir a 
porta que precisara levar a mo ao peito.
       At seu pai mostrava-se animado com a revitalizao dos peixes sob os cuidados de Jack.
       Irritada, refez o exerccio, mas no conseguia deixar de ouvir a voz rouca de Jack. Ele tinha uma voz sensual, se bem que ela no era do tipo que se impressionava 
com essas bobagens, claro. No queria saber de rapazes, por ora. Todas as manhs, ainda temia ir  escola, porque os colegas j sabiam que Pete a dispensara...
       - Alguma dificuldade?
       Sobressaltada,  viu que  Jack  se  afastara do aqurio e j estava a seu lado, bisbilhotando em suas anotaes. Tentou esconder o caderno, mas era tarde demais. 
Ele j lera.
       -  No  uma das minhas matrias favoritas -  defendeu-se, enrubescida.
       Para sua surpresa, em vez de caoar, ele quis ajudar:
       - Est indo bem, mas, se fizer assim, acho que vai sair mais fcil...
       Annalise nunca se achara boa em matemtica, embora a professora a incentivasse a tirar os crditos. Impressionada com a facilidade com que Jack analisou e 
resolveu todos os problemas, chegou a perder o flego. Ou seria porque ele se inclinava sobre ela ao escrever no caderno?
       -  O que vai fazer quando obtiver os crditos? - indagou Jack.
       -  ... no sei ainda.
       Secretamente, desejava ir para a universidade estudar arte, mas isso custava dinheiro... dinheiro que o pai no tinha. Desconfiava de que teria de arrumar 
emprego fixo em perodo integral e, talvez, frequentar curso tcnico.
       J aprendera um pouco de computao na escola e continuar naquela rea parecia uma boa idia. A indstria automobilstica era forte naquela regio e outras 
grandes multinacionais tambm estavam se instalando, incluindo a Aarlston-Becker, que contratava recm-formados do segundo grau e estagirios.
       No  queria  discutir nada daquilo com Jack Crighton, nem lhe revelar seu sonho secreto de estudar artes e, um dia, us-las como forma de ganhar a vida. Ento, 
simplesmente deu de ombros e no disse nada.
       -  Ela precisa passar nos exames primeiro - ralhou o pai, de olho nos dois. - E isso significa passar mais tempo estudando e menos tempo papeando com os amigos.
       Annalise no pde deixar de protestar:
       - Pai!
       -  Bem, no venha me dizer que no recebeu lio de casa extra por no ter se sado bem - acusou o pai, severo. - No sou to burro.
       Desanimada, Annalise mordiscou o lbio. Era verdade que no tirara boas notas nos ltimos testes de matemtica, mas era porque...
       -  Esta nunca foi minha matria favorita - resmungou.
       -  A matemtica  implacvel - comentou Jack, pensativo. - No d margem a diferenas ou interpretaes imaginativas. Ou est certo, ou est errado, por isso 
as pessoas ficam apreensivas e nervosas com essa matria. Se est com dificuldade, talvez eu possa ajudar - ofereceu-se, olhando no para ela, mas para seu pai, 
o que a deixou envergonhada e zangada.
       Quem ele pensava que era? Podia no ser to inteligente, mas nem por isso permitiria que ele bancasse o superior...
       - Bem, se no for tomar seu tempo... - disse o pai.
       Annalise arregalou os olhos.
       - Pai!
        Mas era tarde demais.
       Ele e Jack j combinavam os horrios, como se ela no fosse capaz de decidir nada sozinha.
       Annalise cerrou os dentes, mas teve que esperar at Jack se levantar para ir embora, quando o acompanhou at a porta.
       - Por que tinha que dizer ao meu pai que podia me dar aulas particulares? - disparou, por entre dentes cerrados. - Eu no preciso... - Hesitou ao notar o 
modo como Jack a fitava.
       Ele lhe analisava a boca como se... como se... Sentiu uma excitao nervosa, a boca seca e os lbios... Instintivamente, passou a lngua sobre os lbios para 
umedec-los. Jack avanou um passo e a segurou pelos braos.
       Ele era mais forte do que imaginava e, assim to perto, parecia maior, mais alto, mais largo, muito mais homem. O olhar faminto a deixava tonta e...
       O pai a chamou l de dentro, quebrando o momento.
       - Preciso ir - declarou, trmula. - Eu... oh... - Prendeu a respirao quando Jack lhe deu um beijo forte e ardente na boca.
       - Volto amanh - declarou Jack, a voz grave. Ele j se afastara quando ela se lembrou de que pretendia lhe dizer para no aparecer mais. Por que ele a beijara 
daquele jeito? Por que ele... Sentiu um arrepio de excitao. O que estava acontecendo? No podia estar se apaixonando por Jack Crighton. Nem gostava dele e, alm 
disso...
       Annalise fechou a porta, recostou-se contra a madeira e fechou os olhos. O que era se apaixonar por algum? Pensava que amava Pete. Ao ser escolhida por ele, 
sentira-se to bem, to orgulhosa, a garota mais invejada da escola. Mas ento, ele passara a pressionar para fazerem sexo, zangando-se muito com as recusas dela.
       Quanto a Jack, j no simpatizara ao conhec-lo e tinha conscincia da diferena social entre eles. Os Crighton eram ricos, influentes e respeitados na cidade, 
enquanto que sua famlia... O que Jack queria com ela? O mesmo que Pete? Sentiu o pnico crescer.
       Quando ele se aproximava, sentia algo excitante e assustador, algo que a confundia e preocupava. No sabia se o que sentia era amor, mas sabia que era perigoso. 
Algum como Jack Crighton s podia querer uma coisa dela, e sabia o que era... sexo! Ele a convenceria a ir para a cama e ento seguiria para a universidade, esquecendo-se 
dela.
       Umedeceu os lbios, ainda ardentes do beijo de Jack. Fechando os olhos, podia reviver aquele momento. Estremeceu. Quando ele voltasse, no dia seguinte, teria 
que enfrent-lo sozinha. O pai no estaria em casa e os irmos planejavam visitar um amiguinho.
       Devia contar ao pai o que achava que Jack queria? Se contasse, ele suspenderia as visitas imediatamente. Era isso o que queria ou... Trmula, Annalise voltou 
para a sala.
       CAPITULO ONZE
        - Assim est bem melhor.
       Do alto de uma escada, trabalhando no caixilho de uma janela, David sorriu para Honor, l embaixo.
       A tarefa de restaurar Foxdean agradava-o. Na verdade, sentia mais satisfao executando o trabalho braal do que advogando no mundo das leis, sua profisso 
na vida anterior.
       Quando desceu da escada, Honor ainda o aguardava. Sorriu consigo mesmo ao imaginar a reao do pai se tivesse acesso a seus pensamentos.
       -  Meu primo me telefonou agora h pouco - comentou Honor, enganchando o brao no dele. - Ele me convidou para jantar l no domingo.
       - Voc vai? - indagou David, abrindo a porta da cozinha.
       - Voc vem comigo? - quis saber ela. David suspirou.
       J fazia alguns dias que Honor descobrira sua verdadeira identidade... dias de harmonia e alegria. Ele at considerara que ela acabaria se aborrecendo com 
a companhia s dele, mas ela nem cogitara a idia. A noite, aps fazerem amor, permanecia acordado, imaginando o que o futuro lhe reservava.
       -  Honor... - comeou ele, hesitante, detendo-se ao ver as lgrimas nos olhos dela.
       Ela ainda tentou disfarar virando o rosto.
       -  Eu sei... - murmurou. - Estou sendo tola e irresponsvel. Claro que voc no pode ir.  possvel que ele tenha outros convidados e um deles pode reconhec-lo.
       -  Honor - disse David, gentil. Dessa vez, ela o encarou, insegura, tentando adivinhar o que ele ia dizer. - No vai dar certo. No posso continuar me escondendo 
aqui como um eremita e no posso exigir isso de voc.
       - Voc mudou de idia. Vai partir. - Ela estava tensa, plida e o olhar...
       Houve pocas, aps abandonar a famlia, em que se detestara, odiara-se mesmo, mas aquilo no era nada em comparao ao que sentia naquele instante. Estava 
magoando Honor, magoando-a profundamente, e isso era a ltima coisa que desejava.
       Ela engoliu em seco. Ento, surpreendendo-o, indagou:
       - Faria diferena se eu dissesse que estou disposta a ir com voc? Eu poderia, voc sabe. Afinal, no h nada que me prenda aqui, nada...
       -  Mas voc adora esta casa. Voc disse isso.
       -  Adoro, sim - concordou Honor, baixando o rosto. Mesmo assim, David identificou a emoo na voz. - Mas eu o amo mais.
       -  Faria isso por mim? - questionou David, incrdulo.
       -  Sim, faria,
       -  Ento, voc  uma tola - respondeu ele, spero. - No v o que vai acontecer se eu concordar, se eu permitir? Acabaramos vivendo como dois fugitivos, 
correndo sempre, e haveria a parania de sermos descobertos... essa parania mataria o que... o que sentimos um pelo outro. No. Alm disso, tenho uma idia melhor.
       Ela se posicionou como algum que receberia um golpe e David desejou     abra-la, proteg-la, am-la, mas no podia... no agora... no ainda.
       - No posso deixar que viva assim, Honor. Voc merece mais... e melhor. Voc precisa de um homem que possa ter abertamente a seu lado, um relacionamento que 
todos reconheam. Eu tomei minha deciso.
       Honor prendeu a respirao, e sentiu a dor... No suportaria perd-lo, no agora, mas no podia mant-lo contra a vontade.
       -  Vou telefonar para Jon e dizer a ele que voltei. Vou perguntar se ele quer me ver... se podemos conversar.
       Honor o fitou, o olhar cintilante de emoo.
       -  No me olhe assim - pediu David, capitulando  tentao de abra-la. - Venha c e me deixe... oh, Honor... Honor...
       David sentia as ondas de emoo varrerem o corpo delicado enquanto a beijava sedento. Moviam-se desajeitados em sua necessidade mtua de se tocar. Ele apalpou 
um seio, quente e j familiar. Ela o acariciou, provocou, massageou.
       Fizeram amor com voracidade, desespero, como se as ltimas pontes de cautela despencassem. No havia mais barreiras entre eles, s compromisso e reconhecimento 
da intensidade do que sentiam.
       - Voc teria mesmo desistido da casa? - sussurrou David, contra a boca de Honor, sem desistir dos beijos.
       -  De tudo... de qualquer coisa - assegurou Honor, irresponsavelmente.
       - No ser fcil - advertiu David, mais tarde, com Honor aninhada a seu lado, o sol do entardecer destacando as curvas de seu corpo. Ela era muito feminina, 
no como uma adolescente, porm ciente de sua maturidade.
       Ela ria, com ternura, quando lhe dizia o quanto era bonita.
       - A natureza  sbia - retrucou. - A medida que aumenta as rugas, diminui nossa capacidade de v-las!
       - Devo inform-la de que minha viso  perfeita - respondeu David, falsamente ofendido.
       - Sei - provocou Honor. - To perfeita que precisou pr o jornal a cinco centmetros do nariz para ler as manchetes hoje cedo. - Tem certeza de que quer telefonar 
para Jon? - perguntou, sria. - Eu levei o remdio e a dieta que preparei para seu pai esta manh, quando fui ao supermercado. Ele parecia um pouco melhor.
       Honor fez uma pausa, traando com a unha uma figura complicada no trax masculino.
       - Havia duas outras crianas l, duas meninas, e no eram de Maddy. Acho que podem ser suas netas. - Franziu o cenho quando ele a segurou pelo pulso.
       - As filhas de Liwy?
        Honor assentiu.
       -  Sim.
       David fechou os olhos.
       - Liwy ficou to zangada comigo quando soube do problema de bulimia da me, e com razo. Eu devia ter feito algo, procurado ajuda profissional, porm, fiz 
de conta que no estava acontecendo nada. Como so as crianas?
       Honor apurou a memria e descreveu:
       - No se parecem muito com voc. So morenas... mas tm algo...
       -  Caspar  moreno - lembrou-se David. - Se foi com ele que ela se casou...
       -  Sim, ouvi Maddy se referindo a ele... Algo sobre um casamento nos Estados Unidos.
       - Sim, Caspar  americano. Liwy o apresentou a ns pouco antes de...
       - No precisa fazer isso - repetiu Honor, falando srio.
       -  Sim, preciso - corrigiu David. - Foi por isso que voltei, afinal. Se Jon no quiser me ver, ento...
       - No vai fazer nenhuma diferena para mim - adiantou ela.
       David meneou a cabea e explicou, carinhoso:
       -  Sim, vai. E se Jon e o resto da famlia decidirem que esto cansados de me proteger? E se eles decidirem ir a pblico contar o que fiz? No posso exp-la 
a essa situao, Honor, ser rotulada como esposa de um mentiroso e ladro.
       Esposa! Honor sentiu o corao dar um pulo.
       - Vamos dar um passo de cada vez.
       Meia hora depois, estavam de volta ao trreo. David foi  saleta e ficou olhando para o telefone.
       - Estarei na cozinha se... se precisar de mim - avisou Honor.
       - No - disse David, estendendo a mo. - No. Por favor, fique. Quero que fique aqui comigo.
       Ela voltou e pousou a mo na dele. No precisaram procurar o nmero. David sabia de cor, mas tinha as mos trmulas ao discar.
       - Telefone! - anunciou Jenny, quando o aparelho comeou a tocar ocupada em aparar a borda de uma torta. - Telefone, Jon! - repetiu, mais alto. Ento, limpando 
as mos no avental, foi atender.
       - Eu atendo - disse Jon, chegando primeiro.
       - Bolas - resmungou a mulher, voltando para a torta.
       Maddy e Max haviam telefonado dez minutos antes, avisando que iriam passar por l e, logo depois, Katie chegou com o marido Seb e os filhos gmeos para lhes 
confiar a chave de casa, pois iriam passar alguns dias de frias em Yorkshire. Distrada, Jenny ouvia a conversa de Jon enquanto abria o forno e alojava a torta.
       -  Sim,  - respondeu ele, tranquilo. De repente, alterou o tom, como se ficasse nervoso. - Eu sei... Reconheceria sua voz em qualquer lugar!
       Do outro lado da linha, David agarrava o telefone com as mos suadas.
       - Jon? - perguntou, embora tivesse reconhecido a voz do irmo gmeo imediatamente. A confirmao, revelou: -  David...
       Sentindo um n na garganta, por alguns segundos no conseguiu dizer mais nada. A seu lado, Honor o acariciava, incentivava.
       - Eu gostaria de v-lo Jon... de conversar com voc.
       Enquanto aguardava a resposta do irmo, tremia tanto que mal conseguia segurar o aparelho.
       Houve uma longa pausa, longa o bastante para David se arrepender de ter feito a ligao, longa o bastante para achar que Jon o rejeitaria.
       Como que conduzidos por uma fora mstica, os outros membros da famlia convergiram da sala de estar para a cozinha, conversando animadamente. De repente, 
calaram-se. Assim como Jenny, pressentiam a importncia do que estava acontecendo.
       - Onde voc est? - indagou Jon, visivelmente abalado.
       Embora no tivessem ouvido a primeira parte da conversa, exceto Jenny, todos ficaram tensos e aguardaram em silncio, observando Jon ser tomado pela emoo.
       - Eu... eu no estou muito longe - respondeu David, rouco.
       - Voc pode... pode vir aqui? - indagou Jon. Honor ouviu a pergunta e assentiu vigorosamente.
       -  Sim, sim, posso - concordou David. - Quando...
       - Agora - afirmou Jon, emocionado. - Agora! -  E desligou o telefone. Voltou-se para Jenny, - Era David - informou. - Ele... ele vir aqui. Est vindo!
       Jon estava plido de emoo e a mulher deixou-se contagiar.
       -  David! - repetiram os outros, com vrios graus de incredulidade.
       -  Tio David? - indagou Katie.
       -  Meu pai? - murmurou Jack.
       -  Sim - confirmou Jon, e olhou para Jenny. - Acho que preciso de uma bebida...
       Os demais disparavam perguntas:
       -  Onde ele est?
       -  O que ele quer?
       -  Por que voltou?
       - No sei - disse Jon, meneando a cabea. Sentia-se zonzo e talvez no fosse sensato beber.
       Estava em choque, claro, mas... deveria ficar to surpreso? Afinal, no tinha... Mas no. Esse no era o motivo da volta de David. No podia ser.
       -  Jon, David deu alguma indicao de onde estava? - indagou Jenny.
       Ele a fitou com expresso distante.
       - No. Ele no... eu no... Oh, no acredito que esteja realmente acontecendo aps tanto tempo - desabafou, emocionado. - Ele est aqui, finalmente. David... 
David! E se ele mudar de idia? - Passou a andar pela cozinha, ansioso. - Eu devia ter ido ao encontro dele. Deve estar ansioso, nervoso, com medo... eu devia ter 
ido at ele.
       Ao ouvir o marido, Jenny no pde evitar o desejo de proteg-lo, seu Jon! David o magoara muito no passado e, mesmo assim, Jon estava quase em estado de graa 
com a perspectiva de rever o irmo.
       Em Foxdean, Honor encorajava David.
       - Vai ficar tudo bem. Ele no teria concordado em v-lo se... Eu levo voc at l.
       -  No - recusou ele. - Eu consigo...
       - No, no consegue - corrigiu Honor, decidida.
       - Vire  esquerda aqui - orientou David. Honor seguiu a instruo. Surgiu o perfil de uma casa.
       - Vou deix-lo no porto e volto para c para esper-lo - combinou ela.
       Ao chegarem  casa, Honor acendeu a luz interna do carro e contemplou o rosto transtornado de David. Parecia plido e, estranhamente, mais jovem.
       - Vai ficar tudo bem - repetiu ela, beijando-o na boca de forma quase maternal.
       Todos ouviram a campainha tocar, mas ningum se moveu.
       - Jon... - chamou Jenny.
       - Eu vou - ofereceu-se Max. 
       Jon meneou a cabea.
       - No... no - disse, trmulo. 
       Maddy tocou no brao de Max.
       - David quer ver seu pai - observou.
       - Sim, porque sabe que papai sempre foi compreensivo. Se ele pedir dinheiro, pai... - Calou-se ante a expresso de Jon, percebendo que fora impertinente.
       Jon foi atender  porta. Jenny olhou ao redor na cozinha. Joss e Jack estavam prximos, Katie, o marido e os filhos ocupavam um canto, Maddy mantinha-se junto 
de Max com a mo no ventre, tendo j anunciado a nova gravidez.
       Jenny ficara feliz ao saber que ganharia mais um neto, mas agora o prazer e o entusiasmo arrefeciam ante o choque e o temor. No queria que David voltasse. 
No queria que Jon voltasse a ser a pessoa retrada de antes do desaparecimento do gmeo. No suportaria v-lo sofrer novamente, como antes, quando seu pai o ridicularizava 
constantemente, depreciando suas realizaes, enquanto elevava David aos cus. Acima de tudo, no queria reconhecer o que lera no olhar de Jon!
       Ouviu a porta da frente se abrir e ficou tensa.
       Jon no podia se contentar com o que tinha, uma mulher que o amava, uma famlia? Reservaria sempre uma parte, a parte mais importante de si, para David? O 
que mais a magoava era Jon nunca ter mencionado que sentia falta do irmo, nunca ter mencionado que queria a volta dele. Jon respirou fundo e abriu a porta.
       - David...
       - Jon...
       - Venha... entre.
       Por algum motivo, Jon conseguiu no abrir os braos para o irmo. No queria que David soubesse como aquela reunio era importante para ele. Devagar, recomendou 
a si mesmo. No o sufoque, no o assuste, no o aliene. No o           sobrecarregue com seu amor... com a sua necessidade. Tentou disfarar o espanto quanto  
aparncia de David. Esperara reencontrar o mesmo que desaparecera anos antes, mas o homem que conduzia o escritrio sempre em ternos elegantes no existia mais.
       David estava mais alto ou seria apenas uma iluso de tica? Com certeza, emagrecera e torneara os msculos. Os dentes pareciam mais brancos contra a pele 
bronzeada e os olhos pareciam mais azuis.
       - No tinha certeza se concordaria em me ver - comentou David, rouco, quando entraram no escritrio. - Se fosse voc...
       -  No. Estou contente por estar aqui. Nosso pai... - Jon pigarreou, sentindo a emoo crescer.
       Afinal, por que deveria se importar agora com o fato de David ser o filho favorito? 
       - Ele no anda muito bom.
       -  Sim. Eu sei - declarou David.
       -  Sabe?
       -  Sim. E... h algum... uma amiga... - David hesitou. - No quero falar sobre nosso pai, Jon. Ainda no. Preciso lhe dizer algo antes, algo importante, 
e... - Respirou fundo. - No vim aqui pedir seu perdo, nem mesmo sua compreenso. Por que me concederia isso? Eu no mereo. No fiz nada para merecer isso. Pelo 
contrrio. Mas o que quero dizer  que lamento muito t-lo decepcionado. Todas as vezes em que fui vergonhosamente fraco e egosta, todas as vezes em que coloquei 
minhas necessidades em primeiro lugar, todas as vezes em que me omiti quando nosso pai...
       Aproveitando a pausa, Jon fez um gesto, como se dispensasse o resto, mas David prosseguiu:
       - No, no  fcil falar sobre isso. E, como disse, no estou pedindo nem esperando que me perdoe nem por minha ganncia, nem pela destruio do lao que 
devia ter valorizado e celebrado.
       -  Nosso pai... - comeou Jon, David meneou a cabea.
       -  Nosso pai pode ter sido vtima da prpria infncia, mas isso no me isenta de culpa. Logo percebi que tudo o que ele me dava tinha um preo, e era voc 
quem pagava. Voc era o bode expiatrio, Jon, e eu deixei que fosse. No posso pedir que me perdoe por isso... nem posso me perdoar.
       - David, por que voltou? - interrompeu Jon. 
       David o encarou, confuso.
       -  Realmente no sei. S senti... - Deu de ombros.
       -  Que nosso pai precisava de voc? - sugeriu Jon.
       - No - declarou David, seguro, o tom baixo.
       - No. Eu voltei, Jon, porque precisava de voc. 
       Por um momento, encaram-se. Ento, David viu lgrimas nos olhos de Jon e, sem hesitar, deu o primeiro passo para abraar o irmo. Os velhos hbitos, a educao 
que o pai dera, na qual meninos, homens, nunca mostravam suas emoes, esquecera-os ao presenciar a misria humana trabalhando com padre Incio.
       Sentiu um grande alvio ao abraar Jon, era como se fosse parte de si mesmo.
       - Senti a sua falta - declarou David, sombrio.
       Jon retribuiu o abrao, sem palavras para descrever as emoes que o avassalavam. Quantas vezes quando criana, menino, rapaz, desejara abraar o irmo? Quantas 
vezes tivera que se enrijecer para suportar a dor da rejeio de David? Para suportar a impossibilidade de poderem se aproximar?
       - Eu pensei em voc... muito - confessou Jon, rouco.
       - Eu tambm - admitiu David. - Eu o amo, Jon. Senti muito a sua falta! - Antes que o irmo se recuperasse do choque da declarao, revelou:
       -  Na Jamaica, sonhei com voc, foi quando o padre...
       - Padre? - questionou Jon.
       -  uma longa histria - explicou David, triste.
       - Max e Jack foram  Jamaica atrs de voc - contou Jon.
       David franziu o cenho.
       - Sim, eu sei.
       -  Nosso pai queria muito que voc voltasse. Praticamente s fala nisso... fala mais at que do que no cargo de Max como conselheiro da rainha.
       - Max  conselheiro da rainha?
       - Sim. Ele trabalha em Chester com Luke, filho de Henry. Mora em Queensmead e a esposa, Maddy,  quem cuida de nosso pai. Ele e Maddy esto aqui e, por acaso, 
Katie, o marido e as crianas. -  Jon fez uma pausa e declarou: - Estou contente por voc ter voltado.
       Palavras simples mas que significavam muito.
       - Nosso pai  um idiota - concluiu David. - Voc sempre foi o melhor de ns dois. Isso no mudou.
       -  No sei quais so os seus planos, mas no que se refere  sociedade... - Jon respirou fundo. No havia um modo fcil de tocar nesse assunto. - Voc  meu 
irmo, David, e como tal, sempre ser bem-vindo em minha casa e em minha vida, mas...
       -  Mas no h lugar para mim na sociedade -  completou David, sombrio. - Como poderia, depois do que eu fiz? Durante anos, negociei com as suas qualificaes 
profissionais, induzindo as pessoas a acreditar que eu era o advogado inteligente, permitindo que voc me desse cobertura, que me protegesse. No apenas permitia, 
mas esperava que assim o fizesse, por ser um direito meu. Eu era um mentiroso e um ladro, Jon, e tive sorte em no ser pego e ir para a priso. Sei que tia Ruth 
reps o dinheiro que eu roubei.
       Apesar das declaraes prticas, os irmos comungavam emocionalmente, o amor flua entre eles como uma onda rpida que derruba todas as barreiras e leva embora 
todas as impurezas, as mgoas, o passado.
       -  Sim, ela reps - confirmou Jon. - No sabia se devia permitir que ela dispusesse desse dinheiro, mas...
       - No foi por isso que voltei... por dinheiro, por bens materiais. - David deu de ombros. - Na Jamaica... - Hesitou. - Sei que tenho duas netas.
       - As filhas de Olvia, sim.
       Jon afligiu-se ao pensar na provvel reao de Olvia ao saber da volta do pai. Ultimamente, observava-a com ateno, estimulado pela preocupao de Jenny, 
e reconhecia que a sobrinha tinha problemas. Mesmo assim, sempre que tentava conversar com Olvia, ela se esquivava e o mantinha a distncia.
       -  Precisamos discutir muitas coisas - disse David. - Mas preciso ir... uma pessoa est esperando por mim.
       - Quem? - indagou Jon.
       -  Uma amiga, Honor - contou David, tranquilo. - Acho que a conheceu recentemente.
       Jon queria fazer tantas perguntas, mas ainda estava em estado de choque, no apenas com a volta inesperada do gmeo, mas tambm com sua mudana de atitude. 
Vivia emoes semelhantes s que experimentara no nascimento dos filhos. Alegria, incredulidade, humildade ante o milagre da vida, amor imensurvel, gratido a Deus 
por ter corrido tudo bem, senso de proteo. David estava de volta. Sentia o corao inflado de amor e alegria diante do irmo.
       - Jack est aqui - comentou. - Acho que ele quer v-lo.
       -  Ser? - David parecia indeciso. - Eu o vi outro dia em Fitzburgh Place. Lembro-me dele como um garotinho, mas j  um homem agora.
       -  E um bom rapaz, David - assegurou Jon.
       - Sim... graas a voc.
       - Ele  seu filho - insistiu Jon, a exemplo de Honor.
       - Talvez, mas foi voc que o criou, Jon, e, quando chegar  idade adulta e olhar para trs, vai agradecer a voc por tudo o que aprendeu, por ser o homem 
que .
       Voltando no tempo, David lembrou-se de Jack pequeno, na cozinha com Tiggy. Ela exagerara na bebida e na comida e as evidncias estavam por toda parte. Plido, 
o menino olhava acusador para os pais.
       - E eles vo querer me ver? - indagou David.
       - Vou buscar Jack - decidiu Jon.
       -  Onde ele est?
       -  O que ele quer?
       -  Ele j foi?
       - No lhe deu dinheiro, deu?
       Jon entrou na cozinha ignorando as perguntas. Foi direto ao sobrinho.
       - Seu pai, gostaria de v-lo, Jack, mas ele entende se voc no... se voc achar...
       Jack hesitou. Fazia mais de uma hora que David chegara, uma hora na qual permaneceram todos na cozinha entreolhando-se, incrdulos. Uma hora fazendo comentrios 
irados, uma hora relembrando episdios desagradveis do convvio com David.
       -  Mas ele  muito impertinente - irritou-se Max. - E se acha que vou ficar parado e deix-lo tratar papai como costumava...
       - No sei como Olvia vai reagir a isso - comentou Katie com o marido.
       - Tio David. No posso acreditar - murmurou Joss, meneando a cabea.
       Somente Jenny permanecia calada, plida. Jack queria abra-la, mas se continha, pois ela poderia refut-lo, dizendo que era mesmo o filho de David. Agora, 
tio Jon voltava  cozinha e lhe dizia que seu pai queria v-lo.
       Por um momento, pensou em se recusar a ir. No por maldade ou hipocrisia, mas porque... estava com medo. Simplesmente.
       De qu? De ter um pai mentiroso e ladro ou de ver no olhar do pai o mesmo olhar de indiferena e impacincia que ele lhe dedicara durante toda a sua infncia?
       Instintivamente, endireitou os ombros. Aprendera muito sobre a importncia do respeito, pelas outras pessoas e por si mesmo, convivendo com Jon e Jenny. Se 
David, seu pai, no lhe tinha respeito, ento o azar era dele, convenceu-se.
       - Ele est no escritrio - disse Jon, acompanhando-o pelo corredor.
       Jack deteve-se antes de entrar.
       -  Entre comigo - pediu ao tio. Jon hesitou e ento assentiu.
       -  Se quer assim. - Sentia-se protetor em relao a Jack, como se fosse seu filho, sempre disposto,  atento a sua vulnerabilidade e necessidades.
       David. estava diante da janela, em atitude defensiva.
       -  David, Jack est aqui - anunciou Jon. 
       Quando o pai se voltou, Jack prendeu a respirao.
       Ele parecia diferente, mais semelhante a tio Jon do que se lembrava. O rosto magro no apresentava o queixo duplo. Emagrecera bastante. Por baixo da camisa, 
delineavam-se os msculos. O sol jamaicano clareara seu cabelo nas laterais, enquanto Jon apresentava fios grisalhos. De qualquer forma, ainda se assemelhavam de 
forma impressionante. Sempre fora assim, claro, mas, quando criana, achara tudo normal. Com certeza, no se lembrava de reparar na semelhana entre o pai e o tio.
       - Jack - cumprimentou David, o nervosismo aparente.
       -  David - respondeu Jack, impassvel. No iria cham-lo de pai. No podia.
       Silenciosamente, avaliaram um ao outro. Jack era quase to alto quanto o pai ou o tio e talvez ainda crescesse mais, alcanando Max, mas seu corpo ainda apresentava 
caractersticas juvenis.
       Tinha anos de perguntas acumuladas, mas o orgulho o emudecia. Diante dele, estava o homem que os abandonara,  me,  irm e a ele. Ali estava o homem que 
nunca mostrara interesse paternal, o homem que... Imaginava o que era no se sentir amado? Cogitar qual seria seu defeito para que fosse rejeitado pelo prprio pai? 
Mas as faltas do pai no eram sua responsabilidade. Disso j se convencera, aps inmeras conversas com tio Jon.
       - Jack - ralhou Jon. Mas David o interrompeu.
       -  No, ele tem razo, Jon. Eu no tenho o direito de ser chamado de pai e ele faz bem em me lembrar disso. - Voltou-se para o filho. - Teve sorte, Jack. 
Recebeu uma boa educao e um bom exemplo de Jon e Jenny. Esse  um presente que jamais receberia de mim. Uma das coisas de que mais me envergonho  ter abdicado 
ao meu papel de pai com voc e Olvia - declarou, sincero.
       -  E quais so as outras? - questionou Jack, rspido.
       David encarou o filho. Percebeu que Jack no confiava nada nele. Bem, no merecia outra coisa.
       -  Por exemplo, minha inabilidade em ver o presente precioso e insubstituvel que ganhei na pessoa de meu irmo.
       Ele parecia sincero, mas Jack no se convenceu. Queria acreditar em David, mas e se fosse apenas uma farsa?
       - No precisa acreditar em mim, Jack - declarou David, como se lesse seus pensamentos. -  minha tarefa ganhar sua confiana e sua f. S estou pedindo uma 
chance. Com a concordncia de Jon pretendo ficar por aqui.
       - Em Queensmead? - indagou Jack. 
       David sorriu.
       - No, tenho outros planos.
       -  Vov anda falando em lhe deixar Queensmead, mas Max e Maddy esto morando l e por direito...
       - Jack! - protestou Jon.
       -  Queensmead  o ltimo lugar onde eu gostaria de morar - afirmou David, - Minhas lembranas de l no so das melhores.
       - Diz isso agora - rebateu o filho, rancoroso.
       Jon preferiria que Jack  no levantasse aquele assunto, mas ficou tocado pela preocupao do sobrinho em defender Max, com quem sempre se relacionara bem.
       - Estou dizendo a verdade - declarou David, calmo, mas com firmeza. - No voltei para reclamar nenhuma herana, Jack, e, se meu pai pensa em deixar Queensmead 
para mim, direi a ele que vou transferir a propriedade imediatamente ao herdeiro de direito... Max. - Voltou-se para Jon com um olhar interrogativo. - A menos que...
       - Eu no a quero - adiantou Jon. - Minhas lembranas de l so ainda mais tristes do que as suas, embora deva admitir que Maddy transformou-a num lar confortvel.
       - Se no voltou por causa de Queensmead, por que foi ento? - indagou Jack, rude.
       - Eu... - comeou David. Mas Jon veio em sua defesa.
       -  Basta, Jack. Seu pai no precisa explicar por que decidiu voltar para casa.  suficiente ele estar aqui.
       Podia ser suficiente para tio Jon, no para ele. No era suficiente mesmo, decidiu Jack.
       - Sei em que est pensando, Jack, e no o culpo - declarou David. - Em seu lugar, provavelmente estaria menos disposto ainda a conceder o benefcio da dvida. 
S conheo algum to bondoso quanto voc, Jon. O padre... e mesmo ele...
       -  Que padre? - questionou Jack. David explicou rapidamente.
       - Trabalhou com ele cuidando de doentes? - O filho parecia incrdulo.
       - Uma tarefa improvvel para a reparao de meus pecados, eu sei - concordou David. - Mas, mesmo assim, foi o que eu fiz, embora, na poca, no estivesse 
pensando nos pecados e, sim, no estmago. Sem trabalho, sem comida... foi o que o padre me disse.
       Jon viu no olhar de Jack o incio de respeito pelo pai. Experimentou um sentimento de perda, mas rapidamente o suplantou. Jack precisava acertar a diferena 
que tinha com o pai, precisava questionar e entender as foras que motivaram David e precisava ouvir isso do prprio. Ainda que no houvesse nenhum outro benefcio 
com o retorno de David, para Jack, o valor era incalculvel, principalmente nesse estgio de seu amadurecimento.
       - Aquele relgio est certo? - observou David, de repente. - Preciso ir. Honor est me esperando...
       - Honor... - comeou Jon, mas David j procurava a sada e no pareceu ouvi-lo. - Vou acompanh-lo.
       A porta da frente, David voltou-se para o irmo. Sem dizer nada, abraaram-se.
       -  melhor contar a nosso pai que voc voltou - comentou Jon.
       -  Sim - concordou David. - E Olvia... Olvia. Jon sentiu uma dor no corao. Decidiu alert-lo j. 
       - Olvia... as coisas... as coisas no andam bem para ela no momento. Ela est sob presso e... No espere muito dela - avisou, cauteloso.
       Dentro do carro, Honor ficou tensa ao ver a luz que vinha do vestbulo se projetar para fora. David estava de costas, conversando com o irmo. Viu quando 
se abraaram e suspirou aliviada.
       - Como foi? - indagou, quando David entrou no carro.
       - Conversei com Jon e Jack - contou ele. - Jack estava zangado comigo, com todo direito e...
       - Jon... como foi com Jon? O que ele disse? - interrompeu Honor.
       -  Jon foi Jon - descreveu David. - Ele foi mais magnnimo do que eu merecia. Disse que sentiu a minha falta - acrescentou, emocionado.
       - Voc disse que sentiu a falta dele tambm? - indagou ela, gentil. David sorriu com ternura.
       - Sim - admitiu. - Disse.
       De repente, mais do que tudo no mundo, David precisava da segurana do amor daquela mulher. Queria lev-la para casa e fazer amor. Queria se perder nas sensaes, 
queria aliviar o sofrimento na aceitao irrestrita de Honor.
       - No vai ser fcil - comentou. - Jon me disse isso. Jack acha que voltei para reclamar Queensmead. - Meneou a cabea, triste. - No posso culp-lo por achar 
que sou avarento e aproveitador. Afinal, eu era assim. Mas, pelo menos, parece que no vou ser expulso da cidade... embora merecesse. - Fez pausa, reflexivo. - Vai 
contar  sua famlia... s suas filhas... sobre o que eu fiz? - indagou David.
       Honor o fitou, mas no respondeu. Ligou o carro e manobrou.
       - Voc se aborreceria se eu contasse?
       -  Por sua causa, sim - reconheceu David. - Mas se elas ouvirem a histria de outra pessoa... Desconfio de que vo ficar relutantes em me aceitar... um vagabundo, 
sem residncia fixa, sem renda...
       -  Voc no  vagabundo,  um Crighton - corrigiu Honor, divertida. - Tem uma residncia fixa, chamada Foxdean, e como renda... Seu ego masculino ficaria 
ofendido se eu dissesse que tenho o bastante para nos sustentar e que fico feliz com isso? Podemos fazer tanta coisa, David - declarou, entusiasmada, sem esperar 
resposta. - A casa... mas isso  s o comeo. Preciso de um companheiro, no apenas para partilhar a cama, mas para partilhar tudo, a vida. As ervas que cultivo 
no so nada em relao ao que a natureza pode prover. Quero viajar... aprender... e quero voc comigo. Voc vem?
       David no lhe respondia. Ansiosa, encarou-o. Talvez ele a achasse idiota com sua animao, planos, esperanas, idealistas demais, segundo as filhas.
       -  David?
       Ele voltou o rosto para ela.
       - Sim, eu vou, mas s se voc se casar comigo - condicionou.
       -  Casar?
       Ele mencionara casamento antes, mas ela no sabia se falava srio.
       -  Se eu aceitar, entende que as meninas vo querer que assinemos um contrato pr-nupcial?
       -  Eu assino qualquer coisa, desde que fique com voc - declarou David, suave. - No quero o seu dinheiro, Honor. Eu quero voc.
       -  Gostaria de me casar no topo de uma montanha - revelou ela, sonhadora. - Em algum lugar alto e espiritual, algum lugar remoto e pacfico. Somente ns e 
nossos votos.
       -  Eu conheo esse lugar - assegurou David.
       -  Na Jamaica - adivinhou ela.
       -  Na Jamaica - confirmou ele.
       -  Jenny, o que foi? - indagou Jon.
       -  Nada - esquivou-se ela. - Foi um dia agitado...
       -  Sim, eu sei - concordou o marido, sentando-se na cama para descalar as meias.
       Deitada de lado, de costas para ele, ela tentava evitar que visse o medo em seus olhos.
       -  Contei como David parecia diferente? Ele est diferente, Jen - comentou, entusiasmado. - Podia ver, sentir.  estranho, sabe, nunca acreditei nessa tal 
intuio que supostamente existe entre irmos gmeos, mas esta noite...
       Jenny sentia dor no corao ao ouvi-lo. Estava acontecendo como previra... como temia. Ele j estava sob o encanto de David.
       -  S falou com ele por pouco mais de uma hora, Jon - observou ela, - E ele no explicou direito por que voltou. Oh, eu sei o que ele lhe disse, mas como 
vamos saber que est dizendo a verdade?
       - Jenny! - censurou Jon. - Pelo menos tente dar-lhe o benefcio da dvida. Qual  o problema? No  de seu feitio essa atitude antagnica. Voc normalmente 
 a primeira a mostrar compaixo e tolerncia.
       O que podia dizer? No queria lembr-lo de que David quase arruinara seu casamento, quase destrura seu amor, no uma, mas duas vezes. Quando ele desapareceu, 
foi como se uma nuvem negra se instalasse entre eles.
       -  No posso acreditar como foi fcil conversar com ele. Como me senti prximo a ele - explicou Jon.
       Jenny conteve-se para no chorar. Era como se David se colocasse entre eles mais uma vez, como se ele fosse mais importante na vida de Jon do que ela.
       - Vou ter que contar a Olvia o que aconteceu, claro.
       - Ela no vai gostar - alertou Jenny.
       - De incio, no - concordou Jon. - Mas tenho certeza de que mudar de idia quando vir e conversar com David.
       David... David... David. Jenny j estava cansada desse nome. Por que... por que ele voltara?
       
       CAPITULO DOZE
        - Jack...
       Ele franziu o cenho e voltou-se para Annalise.
       -  Desculpe-me. O que voc disse?
       Ele comparecera, como combinado, mas no tentara convenc-la a ir para a cama. Parecia preocupado, com os pensamentos longe. Seria outra garota?, imaginou, 
ciumenta.
       - O que foi? Qual  o problema? - indagou ela.
       - Meu pai voltou - explicou ele.
       - Seu pai? - Annalise o fitou. Como todo mundo em Haslewich, sabia que David Crighton desaparecera sem deixar explicao.
       -  Sim, eu o vi ontem  noite. Ele telefonou para tio Jon e depois foi l em casa e... - Retomou os livros. - Estou aqui para lhe dar aulas particulares, 
no para falar de meu pai.
       - No, quero ouvir mais - disse Annalise. Sempre imaginava como reagiria se sua me voltasse. No que ela tivesse desaparecido. No como o pai de Jack. Ela 
simplesmente os abandonara para ir morar com outro homem.
       - No. Estou aqui para ajudar voc, lembra-se? - ralhou Jack, severo.
       Uma hora depois, Annalise meneou a cabea, desanimada.
       - No adianta. Estou piorando.
       - Voc est exigindo demais de si mesma - consolou ele. - Vai chegar l. S precisa de mais tempo e algumas aulas mais. - Franziu o cenho. - Tenho que ir 
para a universidade na semana que vem, mas... - Fez uma pausa. - Vou estar de volta para o Natal. Terei mais tempo, ento.
       - No precisa me ajudar - declarou Annalise.
       -  No, no preciso - concordou ele. - Mas eu quero.
       -  Por qu? - desafiou ela.
       - Por que voc acha? - respondeu ele, rouco, fitando os lbios dela.
       Annalise sentiu o corao disparar.
       - Eu no vou para a cama com voc - avisou.
       - No quero levar voc para a cama - declarou Jack, severo. - Para comear, voc ainda no est pronta e depois...
       Annalise o fitou. Nunca esperara aquela resposta de um homem.
       - Voc no quer - declarou ela, surpresa demais para manter a cautela. - Mas...
       - Eu no disse que no quero - corrigiu ele, sombrio. - S disse que no vamos... pelo menos, no ainda.
       - No ainda... - Annalise nunca imaginou que o corao pudesse bater to rpido.
       - No, no ainda - repetiu Jack. - No enquanto... - Deteve-se. - Vai escrever para mim, Annalise?
       Escrever para ele... Confusa, ela ergueu-o olhar para ver se ele estava apenas brincando. Jack lembrou:
       - No vai demorar para os feriados de Natal e ento...
       -  Voc no vai me beijar? - indagou ela, a voz ligeiramente trmula.
       -  Se eu beijar, acho que no vou conseguir parar - respondeu Jack, meneando a cabea.
       Ento, para arrepio de Annalise, ele grunhiu e a tomou nos braos.
       Beijar algum e ser beijada era uma experincia bem distante da vida rotineira, descobriu Annalise, estonteada.
       -  Oh, Jack - sussurrou, encantada, quando ele finalmente a liberou.
       -  O que foi? - Ele sorria, carinhoso.
       - Precisamos mesmo esperar?
       -  Sim, precisamos - afirmou ele, soltando-a. - Prometa que vai me escrever.
       - Prometo - declarou Annalise, ardente.
       - Livvy, tem um minuto?
       - S um, tio Jon - respondeu Olvia, quando o tio a interceptou no corredor.
       Ele a segurou pelo brao e conduziu  sala dele.
       - Mas o que foi? - questionou ela, estranhando a atitude.
       Quase no dormira  noite. Caspar e as meninas iam viajar para os Estados Unidos em dois dias, mas no poderia acompanh-los, de forma alguma. Caspar estava 
enganado se achava que podia pression-la, chantage-la, a mudar de idia.
       - Liwy, no h um modo fcil de lhe contar - comeou Jon, com tato. - Seu pai voltou.
       - Meu pai. - Olvia encarou-o interrogativa. - No, no pode ser. Ele jamais voltaria a Haslewich. No se atreveria. No depois do que fez. Ficaria com medo 
de ir para a priso, que  onde merecia estar.
       - Olvia, por favor, oua-me - implorou Jon. - Sei como est zangada com o que David fez. Eu me sentia assim tambm, mas...
       Calou-se ante a expresso da sobrinha. Ela parecia ver alm dele.
       - Liwy, venha c, sente-se um pouco.
       Jon conduziu-a gentilmente pelo brao. Olvia se sentia tensa e fria, o corao apertado. Ansioso, ele entendia a reao, cheio de amor e compaixo. Desde 
criana, Olvia sempre fora muito sensvel, orgulhosa, e se retraa para esconder os sentimentos dos outros. Mas ela no era mais uma criana e quis encoraj-la 
a chorar, a desabafar o choque e a dor, mas sabia que isso s faria com que se retrasse ainda mais.
       - Eu no quero me sentar - respondeu ela, desvencilhando o brao. - S quero saber o que est acontecendo. Ele no pode voltar assim. Ele... 
       Ela estava em choque, percebeu Jon, notando de repente como ela emagrecera nos ltimos dias. Seria melhor esclarecer:
       - Ele voltou porque...
       - Porque precisa de dinheiro,  isso o que est dizendo? Qual  o problema, tio Jon? Ele ficou sem velhinhas ricas?
       Olvia tornava-se histrica, andando em crculos pela sala. Ao receber a notcia, empalidecera, mas agora tinha o rosto afogueado e o olhar cheio de mgoa 
e ressentimento.
       -  O que ele espera de ns? Pagamento para ir embora de novo?  isso o que ele pretende, nos chantagear? Algum j disse a Ben que ele voltou?
       Jon no se lembrava de quando Olvia parara de usar o termo vov. Jenny achava que foi logo aps o nascimento da segunda filha, quando Ben observou que Max 
fora o primeiro a presente-lo com um neto.
       - No, vou ver Ben mais tarde - comentou. - Ele vai ficar animado, claro, mas muita agitao na idade dele...
       Jon calou-se ante o olhar acusador da sobrinha.
       -  Como pode se mostrar to calmo depois do que meu pai fez? Ele quase arruinou a sua vida, a vida de todo mundo. Chegou perto de destruir tudo o que voc 
conquistou. E, por causa dele, minha me...
       -  No, Olvia - interrompeu Jon, severo. - Os problemas de sua me podem ter se agravado com o casamento turbulento, mas, sabemos, pelos mdicos e pelos 
pais dela, que j sofria de desordem alimentar na adolescncia. Naquele tempo, ainda no se estudava esse problema...
       -  Tio Jon, no sei como pode ficar a, calmamente, falando sobre o que aconteceu, dessa forma! - explodiu Olva, o corpo trmulo. - Meu pai no tem o direito 
de voltar s nossas vidas e, com certeza, no vai voltar  minha. Ele lhe disse onde est, o que anda fazendo, por que foi embora?
       -  Sim - comeou Jon. - Ele...
       - No. No me conte. No quero saber. - Olvia fitou-o, transtornada. - Por que deveria? Ele no quis saber de ns... de mim. Eu era apenas a filha que ele 
nunca quis. A nica pessoa com quem ele se importou algum dia foi ele mesmo. Corrijo, inclua Ben e Max, mas ele mesmo sempre em primeiro lugar.
       - Liwy, isso no  verdade - protestou Jon. - Seu pai mudou... sofreu...
       -  Sofreu! Como? Sofreu por no ter acesso s contas bancrias dos clientes ricos? O que ele faz para viver? Ele lhe disse?
       Jon no se surpreendeu com o amargor de Olvia, mas ficou desapontado. Esperava encontrar alguma brecha em sua armadura que permitisse persuadi-la a, pelo 
menos, ouvir o que o pai tinha a dizer, mas agora...
       - No quero v-lo, tio Jon - declarou Olvia. - No vou v-lo. - Como Jon no respondeu, prosseguiu, emotiva. - Faz idia do que  ser filha dele? De como 
 carregar seus genes e saber que, no importa o quando trabalhe, as pessoas sempre vo ficar de olho, esperando que eu me torne uma ladra?
       Jon estava chocado demais com o desabafo para controlar a expresso ou a reao. Imediatamente, foi at ela e tentou segur-la, mas ela se desvencilhou e 
foi para a janela, ficando de costas para o tio.
       - Liwy, querida - implorou Jon. - Entendo o quanto est magoada... com o comportamento de seu pai, mas achar... acreditar... Eu lhe garanto que, dentre as 
poucas pessoas que sabem o que seu pai fez, ningum acredita, nem por um minuto, que voc... - Foi incapaz de terminar a frase. Ainda estava abalado com o desabafo 
dela. Era como atravessar um campo minado de palavras. Esse tipo de situao requeria o toque gentil e seguro de Jenny, no sua abordagem direta.
       - A famlia toda compartilha o mesmo estoque gentico, Liwy - observou, racional. - Se o que disse se aplicar a voc, ento,  igualmente aplicvel a todos 
ns. O que seu pai fez foi errado... ningum est sugerindo o contrrio... mas achar que voc pode, de alguma forma, sendo filha dele...
       -  muito fcil para voc dizer isso agora - acusou Olvia, colrica. - Mas percebo o jeito como me olham. Luke... Saul... Max... eles s esto esperando 
que eu caia na armadilha.
       Jon estava horrorizado. Nunca lhe ocorrera que Olivia se sentisse assim e era significativo que ela se referisse somente aos membros masculinos considerando 
que no era a nica mulher da famlia a ter uma carreira, pelo contrrio. Diante daquele quadro, tinha que reconhecer que a sobrinha no apresentava um estado normal. 
As palavras "parania" e "obsesso" vieram-lhe a mente, mas rapidamente descartou a hiptese. Olvia s estava sofrendo com o choque e com a presso da carga de 
trabalho que assumira.
       - Liwy, seu pai s quer uma chance para conversar com voc... para se desculpar... para ver as netas - declarou, gentil.
       - No! - Olvia voltou-se, o olhar obscurecido pelo amargor. - De jeito nenhum. Meu pai nunca vai chegar nem perto das meninas. Vocs podem fingir que nada 
aconteceu, se quiserem, mas eu jamais farei isso.
       -  Olvia... - protestou Jon, infeliz. Ela meneou a cabea.
       -  Preciso ir. Estarei no frum aps o almoo. Um caso de divrcio... e pretendo garantir que minha cliente obtenha o que lhe  devido. Meu pai no  o nico 
homem mentiroso e trapaceiro infelizmente.
       
       -  Est atrasado - comentou, Jenny quando Jon entrou na cozinha naquela noite.
       -  Sim, desculpe-me. Fui direto do escritrio para Queensmead falar com meu pai.
       -  Contou-lhe sobre David?
       -  Contei.
       -  E como ele reagiu?
       - Muito bem. Comportou-se como se sempre soubesse que David voltaria. Na verdade, foi quase como se David tivesse simplesmente sado de frias, tamanha a 
tranquilidade com que recebeu a notcia.
       - E Olvia? - indagou Jenny. - Ela tambm aceitou com tranquilidade?
       Jon meneou a cabea, cansado.
       - Acho que j sabe a resposta. Ela se recusa a ver David, na verdade... ela parece ter essa... essa crena cega... de que, por ser filha de David e por ser 
mulher, todos esperam que ela... Estou preocupado, Jenny. No sei o que... Voc sabia?
       - Segundo Maddy, Caspar j detectou uma obsesso de Olvia pelos problemas que enfrentou durante seu desenvolvimento - admitiu Jenny. - Achei que era cisma 
dele, aps alguma discusso que tiveram, mas... Ela realmente ficou muito transtornada quando o que David fez veio  tona, eu sei, mas todos ficamos. Talvez, no 
af de esconder a verdade de Ben, nenhum de ns prestou ateno em Olvia, no sofrimento dela. Ento, ela e Caspar se casaram e as crianas vieram... - Franziu o 
cenho. - O que vai dizer a David?
       - Que mais posso dizer seno que ela no quer v-lo? - indagou Jon, triste.
       Nem contaria  esposa que Olvia, antes de sair para ir ao frum, voltara  sua sala para esclarecer:
       - S mais uma coisa, tio Jon. Enquanto vocs correm para recepcionar a ovelha negra da famlia e j que no tenho a inteno de ver ou falar com meu pai, 
ao contrrio de vocs, acho que no visitarei mais Queensmead... nem a voc e Jenny.
       - Sua voz falhara um pouco no final, mas parecia irredutvel.
       -  Liwy... - protestou ele. Mas ela meneou a cabea.
       - No... No vou ser hipcrita e, se ele insistir nisso, eu vou embora, e estou falando srio. Vocs podem deixar o passado para trs e aceitar o filho prdigo, 
mas eu nunca farei isso.
       Jon ficara chocado com a declarao da sobrinha, bem como ansioso e preocupado por ela no ser capaz de cruzar a barreira que construra entre si e o pai.
       Como podia ele, seu irmo gmeo, dar as costas a David e recusar-lhe uma segunda chance? No podia. Mas perder Olvia, que lhe era to cara...
       -  Duvido de que David queira vir aqui - observou.                
       -  Pode no querer, mas Ben, com certeza, espera que ele faa isso - lembrou Olvia.
       Quando ela se foi, Jon deu-se conta de que a sobrinha tinha razo. Entretanto, David deixara claro que no tinha inteno de voltar ao escritrio, o que, 
de qualquer forma, teria sido impossvel.
       Jenny andava pela cozinha, tensa, muito diferente de sua amada esposa, normalmente tranquila.
       - Jenny? - Jon pousou o brao em seus ombros e puxou para junto de si. - Sente-se. Relaxe.
       - No posso - esquivou-se ela. - Maddy esteve aqui  tarde. Disse que Max est como um urso resmungo. Oh, e Saul telefonou para perguntar se era verdade 
que David voltara. Ele disse que soube por Katie e...
       -  Jenny, Jenny... - Jon suspirou. -- Qual  o problema?
       - Voc precisa mesmo perguntar? - indagou Jenny. - David voltou e, de repente, tudo ficou de pernas para o ar. Todo mundo est nervoso e voc, como sempre 
fez, toma as dores dele, deixa tudo fcil e confortvel para ele, coloca-o em primeiro lugar.
       - Jenny, isso no  verdade - protestou Jon.
       -  Sim, ! - reforou ela, colrica.
       - Jenny, com certeza voc, dentre todas as pessoas, concorda que David tem direito a uma segunda chance. Ns somos famlia dele... - Calou-se, aflito, quando 
a esposa se voltou e viu que ela chorava. - Jenny, meu amor, o que foi? - Tomou-a nos braos.
       -  S estou com... com... tanto medo. Acho que tudo vai mudar com a volta de David - confessou ela. - Fomos to felizes nesses ltimos anos, Jon, e eu no 
quero...
       -  A volta de David no vai mudar nada - garantiu ele. - Como poderia?
       -  Eu no sei - admitiu Jenny. Embora Jon a abraasse apertado e a cozinha estivesse quente com o forno aceso, sentia frio por todo o corpo.
       -  Ainda est chocada - concluiu o marido, consolando-a. - Todos estamos. Pensei em convidar David para jantar no fim de semana, para ter um primeiro contato 
com a famlia, para quebrar o gelo, mas se voc prefere...
       -  No. - Jenny meneou a cabea. - Nada pode alterar o fato de que ele ter voltado e, cedo ou tarde, todos ficaro sabendo e vo querer v-lo. Oh, gostaria 
que Ruth no estivesse nos Estados Unidos. Se ela estivesse aqui... E como faremos para convidar Olvia e Caspar? - considerou, de repente. - Eu sei que disse que 
Livvy no estava preparada para falar com David, mas vou telefonar para ela - decidiu.
       Em Queensmead, Maddy e Max tambm estavam na cozinha.
       - Juro que se vov mencionar o nome de David mais uma vez... - ameaava ele, irritado.
       A esposa demonstrava apoio.
       -  Ele est muito eufrico - concordou.
       -  Eufrico! - Max olhou-a enfurecido. - Se algum o ouvisse, pensaria que o mantivemos encarcerado num calabouo e que David precisou chamar as tropas para 
libert-lo.
       Maddy riu.
       -  Anda assistindo a muito desenho animado com as crianas - provocou. Ento, admitiu: - Ben anda meio insuportvel.
       -  Meio? Podia t-lo estrangulado quando comeou a falar que papai nunca se equiparou a David nem nos estudos nem nos esportes. Ele no percebe... - Meneou 
a cabea. - No tenho nada contra David, mas se algum acha que vou ficar parado e deix-lo pisar em meu pai...
       -  Se quer realmente fazer algo herico, acho que Jack e Olvia, principalmente Olvia,  que mais precisam de seu apoio e proteo - observou Maddy, sria.
       - Olvia! Ela e eu nunca fomos muito chegados, e quanto a Jack...
       - Esto passando por um momento difcil, Max, e reagem de forma diferente. No importa o quanto David tenha mudado, no importa que todos ns saibamos que 
ele no merece, vov vai elev-lo aos cus novamente.
       -  Olvia, o que est acontecendo? - indagou Caspar, alarmado, quando entrou no quarto e viu as roupas e as malas de Olvia sobre a arca ao p da cama.
       - O que parece? - respondeu Olvia, irritada. - Estou fazendo as malas.
       -  Fazendo as malas?
       Caspar sentiu o corao falhar. No estavam se dando bem ultimamente. Sabia que ambos eram teimosos, recusando-se a se comprometer ou a ceder, mas a idia 
de Liwy saindo de casa o levava ao pnico.
       -  Sim, fazendo as malas - confirmou ela. - No  isso que as pessoas fazem quando vo viajar? - questionou, cida. - Como  o clima na Filadlfia nesta poca 
do ano, Caspar? No sei qual destes vestidos  melhor para o casamento e, se formos passear tambm...
       - Est fazendo as malas para ir  Filadlfia? -  Caspar no disfarou o alvio. Sorridente, ignorou os protestos da esposa, abraou-a e rodopiou pelo quarto.
       - No, na cama, no, Caspar! - protestou ela, quando ele tentou beij-la. - Acabei de passar essas roupas a ferro.
       - Voc vem conosco! - exclamou ele, eufrico.
       - Oh, Liwy... Liwy... - Ele tentou beij-la mais uma vez, mas ela virou o rosto, afastando-o.
       Ela se sentia irritada e culpada ao mesmo tempo ante a reao do marido, crente em que ela cedera e ele ganhara a batalha, mas no se tratava de uma circunstncia 
corriqueira. Quando Jenny telefonara para dizer que oferecia um jantar de confraternizao no fim de semana para David, mal disfarara a raiva na voz ao desculpar-se.
       - Eu no estarei aqui, Jenny. Caspar, eu e as meninas vamos aos Estados Unidos para o casamento do meio-irmo dele.
       Passara o resto da tarde transferindo e cancelando compromissos, com determinao inabalvel. Se o pai estaria na casa de Jon e Jenny, ento, ela no estaria. 
Era simples assim!
       
       CAPITULO TREZE
       Max, o que est fazendo aqui? .- indagou Olvia, rspida, ao abrir a porta.
       -  Oh, estava s passando e, ento, pensei em entrar. Mame disse que voc e Caspar vo para os Estados Unidos hoje  tarde... um casamento de famlia.
       - Sim - confirmou Olvia, contrariada, ao entrarem no vestbulo.
       Nunca se sentira completamente  vontade com o primo. Havia uma histria de animosidade entre eles, remontando  infncia. Sem dvida, situao criada por 
Ben e seu tratamento diferenciado. Ao longo dos anos, podiam ter adotado uma atitude de tolerncia, mas as razes ainda estavam l... para Olvia pelo menos.
       - Vai lhe fazer bem sair um pouco. Papai contou como anda preocupado com a sua carga de trabalho.
       Tensa, Olvia olhou-o hostil. Max praguejou baixinho. No tinha jeito para tratar desses assuntos e no entendia por que Maddy, normalmente uma mulher perspicaz, 
insistira para que ele conversasse com a prima.
       -   mesmo? - desdenhou ela. - Bem, pois ele no precisa se preocupar. Sou to capaz de realizar meu trabalho quanto qualquer pessoa.
       Max controlou a irritao. Era tpico de Olvia tomar uma atitude defensiva e achar que o comentrio foi proposital quando, na verdade, estavam apenas conversando,
       - Acho que todos ns sabemos, Liwy - tentou amenizar. - Mame est aborrecida por voc no poder ir ao jantar - comentou.
       Olvia ficou tensa.
       - Acho que Caspar ficaria igualmente aborrecido se eu cancelasse minha viagem para cortejar o pai que todos ns conhecemos... - Lbios contrados, declarou, 
friamente: - Se Jenny o enviou aqui para tentar me fazer mudar de idia, est perdendo seu tempo, Max. Eu j disse a Jon que no pretendo ver meu pai novamente... 
nunca... e se isso significa que no vou ver voc novamente tambm, ento, que seja.
       Max tentou no demonstrar o choque. Sabia que Olvia reagira pessimamente  volta do pai, mas no imaginava quo pessimamente.
       -  Oua, Livvy, entendo como se sente... - comeou, mas foi como se tivesse acendido um estopim.
       -  No, no entende! - explodiu a prima. - No entende nada. Seu pai nunca o tratou como se voc fosse um estorvo, um incmodo, um pedao de carne intil 
ao qual desejava nunca ter dado a vida. Ele no ria de voc, no o menosprezava,
       - Liwy! - Max consternava-se ante o desabafo e com a dor contida nele.
       Ergueu a mo para acarinh-la, num gesto instintivo, mas ela recuou.
       - No, no toque em mim.
       - Liwy...
       Ambos se voltaram quando Caspar surgiu.
       - Oh, ol, Max - cumprimentou ele, sorridente, e se voltou para Olvia. - Chamei um txi e pedi que chegasse mais cedo... para o caso de haver trnsito. Est 
tudo pronto.
       -  No vou atras-los - adiantou-se Max. - Preciso voltar para ficar com as crianas. Maddy vai com mame ao supermercado para ajudar com as compras para 
o jantar que vo oferecer a tio David.
       -  David? - Caspar olhou para Max e para Olvia, desnorteado. - Max est falando de seu pai? Mas...
       Tarde demais, Max percebeu que Olvia no contara ao marido sobre a volta de David Crighton.
       - Meu pai reapareceu, sim - confirmou Olvia, raivosa. - Mas, como disse a Max, no quero v-lo nem falar com ele.
       Caspar estava incrdulo.
       -  Olvia...
       Irredutvel, ela se voltou para o primo.
       - Vou acompanh-lo  porta, Max.
       - Olvia, desculpe-me. - pediu o primo, antes de se retirar. - Eu no percebi que no tinha contado a Caspar o que aconteceu.
       -  No contei a ele simplesmente porque no se trata de fato relevante s nossas vidas - explicou Olvia, spera, e abriu a porta.
       - Olvia, se importa em me explicar o que est acontecendo? - indagou Caspar, quando ela voltou para a cozinha, minutos depois.
       Ela olhou para o relgio.
       - A nica coisa que est acontecendo, que eu saiba,  que em cerca de... cinco horas estaremos voando para Nova York.
       - Olvia, no se faa de tola. Voc sabe do que estou falando. Por que no me contou que seu pai voltou?
       - Talvez porque no seja algo que queira conversar com voc - replicou ela, sarcstica.
       - Mas eu sou seu marido! - explodiu Caspar. - O que est acontecendo? Seu pai volta depois de ficar desaparecido por anos e voc age como se... como se nada 
estivesse acontecendo. - Passou a mo no cabelo, nervoso. - As vezes, Liwy, voc... Por isso mudou de ideia quanto a ir ao casamento? - questionou, bravo. - Responda!
       Olvia deu-lhe as costas e tomou o corredor.
       - Vou chamar as meninas, est quase na hora do almoo.
       Caspar encostou a testa na madeira fria do armrio. No adiantava iniciar outra discusso. No agora. Por que Liwy no lhe dissera nada... No tinha tempo 
para pensar nas complexidades daquela situao. J estava ansioso por causa do casamento, imaginando que tipo de recepo receberia de sua prpria famlia complicada 
e   desunida, sem ter que lidar com os ressentimentos neurticos de Olvia em relao ao pai.
       Sabia que David Crighton no fora propriamente um bom pai, mas o seu tambm no fora, mas nem por isso... Agitado, abriu a geladeira e pegou uma lata de cerveja. 
Alviou-se ao tomar o primeiro gole. Assim que voltassem dos Estados Unidos, teria uma conversa sria com Olvia.
       No andar de cima, no banheiro da sute, Olvia contemplava seu prprio reflexo no espelho. Estava plida e abatida, os olhos obscurecidos e fundos, mas no 
era o seu rosto que via e, sim, o de sua me. Tnia, com seu rosto bonito e delicado e o corpo muito magro e frgil. Tnia e sua desordem alimentar e o casamento 
infeliz. Ento, ao lado do rosto da me, viu o do pai, irritado e impaciente como seu marido havia pouco.
       Tremula, percebia que ficava mais e mais tensa. A presso nos msculos assemelhava-se  que se aplicava nas artrias para evitar hemorragias. Hemorragias 
que podiam tirar a vida.
       Bem no ntimo, sabia que por trs da raiva sentia medo... o tipo de medo que destrua o amor e a vida. Mas s reconhecer que esse medo existia a levava a 
uma espiral de terror e preferia ignorar o fato. Respirou fundo e abriu a porta do banheiro. 
       - No mudou de ideia sobre ir ao casamento nao ? - perguntou Caspar, mais uma vez, quando se apresentaram ao balco do aeroporto. - S est indo para no 
ter que ver seu pai.
       -  Sim, isso mesmo -  confirmou Olvia indiferente.
       Caspar j no a fitava, concentrado em realizar o check-in da famlia. Se tivesse prestado mais ateno a esposa, teria visto o pnico e o medo que surgiram 
de repente em seus olhos.
       
       -  No se preocupe, tudo vai dar certo. No carro, David voltou-se para Honor.
       - Provavelmente, vai ser mais difcil para eles do que para mim. Jenny deve estar me amaldioando por lhe dar tanto trabalho. Foi amvel da parte de Jon oferecer 
essa reunio de famlia. Pelo menos, encerra o episdio num golpe s e, muito mais importante, d-me a oportunidade de apresentar voc  minha famlia - acrescentou, 
com ternura.
       Jon ficara curioso e surpreso quando David disse que gostaria de levar Honor ao jantar em familia. Como sempre, o irmo no especulou, nem se ops, dizendo 
simplesmente que aguardaria ambos.
       - Olvia no vai estar, claro - observou David. Honor no disse nada. David j lhe contara que a filha no queria v-lo, nem conversar com ele
       - De qualquer forma, ela no poderia comparecer - comentara Jon, tentando amenizar o golpe. - Ela e Caspar j tinham planejado viajar aos Estados Unidos para 
um casamento. Do meio-irmo dele, se no me engano...
       Estavam quase chegando e, pela quantidade de carros estacionados, David concluiu que praticamente toda a famlia comparecera.
       - Voc no precisa entrar - disse Honor, adivinhando o que ele sentia.
       - Sim, preciso - corrigiu David, forando um sorriso. - No posso fugir novamente, Honor.
       Foi Jack quem abriu a porta. Parecia tenso e nervoso. David tambm se sentia tenso e desejou abraar o filho, mas no forou um contato indesejado.
       -  Honor, este  Jack - apresentou, tentando se acalmar.
       O rapaz sorriu, muito mais amistoso com ela. Ento, Jon se aproximou e arregalou os olhos ao reconhecer Honor. Ento, abraou David de forma reconfortante 
e energtica, como se lhe transferisse parte de sua coragem e fora vital. Confiante, David adentrou a ampla sala de estar, com Honor lhe apertando a mo de forma 
protetora e o irmo Jon do outro lado declarando silenciosamente que todos deviam receber bem o convidado.
       Esse arranjo, muito mais que a recepo emocional e at desagradvel do pai, tornaram possvel a David suportar a reunio. Sempre que se sentia abatido, sempre 
que via dvida no olhar de algum, voltava-se para Jon e recebia fora atravs de sua atitude calma e reconfortante.
       - Sempre soube que ele voltaria - ouviu Ben contar vantagem com Saul Grighton. - E quem poderia culp-lo por deixar aquela esposa? Ela tanto fez que quase 
o matou!
       - Meu ataque cardaco no foi culpa de Tiggy - corrigiu David, imediatamente.
       - Bobagem - declarou Ben. - Voc nunca deveria ter se casado com ela. Tiggy o enganou para se casar - continuou, olhando para Maddy, que estava perto de Saul 
e sua esposa, Tullah. - Arruinou sua carreira tambm. David teria sido conselheiro da rainha, se no fosse aquela mulher.
       - No, pai - interrompeu David, com firmeza. - Nunca poderia ter sido conselheiro da rainha, e  nica pessoa responsvel por arruinar minha carreira fui 
eu mesmo.
       Cnscio do escrutnio do filho, David continuou explicando como se s os dois estivessem na sala.
       -  Seu av pode ter se esquecido de como fui idiota, mas eu no, Jack. Eu achava que sabia tudo... e que podia fazer tudo. Mas qualquer pessoa com bom senso 
vai lhe garantir que trabalhar como conselheiro e ir a festas todas as noites no combina! Eu me comportava como um idiota arrogante e mereci tudo o que me aconteceu, 
incluindo minha demisso da cmara.
       Ficaram todos em silncio. David desafiou o pai, como deveria ter feito havia muito.
       -  Se no fosse por Jon, ouso dizer que teria recebido a punio que merecia. Com certeza, no poderia ter trabalhado como advogado, muito menos me tornado 
scio do escritrio.
       - Voc tinha todo o direito de ser scio! - esbravejou Ben. - Voc  o primognito. Jon sabe que  seu direito liderar a sociedade, David.
       - No - contrariou David, calmamente. - O que Jon sabe  que no havia forma legal de eu assumir aquela posio. No tenho as qualificaes e, alm disso...
       Fez uma pausa, imaginando at onde deveria ir e quanto deveria dizer. Instintivamente, olhou para o irmo. Do outro lado da sala, Jon assentiu discretamente.
       - Alm disso, o Direito nunca me atraiu. Sinto-me muito mais feliz trabalhando com as mos do que com a cabea.
       -  Voc fez isso! - gritou Ben com Jon, colrico. - Voc o forou a falar em seu favor. Ora, eu s digo... voc nunca ser o homem que David . Voc sempre 
ficar  sua sombra. Devia se envergonhar.
       - David - advertiu Honor.
       Mas David j se levantara para ir at o pai.
       - Basta - rosnou, ameaador. Ento, voltando-se para os presentes, declarou: - Embora saiba que ningum alm de meu pai precisa ouvir que est errado e embora 
saiba que Jon no precisa da minha defesa... preciso deixar algo bem claro. Pai, voc  um idiota - acusou, spero. - Todo mundo nesta sala sabe perfeitamente bem 
que, dos dois, Jon merece as palmas, Jon devia ser elogiado e festejado. A natureza pode ter determinado que eu chegasse dez minutos antes, mas no  responsvel 
por eu ter colocado meu irmo em segundo plano em vez de proteg-lo e trat-lo com carinho. O culpado e o responsvel pelas mentiras em que acreditei sou eu mesmo. 
Ns todos sabemos o quanto sofreu quando criana por ter perdido seu irmo gmeo, pai, e nos compadecemos, mas gostaria de reforar que o motivo de minha volta, 
o nico motivo, por mais egosta que seja, foi o fato de eu precisar do meu irmo. 
       Foi quase palpvel a reao de choque de todos os parentes.
       -  Isso no significa que eu no ame meus filhos... minha filha e meu filho... ou meu pai. Amo, mas posso am-los de qualquer lugar do mundo, onde quer que 
eu esteja. Provavelmente, o melhor presente que dei a Jack foi me ausentar de sua vida para que ele pudesse experimentar o que  uma verdadeira famlia com Jon e 
Jenny. No sei explicar por que sentia tanta falta de Jon. Talvez fosse para procurar o perdo, para me redimir. Realmente, no sei e talvez nunca saiba. Como minha 
famlia, vocs tm o direito de me rejeitar ou aceitar como quiserem.
       Ele fez uma pausa e olhou para Honor.
       - Para aqueles que escolherem me aceitar, viverei  permanentemente em  Foxdean...  quando no estiver atuando como assistente de minha esposa na colheita 
de plantas e flores nas selvas amaznicas.
       David estava ciente do espanto da famlia e ouviu as manifestaes confusas, mas, na verdade, no estava prestando ateno. Olhava para Jon.
       - Acho que deixou papai chocado - observou o irmo, postando-se a seu lado.
       - Talvez, mas  o que ele merece. Ele  muito mais duro do que parece - assegurou David. - Pelo menos,  o que Honor diz e ela entende do assunto.
       - Isso, sim, foi uma surpresa - admitiu Jon.
       - Se no quiser que fiquemos, Jon, basta dizer - replicou David, srio. - Honor e eu concordamos que nos mudaramos, se fosse necessrio.
       -  Haslewich  o seu lar - decretou Jon.
       Ao fundo, David ouviu o estouro de garrafas de champanhe, pois Ben insistira que Max as providenciasse.
       - A meu filho... a David... - comeou a brindar o velho, quando todos estavam com suas taas.
       David o deteve imediatamente.
       -  No - corrigiu, com firmeza, e ergueu a prpria taa. - A meu irmo. A Jon.
       - Acho que vou gostar do seu pai - admitiu Joss, brindando com Jack.
       O primo no se manifestou, ainda estava muito confuso. Orgulhava-se do pai pelo discurso, porm, sentia que, ao se orgulhar do pai, de algum modo, mostrava-se 
desleal com Jon.
       Desajeitadamente a princpio, as pessoas comearam a se aproximar de David e Honor, para parabeniz-los. Vrios ficaram confusos quando souberam que o casamento 
no seria em Haslewich, mas na Jamaica.
       - Na Jamaica! - exclamou Jenny, espantada.
       -  o que queremos - explicou Honor, gentil.
       Mais tarde, quando j estavam na cama, David perguntou:
       - Tem certeza de que sabe em que est se metendo?
       -  Estou acostumada com famlias grandes -  respondeu Honor, distorcendo a pergunta deliberadamente.
       - Ah, sim, mas voc no  a ovelha negra e as suas filhas no se recusam a v-la nem a falar com voc.
       -  D mais tempo a Olvia - aconselhou ela. - No foi fcil para ela, crescer nas sombras.
       -  No deve ter sido fcil para Jon crescer  minha sombra - observou David.
       - Quando Olvia voltar desse casamento, poderemos conversar com ela - consolou Honor.
       - Falando de casamentos... - murmurou David.
       - Hum? - encorajou ela, aninhando-se junto dele.
       - Sei que concordamos que seria somente ns... ns e padre Incio, mas...
       - Voc quer que Jon esteja l - adivinhou Honor.
       - Voc se importa? - indagou ele. Honor negou.
       David inclinou o rosto para beij-la e imaginou o que fizera para merecer tanta felicidade. Ele mesmo se considerava totalmente desmerecedor.
       Deitada ao lado de Jon na cama, Jenny murmurou, cansada:
       - Bem, pelo menos isso est acabado. 
       Surpreendera-se quando David defendera Jon de todas as investidas de Ben, mas, mesmo assim, no se sentia relaxada com a situao. Por que temia que a proximidade 
entre os dois irmos pudesse, de algum modo, coloc-la em segundo lugar na vida de Jon?
       Podia ser tola, mas ainda ficou tensa quando Jon comentou:
       -  bom ter David de volta.  estranho, mas... eu senti a falta dele, Jenny, apesar de tudo. Agora que ele voltou... sinto-me... completo novamente.
       Ora, ela estava feliz por Jon e com aquela proximidade do irmo que ele acabara de descobrir. Claro que estava!
       Na enorme cama de quatro postes em Queensmead, Maddy suspirou quando Max se revirou a seu lado,
       - O que foi? - indagou, gentil.
       -  Nada. S estava pensando em Oliva. No sei se tio David ou meu pai realmente entendem como ela se sente com essa situao. - Aps longa pausa, revelou: 
- Sabe, era quase como se eu estivesse atrapalhando quando meu pai e tio David conversavam.
       Maddy suspirou e apoiou o queixo no trax do marido.
       -  Tente ser paciente - aconselhou. - Eles tm muita coisa para colocar em dia. E Jon no  o nico a ser atrado por David - observou, sabendo agora quem 
era o "vovinho". - Lo reconheceu algo de Jon no homem que viu no jardim, que devia ser David. Por isso, no ficou assustado.
       - Sim, voc tem razo - concordou Max. Maddy suspirou.
       Famlias! Como os relacionamentos podiam ser complicados e delicados. Levaria tempo at que a revoluo emocional com a volta de David amainasse. Com certeza, 
a chegada do beb distrairia Max e ele no se sentiria deslocado com a nova proximidade entre David e Jon. Ben j reagia  recusa severa de David em continuar menosprezando 
Jon. Irritado, recusou-se a tomar o remdio ao chegar em casa, acusando Jon de ter tomado a ateno de David, impedindo-o de conversar com o filho querido.
       - David vir v-lo amanh - consolara Maddy, paciente.
       -  Sim, e cuide para que Jon no venha com ele - disparou Ben. - Quero David s para mim.
       Famlias...
       Maddy fechou os olhos e aninhou-se junto ao marido.
       
       EPLOGO
       A nvoa da manh j se dissipava... quando desceram a montanha, caminhando devagar em fila nica, pois a trilha s permitia essa formao.
       O juiz jamaicano que realizara o casamento tomou a trilha que levava  estrada onde deixara o carro. Eles pegaram a outra variante da trilha, em direo  
misso de padre Incio.
       Quando chegaram, o padre insistiu em lhes oferecer o caf da manh. Jon e Jenny acabaram aceitando, aps alguma hesitao. J haviam estado ali no dia anterior, 
vindo do hotel em Kingston especialmente para conhecer padre Incio, e ficaram chocados ao ver como David vivera nos ltimos anos.
       - No  to ruim quanto voc pensa - afirmou David, mostrando a Jenny os quartos sem mveis com colches sobre o cho batido. - Neste clima, a gente precisa 
de bem pouco...
       Como David previra, Honor e o padre logo se reconheceram como almas gmeas e conversaram at bem tarde no primeiro dia. Jon e Jenny foram recebidos com amizade 
tambm. Jon estivera na Jamaica apenas uma vez antes, para acompanhar a recuperao de Max, que fora esfaqueado durante um assalto e se vira entre a vida e a morte. 
Esse tipo de lembrana no era fcil de se esquecer, e ele entendeu por que Jenny lhe tomou a mo ao passarem em frente ao hospital a caminho do hotel.
       A cerimonia fora simples e curta. Apenas uma troca de votos enquanto o sol se erguia sobre a montanha.
       Os recm-casados passariam alguns dias na Jamaica e, ento, voltariam para casa. Honor convenceu o padre a ir com eles para Haslewich.
       - Voc vai o qu? - indagaram Ellen e Abigail, quando Honor lhes contara sobre seus planos.
       -  Vou me casar... na Jamaica - repetira, calmamente.
       Elas ainda no conheciam David. No houvera tempo. Uma vez decidido, Honor e David queriam se casar o mais rpido possvel.
       -  Para nos apoiarmos na hora de enfrentar suas filhas - explicou David.
       Enquanto padre Incio mostrava orgulhosamente sua farmcia para Honor e Jenny, David permaneceu na varanda, contemplando o mar. Mesmo sem se voltar, sabia 
que Jon se juntara a ele.
       - Daqui, vi o avio em que voc estava partindo para a Inglaterra - comentou, nostlgico. - Padre Incio rezou pela recuperao de Max. Ns dois rezamos.
       -  difcil imagin-lo aqui - admitiu Jon, meneando a cabea.
       - Padre Incio salvou minha vida - recordou David. - Ficar aqui e ajud-lo era a nica forma de pagamento possvel.
       -  Caf da manh! - anunciou o padre, indo busc-los.
       Num local sombreado, frutas e pratos tpicos tinham sido dispostos com capricho por familiares dos pacientes. A mesa, Honor e o padre conversavam animadamente, 
sobre ervas e plantas medicinais, certamente. Jon e Jenny estavam de mos dadas, como duas crianas ligeiramente apreensivas.
       Em poucos dias, iriam todos para a Inglaterra. O padre, embora no admitisse, tornava-se frgil para continuar com aquele trabalho sozinho.
       - No sou mais necessrio aqui - dizia a Honor, triste. -: O governo abriu um asilo novo...
       - Eu preciso de voc - declarou Honor, sincera. David viu o religioso se reanimar e imaginou se Honor um dia saberia o quanto a amava. Tinha medo de lhe dizer, 
para que no se sentisse sufocada com a intensidade de seus sentimentos. Tinha o mesmo receio com relao ao irmo gmeo.
       - Ao amor e harmonia e a todas as bnos que elas nos trazem - brindou o padre, solenemente.
       - Amor e harmonia - reforou David.
       
       
       



Penny Jordan                De Volta para Casa




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